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Artefatos desvendam ocupação em Jacarequara (PA)

Publicado: Terça, 06 de Janeiro de 2026, 18h50 | Última atualização em Sexta, 09 de Janeiro de 2026, 20h33 | Acessos: 41

Sítio-escola é coordenado por pesquisadores da UFPA e do MPEG

#ParaTodosVerem: A fotografia mostra um sítio arqueológico, com um fundo de barro sobre o qual estão dispostos, da esquerda para a direita, alguns cacos, um vaso e parte de outro objeto de cerâmica.
imagem sem descrição.

Por Cintia Magno 

Cacos de cerâmica, conchas, restos de ossos e pequenos objetos esculpidos em pedra podem ser testemunhos da história de povos que viveram sobre determinados territórios milhares de anos atrás. Esses e outros vestígios são o foco das pesquisas de campo do sítio-escola de arqueologia realizado na Comunidade do Jacarequara, na Ilha de Trambioca, em Barcarena. Fruto de uma parceria entre a Universidade Federal do Pará (UFPA), o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) e instituições internacionais, a pesquisa de campo identificou artefatos que remontam à importância do lugar para a moradia e a realização de festas e rituais por parte de seus antigos habitantes. 

Desde 2012, o Museu Emílio Goeldi vem realizando pesquisas sobre o Sítio Sambaqui Jacarequara que permitiram estimar uma antiguidade de 2.700 anos para a ocupação, graças ao achado de amontoados de conchas, terra preta com cerâmicas, ossos, sementes, carvões e objetos de pedra. Atualmente, a região é investigada pelo Projeto “Florestas Culturais e Territorialidades na Amazônia Oriental Pré-Colonial”, coordenado pelos professores do Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPA (PPGA/UFPA) Daiana Travassos Alves e Pedro José Tótora da Glória; e pela professora do Programa de Pós-Graduação em Diversidade Sociocultural do MPEG (PPGDS/MPEG) Helena Pinto Lima.

Como parte desse trabalho, em 2024, o local foi selecionado para receber o sítio-escola, realizado este ano, o que possibilitou somar conhecimentos aos estudos iniciados anos atrás. “A arqueologia se constrói a partir de questões e hipóteses. No caso do Jacarequara, estas tiveram início com as pesquisas da arqueóloga aposentada do Museu Goeldi Maura Imázio da Silveira. Agora, podemos refinar e ampliar os questionamentos e as hipóteses sobre a formação do sítio e o modo de vida de seus habitantes”, explica a professora Daiana Travassos Alves.

Entre os materiais coletados nas escavações, estão artefatos cerâmicos, líticos e em osso. Além deles, a professora aponta que foi possível coletar muitos restos de fauna aquática e terrestre, assim como plantas carbonizadas. “Fizemos amostragens de solo para múltiplas análises: de geoquímica e de micromorfologia, para entender os tipos de alterações humanas no local, na formação do sítio; e de arqueobotânica, para compreender o componente vegetal nas escolhas alimentares, de medicamentos e construtivas”, comenta.

Com as pesquisas já realizadas, foi possível identificar o tipo de sítio encontrado naquela região. A professora Daiana Travassos explica que a construção de sambaquis é um fenômeno que ocorreu em áreas costeiras em todo o mundo, sendo os fluviais menos frequentes. Na Amazônia, alguns dos sambaquis mais antigos são os fluviais, associados a processos em que importantes inovações tecnológicas se iniciaram, como a própria produção de cerâmica. “No sambaqui Jacarequara, observamos múltiplos eventos de acúmulo de conchas na estratigrafia, somadas à presença de uma cerâmica que se assemelha tecnologicamente à encontrada nos sambaquis do salgado, mas com elementos decorativos encontrados em sítios arqueológicos do Marajó”, pontua.

A pesquisadora também destacou a alimentação dos povos que habitaram aquele território. Os achados de restos de fauna apontam uma dieta ampla com uma gama de pescados e caça, o que também revela que aquele era um território rico em biodiversidade.

A próxima etapa do projeto inclui a análise laboratorial dos achados. A professora Daiana explica que os primeiros cuidados de curadoria, que incluem a higienização e o inventário das peças, já foram realizados nas atividades de laboratório no sítio-escola. Agora, os trabalhos deverão envolver estudos aprimorados de arqueobotânica, geoquímica, zooarqueologia e análise cerâmica. “A etapa deste ano respondeu importantes perguntas sobre o sítio Jacarequara, mas instigou novas perguntas, então planejamos retomar a pesquisa na comunidade ano que vem. Além disso, retornaremos para uma devolutiva à comunidade com os resultados preliminares”, explica

Para além da escavação

O sítio-escola também mantém uma preocupação educacional, apresentando aos estudantes os pressupostos básicos da pesquisa arqueológica, no que se refere tanto à pesquisa de campo, quanto à análise em laboratório do acervo coletado.  “A formação de recursos humanos é um dos pilares do projeto. O sítio-escola proporcionou uma prática que os bolsistas do projeto não teriam se ficassem restritos aos estudos laboratoriais com coleções”, evidencia a professora Daiana Travassos Alves.

A aluna do PPGA/UFPA Gisele Rosa conta que esta foi a sua primeira experiência de prática arqueológica: “O sítio-escola proporcionou a mim e aos demais alunos a oportunidade de vivenciar a realidade de um trabalho de campo em Arqueologia. Colocamos em prática os conceitos que foram ensinados na sala de aula, além de atuar em atividades não abordadas na teoria, mas necessárias para a escavação do sambaqui”.

Gisele aponta que a dinâmica do sítio-escola permitia que os alunos experienciassem a prática em diferentes atividades, desde o mapeamento do local até a escavação do solo, a limpeza dos artefatos e dos sedimentos, a classificação dos vestígios e manipulação dos equipamentos de sensoriamento remoto, entre várias outras funções. “A convivência com os colegas estrangeiros e com a comunidade de Jacarequara também foi bastante proveitosa, pois as trocas culturais enriquecem as formas de interpretar o registro material, apontando novos caminhos para as pesquisas”, explica.

Durante as escavações realizadas entre julho e agosto deste ano, foi possível identificar vestígios que podem trazer novas informações sobre o território e suas dinâmicas de ocupação. “Encontramos algumas bases inteiras de peças, o que é interessante para a análise de amido, que verifica indícios de alimentos que eram armazenados nesses objetos. Também foram encontrados vestígios como conchas, ossos de animais e carvão. Essas populações utilizavam determinadas espécies vegetais para a produção de lenha, que era queimada nas fogueiras em que preparavam sua comida. Por meio de análises em laboratório, pretendemos identificar quais espécies são essas, assim como o exame dos ossos da fauna, encontrados no sítio, nos ajudará a saber mais sobre a alimentação dessas pessoas”, comenta a aluna.

Edição: Iaci Gomes | Ilustração: Freepik/Banco de Imagens

Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro 

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