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Suicídio é a segunda causa de morte entre jovens

Publicado: Terça, 06 de Janeiro de 2026, 19h33 | Última atualização em Sexta, 09 de Janeiro de 2026, 20h30 | Acessos: 62

Sistema desarticulado e subnotificação dificultam a prevenção

#ParaTodosVerem:Fotografia mostra uma jovem de cabelos escuros sentada em um chão de madeira, com a cabeça apoiada nos joelhos e os braços cruzados. Ela veste uma camisa quadriculada, calça jeans azul e tênis preto.
imagem sem descrição.

Por Luiza Amâncio 

Belém enfrenta um desafio de saúde pública complexo e multifacetado: o suicídio. Mais do que um problema individual, manifesta-se em diversas áreas, por fatores biológicos, econômicos, sociais e pessoais, deixando um rastro de impactos significativos na sociedade. A verdadeira dimensão desse dilema na cidade é obscurecida por uma realidade preocupante: a subnotificação e as falhas no registro de dados.

Segundo o Datasus, em 2022, o Pará registrou 1.484 casos de lesões autoprovocadas, com 235 deles em Belém. Contudo a pesquisadora Samara Machado Paiva, autora da dissertação de mestrado Itinerário, cuidado e vivência de profissionais de saúde na atenção à pessoa em risco e crise suicida, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Federal do Pará (UFPA), destaca que ainda existem casos não registrados. De acordo com ela, muitas mortes por suicídio também são registradas como morte por outra causa, por exemplo, quando o óbito intencional por atropelamento é registrado como acidente de trânsito.

A subnotificação é um problema. A Lista Nacional de Notificação Compulsória deveria ser realizada pelas unidades de saúde em até 24 horas. No entanto a rotina corrida dos serviços de saúde e a burocracia do preenchimento das fichas de violência autoprovocada frequentemente impedem que isso ocorra. Além disso, Samara também destaca que a ficha não traz critérios importantes para estimar dados sobre grupos vulneráveis, como gênero (restrito a masculino e feminino) e cor, que nem é um campo obrigatório.

Apesar das lacunas nos dados oficiais, a pesquisadora identificou que a faixa etária mais vulnerável é a de jovens entre 16 e 32 anos. Além deles, indivíduos que enfrentam vulnerabilidades relacionadas ao sofrimento mental, como as mulheres, o público LGBTIQIA+ e as pessoas negras, também apresentam um risco elevado, assim como profissionais da área da saúde e da segurança, como policiais. Porém ela ressalta que “esses dados dizem mais sobre pesquisas quantitativas do que sobre os dados de que temos registros”. O suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens de 15 e 29 anos globalmente, e uma das 10 principais causas de óbito em todas as faixas etárias.

A dimensão real do problema em Belém é preocupante. A pesquisadora, que atua em uma equipe multidisciplinar na atenção primária, relata atender, diariamente, a crianças e adolescentes já apresentando ideação suicida. Para ela, um alarme deve soar, pois estes são sinais de que as estratégias não estão funcionando.

Raps desarticulada: um obstáculo crítico ao cuidado

A dissertação expõe uma grave desarticulação na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) de Belém, evidenciada falta ou precariedade de comunicação entre os diversos pontos de atenção. O fluxo teórico de atendimento prevê o encaminhamento de usuários com ideação suicida ao Hospital de Referência da Raps para estabilização e, posteriormente, ao Centro de Atenção Psicossocial (Caps) para continuidade do Projeto Terapêutico Singular (PTS), mas não é o que acontece na prática.

A falta de articulação prejudica, diretamente, o cuidado da pessoa em risco ou crise suicida. Profissionais da Atenção Primária à Saúde (APS) ficam sem condições de orientar o atendimento, porque a comunicação com os Caps e com a urgência é falha. Nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), muitos pacientes recebem o atendimento inicial após uma tentativa de suicídio, mas saem sem continuidade do cuidado psicológico. Sem acesso ao histórico completo, a APS não consegue planejar ações de prevenção e pós-venção, e as informações acabam chegando de forma informal pela comunidade.

Os dados do Sistema de Informação em Saúde para a Atenção Básica (Sisab) mostram essa falta de articulação, com poucos ou nenhum encaminhamento da Atenção Primária para serviços especializados em casos de suicídio. Segundo Samara, isso não significa ausência de cuidado, mas falhas de registro. A sobrecarga de trabalho, a falta de equipamentos e a complexidade dos formulários fazem com que o atendimento seja priorizado e o registro fique em segundo plano.

Uma alternativa pela prevenção

A pesquisa de Samara mostra uma grande falha na formação dos profissionais de saúde: a falta de disciplinas sobre suicidologia. Psicólogos, terapeutas ocupacionais e enfermeiros entrevistados apontam essa ausência como uma das principais barreiras para um atendimento qualificado. Na prática, isso faz com que muitos profissionais não saibam reconhecer sinais de risco ou conduzir uma crise, encaminhando rapidamente os casos ao Caps, que já está sobrecarregado.

A pesquisadora destaca que, embora a sensibilidade seja individual, a técnica para lidar com o sofrimento deveria fazer parte da formação. Um profissional bem preparado identifica sinais de risco mesmo em dias difíceis. Porém, como a graduação não oferece esse preparo, muitos aprendem apenas em cursos externos, por iniciativa própria. Isso gera profissionais inseguros, que, por medo ou falta de preparo, acabam negligenciando o cuidado ou repassando a responsabilidade, criando um ciclo de atendimento inadequado que prejudica o paciente.

A dissertação propõe a implementação de uma "clínica ampliada" que vá além do enfoque hospitalar, valorizando o cuidado no território e no cotidiano do sujeito. Essa perspectiva entende que o sofrimento existencial não se restringe aos espaços formais de saúde, mas permeia a vida das pessoas em diversos ambientes, como escolas, universidades, locais de trabalho etc.

Nesse contexto, a figura dos "guardiões da vida" emerge como um potencial transformador. São indivíduos da comunidade que, mesmo sem formação profissional específica, estão em contato contínuo com as pessoas em situações críticas e cotidianas. Eles podem identificar crises e sinais de risco para o suicídio, como mudanças de comportamento, despedidas implícitas ou discursos mórbidos, e atuar como uma ponte entre o SUS e os usuários, aumentando o acesso a serviços antes do agravamento dos casos e com o uso de recursos de menor complexidade.

Capacitar esses “guardiões” — como educadores, profissionais de segurança e outros envolvidos em crises e pós-venção — é essencial para fortalecer a rede de apoio informal. Samara defende que é preciso treiná-los e aproximar a escola do cuidado em saúde, criando protocolos de prevenção e registrando informações sobre a vulnerabilidade emocional dos alunos. Ampliar a clínica para além dos serviços de saúde, alcançando os espaços em que as pessoas circulam, é fundamental para que a sociedade inteira participe da prevenção.

Sobre a pesquisa: a dissertação de mestrado Itinerário, cuidado e vivência de profissionais de saúde na atenção a pessoas em risco e crise suicida foi defendida por Samara Machado Paiva, em 2024, no Programa de Pós-Graduação em Psicologia (PPGP), Campus Belém, com orientação da professora Maria de Nazareth Rodrigues Malcher de Oliveira Silva.

Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Freepik/Banco de imagens

Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro 

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