Ir direto para menu de acessibilidade.
Página inicial > 2016 > 133 - Outubro e Novembro > As conversas atrás dos muros
Início do conteúdo da página

As conversas atrás dos muros

Publicado: Terça, 25 de Outubro de 2016, 17h48 | Última atualização em Quarta, 26 de Outubro de 2016, 15h21 | Acessos: 261

Pesquisa levanta relatos sobre violência e preconceito

Equipe multidisciplinar visitou escolas de ensino fundamental e médio no Pará, Amapá e Tocantins
imagem sem descrição.

Por Maria Luisa Moraes Foto Acervo do Projeto

Atualmente, o ensino público brasileiro enfrenta muitos desafios. Além da falta de estrutura nas escolas, outro tema está sempre em pauta: a violência presente no ambiente escolar. O Projeto “Violência e Preconceito nas Escolas”, idealizado pelo Fórum das Entidades Nacionais da Psicologia Brasileira (FENPB), mapeou dados em cinco escolas de três Estados da Região Norte do Brasil. Na Universidade Federal do Pará, o trabalho foi coordenado pelo professor Mauricio Rodrigues de Souza.

Em 2012, o FENPB propôs o projeto ao então ministro da Educação, Aloizio Mercadante, e, no ano seguinte, a partir de uma carta de intenção, o projeto iniciou-se. Foram formadas equipes em 10 universidades federais para coletar dados de todas as regiões do País. A Universidade Federal do Mato Grosso foi gestora central da pesquisa.

Todas as equipes eram multidisciplinares. Na UFPA, além do professor Mauricio de Souza, de Psicologia, a equipe também contou com os professores Jaime Luiz Cunha de Souza (Sociologia), Luanna Tomaz de Souza (Direito), Fernanda Valli Nummer (Antropologia) e Ivany Pinto Nascimento (Educação).

Em 2013, a equipe começou a pesquisa. Na primeira etapa, os pesquisadores fizeram um levantamento bibliográfico sobre violência e preconceito na escola, no Brasil. “Encontramos teses, dissertações, livros, capítulos de livros, artigos, panfletos, cartilhas etc.”, conta o professor. 

A pesquisa de campo teve início em 2014, quando os pesquisadores visitaram escolas no Pará, Amapá e Tocantins. Dada a abrangência da pesquisa, as escolas deveriam oferecer os ensinos fundamental e médio. A equipe permanecia nas escolas por três dias, em média, realizando dinâmicas de grupo, oficinas em sala de aula, rodas de conversa com pais, professores e funcionários.
“Em Palmas, a participação de alguns pais, funcionários, professores e corpo diretivo foi muito boa, tendo gerado, além de dados significativos, bela troca de experiências. Já em outros lugares, notamos menor presença, desinteresse e descrédito quanto a possibilidades de melhorias efetivas. Cabe acrescentar aqui, porém, a delicada situação vivida por vários colegas professores, os quais, além de baixos salários e condições precárias de trabalho, relataram medo e insegurança no exercício do seu trabalho”, conta o professor Maurício.

Conversas, textos e desenhos para “ouvir” alunos  

Nas atividades com os alunos, eram utilizadas as chamadas “perguntas disparadoras”: ‘O que é violência pra você?’, ‘O que é preconceito pra você?’, ‘Você acha que isso existe na sua escola?’ ‘Se sim, o que é que você acha que pode ser feito pra tentar melhorar isso?’. As respostas poderiam ser verbalizadas, escritas ou até desenhadas. Para as crianças menores, muitas vezes, o desenho era a melhor forma de se expressar.

Outra dinâmica interessante se chamava “Jogue Fora o seu Preconceito”. Uma urna, papéis e canetas eram deixados em uma área de convivência da escola. Nos intervalos e horários entre as aulas, os alunos escreviam os preconceitos que percebiam tanto em si mesmos quanto nos colegas e depositavam na urna. Esses escritos eram contabilizados e analisados pelo grupo de pesquisa para verificar os preconceitos mais comuns e as suas formas de expressão.

“É interessante dizer que elementos dessa violência e preconceito foram verificados não apenas em alunos, mas também em alguns pais e professores”, constatou Mauricio Rodrigues de Souza. As formas de preconceito que mais se repetiram estavam relacionadas às características físicas e à orientação sexual, além de posturas discriminatórias contra ribeirinhos e alunos oriundos do interior, especialmente no Pará.

Professores e funcionários das escolas pesquisadas também manifestaram medo, desgaste e/ou baixa autoestima. “Alguns professores se sentiam desvalorizados, inseguros e ameaçados. Soubemos de mais de um caso de conflitos físicos entre alunos, funcionários e professores”, relata o professor.

Talvez em decorrência disso, um número considerável de entrevistados apresentou posturas bastante rígidas no que se refere ao enfrentamento da violência no âmbito escolar. Por exemplo, pedidos de policiamento no interior das escolas, câmeras de vigilância e revistas nos alunos. No entanto Mauricio não acha que essas medidas sejam efetivas ou adequadas.  “O problema é que, diante disso, se ignore que mais rigidez pode significar uma resposta tão ou mais violenta contra a violência. Como alegação, veio o argumento de que, ‘nesse caso, se trata de uma violência autorizada, justificada’, o que também convida à reflexão: a violência autorizada é menos violenta?”, preocupa-se.

Entre as soluções: integração escola e família

Outras soluções apontadas pelos participantes e debatidas pelos pesquisadores incluem a maior integração entre escola e família, bem como a realização de rodas de conversa sobre diversidade sexual e étnica, inclusão social, entre outros temas. Algo observado e criticado pelos pesquisadores foi a idealização do ‘bom’ e do ‘mau’ aluno, “assim como a idealização de que existem algumas famílias absolutamente estruturadas e outras não, estabelecendo uma relação causal em que famílias desestruturadas, necessariamente, geram alunos problemáticos, violentos etc.”, conta o professor Maurício Rodrigues de Souza.

Em consequência, exige-se que os estudantes se encaixem no perfil do “bom aluno”. “Essa busca por homogeneização pode significar um preconceito pela desconsideração das diferenças. Nem todo aluno pode ou deve obedecer, igualmente, às mesmas coisas. Quer dizer, ele não pode ter questionamento de nada? Os questionamentos vindos das diferenças podem ser bons, eles podem fazer, inclusive, com que o professor ou o diretor repense: ‘será que não há algo aí que eu possa aprender?’”, reflete Mauricio.

A discussão é extensa. O objetivo maior é que os resultados auxiliem na construção de políticas públicas mais eficazes na prevenção e no combate à violência e ao preconceito no âmbito escolar, sendo que um relatório final com os resultados produzidos por todas as equipes já foi entregue ao MEC. A pesquisa será de acesso público e pode ainda promover o desenvolvimento de materiais (panfletos, cartilhas, por exemplo) a serem distribuídos nas escolas.

Ed.133 - Outubro e Novembro de 2016

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

Fim do conteúdo da página