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Entrevista: Por uma educação holística

Publicado: Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 16h13 | Última atualização em Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 17h48 | Acessos: 56

McCowan indica caminho para uma sociedade mais justa

Tristan McCowan
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Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Doutor em Educação pela Universidade de Londres, o professor Tristan McCowan desenvolve projetos de pesquisa sobre educação superior em vários países da América do Sul e da África. Recentemente, esteve em Belém, onde participou de eventos na UFPA e na Universidade do Estado do Pará, com professores da área da Educação. Sua contribuição na área dos Direitos Humanos  torna-o reconhecido entre os maiores pedagogos contemporâneos.  Nesta entrevista, McCowan, autor do livro Education as a Human Right, fala da sua experiência e destaca a inovadora contribuição de alguns países, entre os quais, o Brasil, na área da educação popular.

Interesse no Brasil

Moro na Inglaterra, mas venho há 25 anos ao Brasil, onde desenvolvo estudos específicos na área da educação. O Brasil é um lugar interessante e um pouco contraditório: tem problemas educacionais, de exclusão social, de desigualdades socioeconômicas, de gênero, de etnia etc., mas, ao mesmo tempo, é um país fascinante e muito inovador. Tem experiências muito interessantes na área da educação, inclusive em nível internacional. Em parte, meu trabalho aqui é entender essas iniciativas e divulgá-las lá fora. Na maioria das vezes, a divulgação é em língua inglesa, para audiências que não conhecem a realidade brasileira. Penso que é importante termos uma difusão internacional das iniciativas que mobilizam a área da educação no Brasil.

Movimentos sociais

O Brasil é um país com movimentos sociais representativos em muitas áreas. Na área da reforma agrária, no movimento das mulheres, na questão étnica, no movimento indígena, entre outros. São movimentos sociais de relevância que, muitas vezes, criam experiências próprias e também pressionam os governos em diversos níveis para mudar as políticas públicas. No Brasil, dependendo do governo, existem espaços de mudanças e políticas públicas em transformação. Já houve experiências interessantes de apoio público para iniciativas de baixo. Penso que esse espaço de interação é importante.  Na Grã-Bretanha, esse tipo de interação é pouco comum, lá o Estado é muito fechado para influências de baixo, mesmo influências acadêmicas. O governo tem pouco contato real com as universidades e com os professores. Então este diálogo é mais forte no Brasil, e isso leva a novas oportunidades.

Universidade e ensino básico

Penso que, no Brasil, existe ainda um vínculo forte entre o ensino acadêmico e o ensino básico, em parte porque muitos alunos da graduação e da pós-graduação ainda estão atuando na sala de aula dos níveis fundamental e médio. Mas não só por isso, também há uma parte expressiva de professores na área da educação muito comprometidos com a base, com as escolas, com os movimentos dos docentes etc. A experiência dos docentes do Instituto da Ciência da Educação da UFPA, por exemplo, é muito interessante, porque é um grupo que tem uma atuação intelectual teórica forte, mas também está comprometido politicamente com a melhoria da qualidade da educação. Isso ocorre em relação às políticas nacionais, tanto para o ensino superior como para a educação nas comunidades indígenas, ribeirinhas e populações tradicionais.

Saberes populares

Existem, atualmente, muitas iniciativas de ensino que levam em conta os saberes das populações para as quais se voltam, embora poucas com o apoio necessário. As experiências universitárias na área da Licenciatura Indígena, por exemplo, são fascinantes porque buscam combater a exclusão de certos grupos sociais. Trata-se de uma luta para mudar a natureza desses espaços funcionais, pensar o conhecimento e experiência de ensino e da pesquisa de outra maneira, com outra lógica epistemológica, respeitando as tradições de conhecimento dos povos indígenas e dos demais grupos à margem da sociedade.

Mercado e cidadania

Não só no Brasil, mas também na maioria dos lugares, vive-se um dilema. O trabalho é uma parte importante na vida de uma pessoa, mas eu penso que os sistemas educacionais foram muito para esse lado. Precisamos repensar a educação de forma mais holística, pensar na pessoa como um todo: a criatividade, a estética e a política para formar uma sociedade mais justa.

Brasil e África

Nos últimos anos, estudei bastante a questão educacional em países africanos. De alguma maneira, os problemas educacionais do Brasil e da África são parecidos, mas lá, eles são mais severos. Algumas questões são iguais, por exemplo: falta de recursos nas escolas, corrupção e desvio de verba pública. Os países africanos apresentam maiores dificuldades de construir os seus sistemas, mas não podemos esquecer que a maioria deles ganhou independência nos anos de 1960.  Há um longo caminho para a reconstrução dessas sociedades, porque elas tiveram seus sistemas sociais, educacionais e políticos destruídos na fase da colonização. A educação nos países africanos reflete essas dificuldades.

Educação na América Latina

Eu diria que há uma contribuição muito forte da América Latina na área da educação popular. Você tem o exemplo venezuelano, que é de uma proposta mais socialista, e, do outro lado, tem o exemplo chileno, a partir da ditadura, que é o laboratório do neoliberalismo. Nós vemos também iniciativas interessantes realizadas por governos representativos dos povos indígenas andinos. Então, você tem uma grande variedade de experiências. Não é que não existam experiências de educação popular no resto do mundo, mas elas são muito mais significativas na América Latina, uma tradição que tem, entre os pioneiros, o educador brasileiro Paulo Freire. Educadores como ele, que pensam a educação de jovens e adultos, a educação participativa e comprometida com a justiça, buscam focos inovadores do processo de ensino-aprendizagem. Essas experiências permanecem e, apesar de sofrerem ameaças em alguns momentos, já fazem parte da tradição educacional latino-americana. Outra contribuição é o da universidade pública na América Latina, que surge com a reforma da Universidade de Córdoba, na Argentina, em 1918. Trata-se de um novo olhar, outra orientação que não é aquela da universidade torre de marfim, mas uma universidade comprometida com a comunidade, por meio não só da pesquisa e do ensino, mas, também principalmente, da extensão. Essas universidades públicas inovam também ao democratizar o acesso ao ensino superior. Essa forma de pensar a universidade pública permanece forte e é uma contribuição muito importante da América Latina para o mundo.

Ed.140 - Dezembro e Janeiro de 2017 / 2018

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