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Publicado: Quinta, 13 de Abril de 2017, 14h17 | Última atualização em Quinta, 13 de Abril de 2017, 15h54 | Acessos: 936

Conteúdo violento está presente nos jornais, na TV e nas redes sociais

Primeira etapa: equipe catalogou edições dos jornais paraenses Diário do Pará, O Liberal e Amazônia Jornal.
imagem sem descrição.

Por Brenda Rachit Fotos Alexandre Moraes

“Divulgação e exploração de matéria capaz de emocionar, impressionar, indignar ou escandalizar”. Essa é a definição para a palavra “sensacionalismo”, de acordo com o dicionário Aurélio. E esse tem sido o pano de fundo de boa parte das manchetes dos jornais impressos ou televisivos. A exposição da violência de forma nua e crua é cada vez mais frequente e tem servido de aliada na disputa pela audiência.

Esse caráter sensacionalista das notícias sobre casos de violência é um dos principais questionamentos dentro das ações do Projeto de pesquisa “Mídia e violência: As narrativas midiáticas na Amazônia paraense”, coordenado pela professora Alda Cristina Costa, da Faculdade de Comunicação, do Instituto de Letras e Comunicação/UFPA.
Para a pesquisadora, a mídia deve ir além da publicização dos fatos. É preciso fomentar a reflexão diante da realidade a que se expõe. “Geralmente, a mídia trata o assunto de forma espetacularizada, banalizada e não chega a abrir um debate com a sociedade. É preciso um jornalismo mais sério, mais responsável, mais comprometido”, afirma Alda Costa.

Um dos objetivos do projeto é propor uma linguagem alternativa a esse formato jornalístico apelativo e espetacularizado. “Essa linguagem alternativa deve abordar uma questão ética. Não podemos esquecer que estamos lidando com pessoas. É levar em consideração o sentimento, o respeito, o compromisso que o jornalismo deve ter com os indivíduos de quem ele fala”, acrescenta a professora.

O projeto foi estruturado em três etapas. A primeira analisou as narrativas de três grandes jornais impressos de Belém. Foram consideradas as fotografias, as expressões utilizadas, o modo como o indivíduo é tratado nas matérias, entre outros aspectos. A equipe catalogou 365 edições de 2012 dos jornais Diário do Pará e O Liberal. Posteriormente, foi feito um recorte de seis meses. Destes, três meses foram do primeiro semestre; e outros três, do segundo.

Outro veículo analisado foi o Amazônia Jornal, porém, por ser menor, o recorte foi de apenas três meses. Um mês escolhido aleatoriamente do primeiro semestre; e dois meses, do segundo. “Nós dividimos por categorias. Dentro das categorias, selecionamos o que consideramos as manchetes, as fotografias e as fotos violentas”, explica.

Abordagens não respeitam nem vítimas nem acusados

A segunda etapa consistiu no mapeamento e na análise de programas televisivos de caráter popular e suas abordagens. “São programas direcionados para classes sociais com menor poder aquisitivo, as quais têm a violência como tema principal. Essa violência passa a ser utilizada como instrumento de consumo, como instrumento de atração”, explica Alda Costa.

A etapa seguinte foi a análise das mídias sociais. A professora enfatiza como essas ferramentas têm contribuído para a repercussão de fatos. Alda Costa relembra o caso ocorrido em 2014, quando dez pessoas foram assassinadas em bairros periféricos de Belém. As execuções ocorreram como revanche pela morte de um policial, apontado como integrante de um grupo de milícia.

A pesquisadora relembra da repercussão que o caso teve nas redes sociais, principalmente no aplicativo whatsapp, pelo qual, vídeos, áudios e fotos eram enviados massivamente. “As instituições fecharam as portas porque todos ficaram com medo. As informações se proliferaram de tal forma que, em certo momento, você não sabia o que era real e o que era ficção”, afirma.

Para Alda Costa, uma das questões mais sérias a serem analisadas é o modo simplista como a violência tem sido tratada. A exposição desnecessária de detalhes dos casos de violência não tem gerado reflexão, mas medo. Segundo Alda, além de a vítima e dos familiares serem expostos, o acusado é tratado como um sujeito desprovido de qualquer direito. “A dignidade e os direitos humanos não são levados em conta. Isso atenta contra os princípios do jornalismo e da democracia”, afirma.

Expectativa é provocar uma mudança de linguagem

Alda Costa afirma que o papel dos meios de comunicação não é sentenciar casos, mas informar e esclarecer por meio de uma linguagem ética. Segundo a professora, é fundamental cobrar dos meios de comunicação essa postura para que os veículos respondam, de forma satisfatória, à expectativa da sociedade.

As pessoas, principalmente as vítimas de violência, acabam esperando que a mídia seja uma mediadora, que cobre das autoridades uma resolução para os casos veiculados. “Então a mídia é importante, porque dará visibilidade à dor, fará com que os poderes instituídos observem o que está acontecendo e tenham uma ação de justiça”, afirma a pesquisadora.

Diante disso, a professora observa que as pessoas compram os jornais e assistem a eles não por gostarem de suas abordagens, mas por, justamente, de alguma forma, se identificarem com uma realidade que lhes é próxima. Para ela, as pessoas percebem, no que é noticiado, um contexto do qual elas fazem parte. Mas, ao mesmo tempo, elas não pretendem se deparar com a exposição pública do que lhes causa dor.

Alda Costa afirma que há estudos sobre mídia e violência em outros Estados que obtiveram como resultado mudanças significativas nas abordagens jornalísticas locais. Os jornais não deixaram de noticiar os casos de violência, porém passaram a utilizar uma linguagem diferenciada. Para a pesquisadora, com o projeto, a Universidade cumpre um papel social na sua relação com a sociedade.

Na Universidade Federal do Pará, esta é a primeira pesquisa relacionada à mídia e à violência. A professora lembra que existem outros estudos sobre violência, porém com abordagens e perspectivas diferentes. O projeto acontece em parceria com a UFPA e o CNPq.

A equipe do Projeto “Mídia e Violência: As narrativas midiáticas na Amazônia paraense” é composta, também, pelo professor Wilson Barp, do Programa de Pós-Graduação em Defesa Social e Mediação de Conflitos, do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas/UFPA; pela professora Ivana Oliveira, da Universidade da Amazônia; por três bolsistas e por outros colaboradores.

A professora explica que há necessidade de parcerias que possibilitem a interação com outras áreas do conhecimento, para que seja possível compreender algumas questões. “Hoje,  percebo que precisamos fazer um projeto maior, que faça a interface com outras áreas do conhecimento para que possamos dar uma resposta, não definitiva, mas que nos permita compreender o que está acontecendo”, conclui.

Ed.136 - Abril e Maio de 2017

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