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Resenha: Panorama do falar amapaense

Publicado: Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 16h30 | Última atualização em Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 17h09 | Acessos: 31

Panorama do falar amapaense

Por Walter Pinto Reprodução Alexandre de Moraes

Um atlas linguístico tem por finalidade registrar a diversidade na forma de falar do povo de uma região geograficamente definida. No Brasil, a língua portuguesa apresenta diversidades que estão relacionadas, entre outros aspectos, às diferentes formas de colonização das regiões.  Não há uma língua portuguesa padronizada, única, falada do Oiapoque ao Chuí, ou seja, do extremo norte ao extremo sul.  Nem mesmo dentro dos limites de cada região, ou mesmo de cada Estado, há uma uniformidade de falares. Nossa língua vem sofrendo mutações linguísticas, desde que passou a ser adotada, pela força do conquistador português, como língua oficial.

A primeira experiência para  registrar as diferentes formas de falar o português no Brasil vem do Período Colonial, quando, em 1826, o escritor, advogado e político baiano Domingos Borges de Barros, o Visconde de Pedra Branca, produziu um glossário em que destaca várias palavras surgidas do contato linguístico entre colonos e indígenas. O primeiro atlas linguístico brasileiro – Atlas prévio dos falares baianos – foi publicado em 1963, por Nelson Rossi. Teve por objetivo realizar o mapeamento dos falares baianos, compreendido como português falado pela população de um extenso território, bem superior ao Estado da Bahia, que abrange, além da Bahia, as regiões do Estado de Sergipe, norte de Minas, leste de Goiás e do atual Tocantins.

A partir de 1996, com o lançamento do Projeto “Atlas Linguístico do Brasil”, houve um aumento significativo de publicações de atlas regionais e estaduais por todo o país, assim como, no meio acadêmico, as pesquisas de cunho geossociolinguístico ampliaram-se. Na Região Norte, aos dois primeiros atlas publicados – o Linguístico sonoro do Estado do Pará e o Linguístico do Estado do Amazonas – veio somar-se o Atlas linguístico do Amapá, publicado em 2017, fruto do trabalho conjunto desenvolvido pelo pós-doutor em linguística pela Université de Toulouse e pesquisador no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPA, Abdelhak Razky, pela doutoranda em Linguística pela UFRJ e docente da UNIFAP, Celeste Maria da Rocha Ribeiro, e pelo doutorando pela UFPA e colaborador do Projeto Atlas linguístico do Brasil, Romário Duarte Sanches.

O Atlas linguístico do Amapá é um atlas pluridimensional, que apresenta aspectos da variação dos dialetos e as novas palavras formadas em decorrência da convivência entre os grupos sociais, da qual resultam as gírias e os jargões, por exemplo. Seus autores explicam que ele se insere no método geolinguístico, que tem como referência o projeto do Atlas linguístico do Brasil. O trabalho teve início em 2011, com o treinamento de acadêmicos da UNIFAP que atuariam como inquisidores. A coleta de dados foi realizada entre 2012 e 2014, tendo sido ouvidos quarenta informantes, distribuídos por dez localidades do Amapá (Macapá, Santana, Mazagão, Laranjal do Jari, Pedra Branca do Amapari, Porto Grande, Tartarugalzinho, Amapá, Calçoene e Oiapoque).

Contendo 286 páginas, o Atlas linguístico do Amapá é formado por 16 cartas fonéticas, que “expõem a unidade e a diversidade dos principais fatos fonético-fonológicos que caracterizam os falares do Norte, tais como a realização das vogais médias pretônicas, do /S/ em coda silábica, dos ditongos decrescentes e da nasal palatal, entre outros”, como informa, na introdução da publicação, a professora da Universidade Estadual de Londrina, Vanderci Andrade Aguilera, uma das maiores estudiosas da área da Geolinguística do Brasil. Aguilera ressalta o rigor científico da equipe, que, enfrentando “os riscos e as adversidades normais que cercam a elaboração de trabalho dessa natureza”, não deixou que a ideia se apagasse, atuando de forma “consciente e bem estruturada”, tendo “finalizado em prazo relativamente curto, se considerarmos a duração de projetos semelhantes”.

De acordo com o Censo do IBGE de 2010, o Amapá tem 669 mil habitantes, distribuídos em 16 municípios. Segundo os autores, a formação da sociedade amapaense foi construída por meio de “migrações bastante diversificadas etnicamente, resultando em uma mistura de hábitos, costumes, tradições, dialetos, formas de organização, de interação com o meio ambiente e com as pessoas”.

O Atlas linguístico do Amapá possibilita vislumbrar o panorama da realidade linguística do Amapá, buscando contribuir para o entendimento mais coerente da língua e de suas variantes e preocupando-se também em eliminar a visão distorcida que tende a privilegiar uma variante, geralmente a mais culta, e estigmatizar as demais. Seus autores acreditam que ele também contribuirá para que “se efetive um ensino pautado na variação linguística, visto que, com o conhecimento da realidade linguística regional, o professor torna-se mais capacitado para identificar parâmetros e peculiaridades sociais e geográficas da língua, em consonância com os usos locais, servindo de modelo no processo ensino-aprendizagem da língua materna”.

Serviço - Atlas linguístico do Amapá. Abdelhak Razky, Celeste Maria da Rocha Ribeiro e Romário Duarte Sanches. Ed.Labrador Universitário, 2017.

Ed.140 - Dezembro e Janeiro de 2017 / 2018

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