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Das mametus às muzenzas

Publicado: Terça, 06 de Janeiro de 2026, 19h58 | Última atualização em Sexta, 09 de Janeiro de 2026, 20h00 | Acessos: 61

Vivência e sociabilidade em terreiro de Candomblé, em Belém

#ParaTodosVerem: Fotografia de duas mulheres negras de meia-idade sentadas lado a lado, sorrindo para a câmera. Ambas possuem pinturas faciais brancas, com traços curtos acima das sobrancelhas e uma linha vertical no queixo. A mulher à esquerda usa um turbante vermelho e um vestido estampado. A mulher à direita usa um turbante multicolorido, um colar de miçangas e um vestido cor de rosa. Ao fundo, a parede está coberta por um tecido amarelo com estampas de folhas verdes.
O Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara valoriza o poder e os saberes de mulheres negras
O Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara valoriza o poder e os saberes de mulheres negras

Por Keila Gibson 

A compreensão das dinâmicas territoriais e de sociabilidade de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé de Angola foi tema de estudo da antropóloga Fiama Góes, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), na dissertação de mestrado DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade.

Por meio das vivências, dos saberes e das perspectivas individuais e coletivas de mulheres negras, Fiama Góes descreve os passos e a rotina dentro do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, localizado na periferia de Belém (PA), no bairro Terra Firme. Fora dele, ela observa as redes e os compartilhamentos entre o terreiro e a vida em comunidade dessas mulheres e seus projetos políticos sociais. No estudo, o terreiro é apresentado como um quilombo urbano, um princípio ideológico de resistência cultural, em que as relações são estruturadas no matriarcado, de acordo com as vivências, pelos filhos e filhas da casa.

Mulheres “cuidam” das pessoas e perpetuam os saberes ancestrais

No Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, a autora identifica uma estrutura hierárquica contra-hegemônica, que valoriza o saber e o poder de mulheres negras e se organiza pela mobilidade: ninguém permanece estagnado, evolui-se conforme tempo e conhecimento. O cuidado com os mais jovens e com os mais velhos é um princípio central, conduzido pela sacerdotisa Mam’etu Muagilê (Mãe Beth), mulher negra, quilombola e ativista.

“Ao participar dessa outra forma organizacional, o primeiro sentimento que tive foi o de estranhamento, dado que, na cultura ocidentalizada, não aprendemos a valorizar as pessoas responsáveis pelo cuidado, as quais, normalmente, são mulheres e são tratadas como subalternizadas (...) Por outro lado, dentro do terreiro, quem assume os ‘cargos de cuidado’ são pessoas consideradas autoridades da casa e estão em posições hierárquicas de notoriedade perante a família de santo”, relata a autora.

A obra destaca a centralidade da sabedoria ancestral, política e social da matriarca, que orienta a comunidade e guia o crescimento espiritual dos Filhos de Santo, um processo que exige abandonar vaidades e aprender, em pequenas tarefas cotidianas, com obediência e respeito aos mais velhos. Essa lógica revela que o terreiro se organiza não apenas por hierarquia, mas também,  sobretudo, por um sistema comunitário, no qual o reconhecimento no outro e as redes de apoio formadas no dia a dia sustentam a vida dentro e fora do barracão.

Ibamca como prática social criada no terreiro

Verificou-se, na pesquisa, como as vivências internas do terreiro dialogam com as realidades externas de seus integrantes, fortalecendo a construção da história do povo preto com base nas estruturas ancestralmente organizadas na roça. Esse vínculo se materializa no Instituto Bamburusema de Cultura Afro- Amazônica (Ibamca), criado para atender à comunidade do terreiro e à população afro-amazônica das periferias e ilhas de Belém, especialmente da Terra Firme. A necessidade de fundar o instituto surge, justamente, porque, devido a estruturas político-sociais persistentes, o terreiro ainda não é reconhecido como um espaço legítimo para ações sociais apoiadas pelo poder público.

Com base nas vivências e no diálogo com as oito mulheres negras, entre as quais, a sacerdotisa Mam’etu Muagilê e outras sete Filhas de Santo pertencentes ao terreiro, Fiama Góes observou como se constroem as redes e os compartilhamentos com a realidade exterior transformada pelas subjetividades de algumas mulheres que integram e são mantenedoras dessas redes.

A autora conclui que a separação entre o Ibamca e o terreiro é apenas simbólica, já que os projetos sociais do instituto nascem da própria casa de santo e de seus princípios de comunidade, solidariedade e cuidado. Desde sua criação, em 2004, o Ibamca realizou ações sociais, como distribuição de cestas básicas, exames e apoio para retirada de documentos, além de projetos culturais, como Capoeira Angola, Cine Bamburusema, Pretinta, entre outros. Em 2023, recebeu o reconhecimento de Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Ainda assim, a burocracia segue sendo um obstáculo histórico para a obtenção do CNPJ.

Segundo a pesquisa, o conhecimento técnico das Filhas de Santo foi essencial para que o terreiro acessasse políticas públicas de incentivo por meio do Ibamca, colocando a comunidade em espaços dos quais o povo preto costuma ser excluído. Como advogada e integrante da casa, a pesquisadora assumiu o compromisso de apoiar a regularização do instituto, articulando parcerias com organizações especializadas nesse trabalho.

Para Fiama Góes, a perspectiva comunitária vivenciada dentro do espaço de aquilombamento, como é a casa de santo, é que move o terreiro e o Ibamca a trabalhar em prol do povo preto. “Compreende-se que o terreiro, a associação, a família de santo, os filhos e filhas da casa, de modo individual ou coletivo, podem contribuir para a expansão de redes de apoio que conseguem alcançar toda a comunidade preta que está sofrendo na diáspora, por não se ver pertencente ao corpo social ocidental, posto que é uma parcela sempre colocada à margem de direitos”, relata a autora.

Sobre a pesquisa - DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade foi apresentada por Fiama Góes, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA, em 2023 , com orientação do professor Rodrigo Correa Diniz Peixoto.

Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Acervo da pesquisa

Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro 

 

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