Das mametus às muzenzas
Vivência e sociabilidade em terreiro de Candomblé, em Belém
Por Keila Gibson
A compreensão das dinâmicas territoriais e de sociabilidade de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé de Angola foi tema de estudo da antropóloga Fiama Góes, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA), na dissertação de mestrado DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade.
Por meio das vivências, dos saberes e das perspectivas individuais e coletivas de mulheres negras, Fiama Góes descreve os passos e a rotina dentro do Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, localizado na periferia de Belém (PA), no bairro Terra Firme. Fora dele, ela observa as redes e os compartilhamentos entre o terreiro e a vida em comunidade dessas mulheres e seus projetos políticos sociais. No estudo, o terreiro é apresentado como um quilombo urbano, um princípio ideológico de resistência cultural, em que as relações são estruturadas no matriarcado, de acordo com as vivências, pelos filhos e filhas da casa.
Mulheres “cuidam” das pessoas e perpetuam os saberes ancestrais
No Terreiro Rundembo Gunzó de Bamburusema Junsara, a autora identifica uma estrutura hierárquica contra-hegemônica, que valoriza o saber e o poder de mulheres negras e se organiza pela mobilidade: ninguém permanece estagnado, evolui-se conforme tempo e conhecimento. O cuidado com os mais jovens e com os mais velhos é um princípio central, conduzido pela sacerdotisa Mam’etu Muagilê (Mãe Beth), mulher negra, quilombola e ativista.
“Ao participar dessa outra forma organizacional, o primeiro sentimento que tive foi o de estranhamento, dado que, na cultura ocidentalizada, não aprendemos a valorizar as pessoas responsáveis pelo cuidado, as quais, normalmente, são mulheres e são tratadas como subalternizadas (...) Por outro lado, dentro do terreiro, quem assume os ‘cargos de cuidado’ são pessoas consideradas autoridades da casa e estão em posições hierárquicas de notoriedade perante a família de santo”, relata a autora.
A obra destaca a centralidade da sabedoria ancestral, política e social da matriarca, que orienta a comunidade e guia o crescimento espiritual dos Filhos de Santo, um processo que exige abandonar vaidades e aprender, em pequenas tarefas cotidianas, com obediência e respeito aos mais velhos. Essa lógica revela que o terreiro se organiza não apenas por hierarquia, mas também, sobretudo, por um sistema comunitário, no qual o reconhecimento no outro e as redes de apoio formadas no dia a dia sustentam a vida dentro e fora do barracão.
Ibamca como prática social criada no terreiro
Verificou-se, na pesquisa, como as vivências internas do terreiro dialogam com as realidades externas de seus integrantes, fortalecendo a construção da história do povo preto com base nas estruturas ancestralmente organizadas na roça. Esse vínculo se materializa no Instituto Bamburusema de Cultura Afro- Amazônica (Ibamca), criado para atender à comunidade do terreiro e à população afro-amazônica das periferias e ilhas de Belém, especialmente da Terra Firme. A necessidade de fundar o instituto surge, justamente, porque, devido a estruturas político-sociais persistentes, o terreiro ainda não é reconhecido como um espaço legítimo para ações sociais apoiadas pelo poder público.
Com base nas vivências e no diálogo com as oito mulheres negras, entre as quais, a sacerdotisa Mam’etu Muagilê e outras sete Filhas de Santo pertencentes ao terreiro, Fiama Góes observou como se constroem as redes e os compartilhamentos com a realidade exterior transformada pelas subjetividades de algumas mulheres que integram e são mantenedoras dessas redes.
A autora conclui que a separação entre o Ibamca e o terreiro é apenas simbólica, já que os projetos sociais do instituto nascem da própria casa de santo e de seus princípios de comunidade, solidariedade e cuidado. Desde sua criação, em 2004, o Ibamca realizou ações sociais, como distribuição de cestas básicas, exames e apoio para retirada de documentos, além de projetos culturais, como Capoeira Angola, Cine Bamburusema, Pretinta, entre outros. Em 2023, recebeu o reconhecimento de Ponto de Memória pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram). Ainda assim, a burocracia segue sendo um obstáculo histórico para a obtenção do CNPJ.
Segundo a pesquisa, o conhecimento técnico das Filhas de Santo foi essencial para que o terreiro acessasse políticas públicas de incentivo por meio do Ibamca, colocando a comunidade em espaços dos quais o povo preto costuma ser excluído. Como advogada e integrante da casa, a pesquisadora assumiu o compromisso de apoiar a regularização do instituto, articulando parcerias com organizações especializadas nesse trabalho.
Para Fiama Góes, a perspectiva comunitária vivenciada dentro do espaço de aquilombamento, como é a casa de santo, é que move o terreiro e o Ibamca a trabalhar em prol do povo preto. “Compreende-se que o terreiro, a associação, a família de santo, os filhos e filhas da casa, de modo individual ou coletivo, podem contribuir para a expansão de redes de apoio que conseguem alcançar toda a comunidade preta que está sofrendo na diáspora, por não se ver pertencente ao corpo social ocidental, posto que é uma parcela sempre colocada à margem de direitos”, relata a autora.
Sobre a pesquisa - DAS MAMETUS ÀS MUZENZAS: As articulações e vivências de mulheres negras dentro de um terreiro de Candomblé e os reflexos no exercício da vida em comunidade foi apresentada por Fiama Góes, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia da Universidade Federal do Pará (PPGSA / UFPA, em 2023 , com orientação do professor Rodrigo Correa Diniz Peixoto.
Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Acervo da pesquisa
Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro
Redes Sociais