Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Início do conteúdo da página

Opinião

Publicado: Quinta, 10 de Junho de 2021, 17h08 | Última atualização em Quinta, 10 de Junho de 2021, 18h27 | Acessos: 1344

Sustentabilidade e consumo no contexto da pandemia

imagem sem descrição.

Por Aquiles Simões e Beatriz Aviz Ilustração CMP

A sustentabilidade está associada ao uso dos recursos naturais para atender às necessidades da geração presente, sem comprometer as necessidades das gerações futuras. Já parou para pensar na sua forma de consumir? De onde vêm os produtos? Como foram produzidos? Qual a quantidade de recursos naturais foi necessária para que você consuma algo? E como está sendo o seu consumo no contexto da pandemia?

O consumo está presente na história da humanidade como uma atividade básica associada ao uso de objetos, bens e serviços. Se, antes, o consumo era utilizado para saciar necessidades físicas e biológicas; hoje, as necessidades são também sociais, ou seja, passamos de uma sociedade que consumia apenas para suprir as necessidades de subsistência para uma sociedade de consumo exacerbado, o que gerou mudanças no modo de produção e, consequentemente, incidiu sobre o uso e o aproveitamento dos recursos naturais, modificando radicalmente a relação homem-natureza. 

Parte da sociedade vem reconhecendo que os padrões de produção e consumo contemporâneos geram impactos sociais e ambientais. Tais impactos nos tornam mais frágeis num contexto de pandemia e não podemos descartar a hipótese de que essa mudança da relação homem-natureza esteja na origem da pandemia da Covid-19 e de outras que possam vir. Ao observar as fragilidades desse tempo pandêmico, acreditamos que não seja possível desvincular a crise sanitária, e seus efeitos, da crise econômica, política e socioambiental.

Falar de sustentabilidade e de consumo responsável é falar de meio ambiente, das relações entre os homens e destes com a natureza. É considerar as múltiplas interações e imbricações estreitas e complexas entre natureza-saúde-cidadania. A força desse tripé torna-se evidente quando o exercício da cidadania traduz a qualidade do processo civilizatório. Essa é uma direção possível, a utopia necessária para o cultivo da modernidade, já que jamais fomos modernos.    

Partindo de uma visão crítica sobre o modelo de desenvolvimento vigente, movimentos como o da agroecologia (ancorada na agricultura camponesa), da economia solidária e dos Grupos de Consumo Responsável (GCR), entre outros, apresentam-se como alternativas de enfrentamento desse cenário imposto por um sistema econômico predatório, excludente, marcado por desigualdades sociais.

A produção sustentável de base agroecológica é um caminho alternativo para reconstruir, com todos os seus vieses, as relações sociedade-natureza assegurando o consumo responsável de alimentos saudáveis como condição de bem-estar social, de qualidade de vida, ou seja, de saúde da população, um dos pilares da cidadania pensada no presente e no futuro das próximas gerações. Existem experiências na Região Metropolitana de Belém (RMB) que utilizam essas premissas: a Morada Cabana, no município de Acará; o Sítio Velho Roque, em Marituba; o Sítio Caá Mutá, na Colônia Chicano, em Santa Bárbara; e o Lote de Produção Agroecológica (LAPO), em Mosqueiro.  

Nessa perspectiva, cabe destacar a experiência do Grupo para Consumo Agroecológico Gruca+Iacitatá (Gruca+I), que interconecta as experiências citadas acima e atua como interlocutor entre agricultores e consumidores. É a teia de aprendizagem social, econômica, política e ambiental da inovação agroecológica como motor de transformação societária sendo, pouco a pouco, tecida num contexto adverso, marcado pela crise. É a própria teia da vida, teia da cidadania, teia de ativos territoriais e das novas formas de sociabilidade que emergem como pontos nodais, colocando diferentes grupos sociais em torno de um projeto comum: o da produção sustentável para a alimentação/consumo saudável com base nos circuitos de proximidade e nos princípios da economia solidária.    

O Gruca funciona, desde 2014, baseado na autogestão e estabelece relações horizontais, ou seja, sem hierarquia entre os atores, e utiliza as premissas da economia solidária. Atualmente, o Gruca está articulado com o Iacitatá (Ponto de cultura alimentar) e, juntos, eles fazem a gestão de um grupo com cerca de 180 membros. Em virtude da necessidade de isolamento social, durante a pandemia, houve um aumento na quantidade de membros/consumidores do Gruca.

A compra coletiva é realizada semanalmente por meio do site  https://paneiro-gruca-iacitata.lojaintegrada.com.br/ que apresenta aos consumidores mais de 100 opções de produtos, como arroz, açúcar, frutas, legumes, verduras e alimentos prontos, tais quais bolos, pães e doces. A cesta de compras (paneiro) pode ser montada pelos consumidores até quinta-feira, à noite. Às sextas-feiras, começa a articulação do Gruca+I com os agricultores para preparar os produtos e ajustá-los na logística que envolve coleta, busca, separação e entrega.

Para facilitar o processo de comunicação, o Gruca+I utiliza um grupo de conversa pelo aplicativo WhatsApp, por meio do qual repassa informações sobre produção, ampliação da carteira de produtos, campanha de crédito solidário, notícias relacionadas ao contexto da soberania alimentar, entre outras temáticas.

Os laços estabelecidos no grupo de consumo são marcados por processos de reciprocidade entre produtores, consumidores e interlocutores. A troca no grupo é diferente da troca de mercado. O valor atribuído ao processo de consumo perpassa por valores simbólicos não mensuráveis, e isso é resultante de uma longa história, de acúmulo de experiência e de aprendizagem coletiva.

Diante do cenário de racionalidade econômica imposto pela modernidade e pelo contexto de pandemia, o campo e a cidade reagem para se contrapor ao domínio vigente e criam alternativas de produção e consumo, preocupados com a qualidade do alimento e com o fortalecimento da cadeia produtiva, apoiados na agricultura familiar e agroecológica.

Aquiles Simões – Doutor pela Université de Toulouse Le Mirail, professor do Núcleo de Meio Ambiente e do Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM). É coordenador do Grupo Diversidade Socioagroambiental na Amazônia (Gedaf).

Beatriz Aviz - Relações Públicas do Núcleo de Meio Ambiente (Numa/UFPA), mestranda no Programa de Pós-Graduação em Gestão de Recursos Naturais e Desenvolvimento Local na Amazônia (PPGEDAM).

 

 

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

registrado em:
Fim do conteúdo da página