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Resenha

Publicado: Terça, 28 de Março de 2023, 14h31 | Última atualização em Terça, 04 de Julho de 2023, 14h26 | Acessos: 892

José Saramago em pensamento social e literário

#ParaTodosVerem: Arte mostra, no centro, o livro “José Saramago: Literatura & Compromisso”. Na parte inferior, à direita, ao lado do livro, observa-se uma xícara na cor branca, contendo café. Na parte superior, do lado esquerdo, tem-se um pequeno ramo na cor verde.
#ParaTodosVerem: Arte mostra, no centro, o livro “José Saramago: Literatura & Compromisso”. Na parte inferior, à direita, ao lado do livro, observa-se uma xícara na cor branca, contendo café. Na parte superior, do lado esquerdo, tem-se um pequeno ramo na cor verde.

Por Germana Araújo Sales Arte CMP/Ascom 

Em 2022, foi comemorado o aniversário de 100 anos de um dos maiores escritores da Língua Portuguesa, José Saramago, nobre das palavras e dos longos parágrafos com pontuação não convencional, o Nobel da Língua Portuguesa. O centenário de José Saramago desencadeou, durante todo o ano, iniciativas em diversas instituições, por todas as partes do mundo. Nesse contexto, a UFPA, com apoio da Fundação José Saramago (FJS), promoveu, entre outras ações, durante três dias, um encontro para lembrar o escritor, sua obra e contribuição para a literatura e para a sociedade.

Nesse ensejo, houve o lançamento do livro Literatura e Compromisso. Textos de doutrina literária e de intervenção social, a coletânea reúne escritos de José Saramago acerca da “literatura, da arte e do modo de ser do escritor em sociedade”, nas palavras de Carlos Reis, professor catedrático da Universidade de Coimbra e comissário para o Centenário de José Saramago, responsável pela seleção dos textos, pela introdução e pelas notas.

Literatura e Compromisso é uma obra que presta um grande feito aos leitores e aos estudiosos das Letras, pois disponibiliza o pensamento do escritor acerca da ficção e história, a literatura como compromisso e transformação social, o narrador e a alegoria. Essas reflexões que compõem a primeira parte do livro me fizeram associar Saramago a outro grande escritor português, Fernando Pessoa, quando, de igual forma, se dedicou a anotar ideias estéticas, filosóficas e políticas.

O agrupamento dessa produção ensaística dos dois escritores distingue um feito não comum à maior parte dos romancistas ou poetas, a ponderação acerca da produção literária e sua doutrina teórica. Para Saramago, entretanto, a noção de literatura não se dissipava das considerações políticas e sociais, às quais também dedicara a pena. Em entrevista concedida à revista Bravo, em 1999, em uma das vindas ao Brasil, Saramago assinalou: “escrevia porque tinha algo a dizer”. Tinha o desejo, como narrador, do que chamou “uma coisa tão simples e que não tem resposta: quem somos?” “O que eu quero saber, no fundo, é o que é isso de ser-se um ser humano”. Dessas veleidades, depreendemos, nos vocábulos que formam os títulos dos capítulos da obra, o quanto está esmiuçado e esquadrinhado do propósito como escritor.

O livro Literatura e Compromisso está dividido em duas partes: “Textos de doutrina literária” e “Textos de intervenção social”. A primeira parte reúne capítulos dirigidos à Doutrina Literária, História e Ficção, ao Romance, à Crônica, à Alegoria e ao “Autor como narrador omnisciente”. O exemplar traz ainda dois escritos do organizador da obra, “Palavras para uma Homenagem Nacional”, lido, em 1998, durante evento em homenagem a Saramago promovido pela Biblioteca Nacional de Portugal, e “José Saramago: o Escritor como Mestre”, de 2010, lido durante as cerimônias fúnebres do autor.

Na segunda parte, voltada para as questões sociais, ultrapassando o limite ficcional, seus posicionamentos estavam demonstrados concretamente nas ações e no compromisso igualitário, quando reflete acerca do seu iberismo, ou mesmo sobre o nosso Brasil, sem direitos respeitados e sem justiça cumprida, e ainda sobre a África. No entanto é no texto “Chiapas, Nome de dor e esperança” que está expressa a descrição sobre o desconhecimento ou incompreensão aos indígenas chiapas, cuja humilhação, infelizmente, não os individualiza, mas se reflete em outras comunidades, conforme está narrado no texto “Brasil: um direito que respeite, uma justiça que cumpra”.

Se, no início do livro, Saramago pondera “se não haverá na história demasiada ficção e, por outro lado, equilibrando a dúvida, se haverá na ficção suficiente história”, nas linhas que ilustram os textos de intervenção social são reproduzidas as mazelas de uma terra, tão contraditória, que se assemelha à ficção, quando nos perguntamos: como o Brasil, que possui 850 milhões de hectares, incluindo lagos, rios e montanhas, não tem terra para todos, com mais de quatro milhões de famílias rurais sem terra?

A produção de Saramago nos dá convicção de que essa má distribuição de terras e alimentos está relacionada com o processo democrático, pois, no que concerne à resistência, como brio, determinação e vigor, poderemos ler nas linhas de “Claro como água” que tudo o que é verdadeiramente democrático não é somente ser eleito pelo povo, mas este eleito tenha em vista a felicidade do povo.

Ler Saramago é experienciar a concatenação entre pensamento e produção, pela concepção das imagens sociais e a maneira como via o mundo, sem receios. A obra Literatura e Compromisso nos deixa esse legado das manifestações escritas capazes de ultrapassar o ser ficcional, sem perder o tom prosaico e seu entendimento do mundo, pois está configurada no universo de interposição ao que é interdito, às ações omitidas na perspectiva da opressão e do controle de poder, para sacudir o leitor da sua condição amorfa e amoldada. No que tange à Literatura, temos a experiência de Saramago como escritor na sua posição circunspecta e profunda, capaz de dispensar personagens nominados, pois, como ele mesmo afirmava: “os nomes deixaram de ter significado”. Como homem e como gênio, assemelha-se ao outro gênio, Fernando Pessoa, que, como Alberto Caeiro, de igual forma se perguntou: “O que penso eu do mundo?”, no poema O Guardador de Rebanhos (1925).

Literatura e Compromisso veio a público impresso pela Editora da Universidade Federal do Pará (ed.ufpa), em edição de requintada materialidade e oportuniza ao público a exposição do posicionamento estético e social de Saramago na vertente mais fiel do que o escritor foi idealmente em seus conceitos e reflexões. Uma obra-prima que se estende para além do campo de trabalho do romancista, definidor da seguinte imagem do mundo, em resposta a Pilar, transmitida na obra Conversas inéditas: José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes: “Que imagem tenho eu do mundo? Uma coisa é a imagem que eu tenha da travessa da Queimada, e aí realmente é que eu sou essa coisa toda que dizem que eu sou. Eu creio que a imagem que o mundo faz de mim, aquela parte do mundo que está interessada naquilo que eu faço ou naquilo que eu diga, é que sou uma pessoa de uma coerência à prova de bomba.... que não tenho medo daquilo que digo, nem daquilo que penso, e que digo aquilo que penso sejam quais forem as circunstâncias em que tenha que dizer, se realmente tenho de o expressar. Sou uma pessoa que se preocupa com os gravíssimos problemas deste mundo, que intervém sempre que pode, que ajuda sempre que pode, bem acompanhado, enfim, pela mulher que tenho, há de acrescentar”

Serviço – Literatura e compromisso: textos de doutrina literária e de intervenção social. José Saramago. Coedição Editora da Universidade Federal do Pará e Fundação José Saramago, 2022.

Onde encontrar: Em Belém, na Livraria da ed.ufpa, no campus da Universidade Federal do Pará; na Livraria Leitura e na Livraria da Editora Paka-tatu. Em todo o Brasil, em livrarias parceiras e no site vendasonline.editora.ufpa.br (inclusive no interior do estado do Pará).

Beira do Rio edição 166

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