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Ecoturismo ganha força em Santarém (PA)

Publicado: Sexta, 16 de Outubro de 2026, 15h50 | Última atualização em Sexta, 16 de Outubro de 2026, 15h55 | Acessos: 22

Observação de libélulas está entre atividades na Resex Tapajós-Arapiuns

imagem sem descrição.

Por Thays Braga

Eclosão do ovo, ninfa, libélula ou donzelinha. Simbolicamente, o processo de transformação de insetos da ordem Odonata associa-se à capacidade de mutação e ajuste do ser humano. Na esfera ambiental, a importância recai sobre a manutenção do equilíbrio ecossistêmico ao reciclar matéria orgânica e transferir energia. Em ambientes de água doce, os odonatos servem como bioindicadores de qualidade. Não obstante o relevo ecológico, a literatura científica tem apontado para o declínio global de insetos em decorrência da alteração do uso da terra (consequência da agricultura e pecuária intensiva), de poluentes químicos, de espécies invasoras e das alterações climáticas.

Alternativas no âmbito do ecoturismo comunitário (CBET, tradução de community-based ecotourism) são discutidas no artigo “Neotropical dragonflies (Insecta: Odonata) as key organisms for promoting community-based ecotourism in a Brazilian Amazon conservation area”, liderado pela bióloga Mayerly Alexandra Guerrero-Moreno e pelo professor José Max Oliveira-Júnior, da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e coassinado pelo professor Leandro Juen, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia (PPGECO/ICB), da Universidade Federal do Pará (UFPA). De acordo com o estudo, “o CBET concentra-se na conservação da biodiversidade, envolvendo comunidades locais na gestão e operação de atividades turísticas a fim de promover a cultura local e fomentar o desenvolvimento socioeconômico. A participação e o conhecimento das comunidades anfitriãs são vitais para o planejamento e desenvolvimento desse tipo de turismo”.

De maneira geral, identificaram-se as percepções de lideranças e moradores indígenas e não indígenas acerca do potencial de libélulas e donzelinhas como organismos-chave para promover o ecoturismo comunitário na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns (Resex Tapajós-Arapiuns), localizada entre os municípios de Santarém e Aveiro, no estado do Pará. Neste local, vivem aproximadamente 23 mil pessoas (distribuídas em mais de 4.800 famílias) que sobrevivem do uso dos recursos naturais, da agricultura familiar e da criação de pequenos animais. Algumas atividades emergentes incluem a produção de artesanato, a apicultura, a carpintaria e o turismo.

O trabalho inova ao discutir o entomoturismo – vertente voltada para observação, estudo e fotografia de insetos – com odonatos em unidades de conservação, considerando a sabedoria da população tradicional. Na Resex Tapajós-Arapiuns, há riqueza e abundância das seguintes espécies: Argia sp., Epipleoneura capilliformis, Heteragrion bariai e Oxystigma williamsoni. “Em associação ao Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade (Programa Monitora) do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), que utiliza conhecimentos básicos de Biologia, Ecologia e distribuição dos odonatos para inferir a qualidade ambiental dos riachos da Amazônia brasileira, é possível incluir libélulas e donzelinhas como bioindicadores, bem como desenvolver o ecoturismo comunitário para melhorar a gestão sustentável das áreas de preservação. A participação da população, além de promover o desenvolvimento local, contribui para a proteção abrangente do ambiente e da biodiversidade”, destaca o estudo.

Mais velhos preservam saberes e mulheres lideram atividades

As(Os) investigadoras(es) testaram a hipótese de que a Resex Tapajós-Arapiuns perceberia, de maneira positiva, a integração de odonatos nas atividades de ecoturismo. Utilizando um nível de confiança de 95%, calculou-se a amostra ideal de entrevistadas(os) com base na população total. No entanto, em decorrência do aumento do número de aldeias dentro da reserva extrativista e com o objetivo de obter uma percepção abrangente da população que a habita, incluíram-se mais pessoas. No total, foram realizadas 415 entrevistas com indígenas (44,34%) e não indígenas (56,66%). Essa composição evidencia a diversidade cultural dentro da Resex Tapajós-Arapiuns.

A faixa etária predominante dos entrevistados foi menor que 55 anos (27,71%). Compreendeu-se que, principalmente nas aldeias indígenas, foram indicados os indivíduos mais velhos para a entrevista, por serem considerados conhecedores dos costumes, das tradições e dinâmicas da reserva. Outro ponto observado é que a maior parte das pessoas entrevistadas (53,49%) era do gênero feminino. “Isso demonstra que, cada vez mais, as mulheres assumem o protagonismo em questões associadas à liderança, ao desenvolvimento e ao progresso das comunidades amazônicas”, afirma o estudo.

No entanto o nível de escolaridade predominante foi o ensino fundamental (33,73%). Isso porque a maioria das escolas municipais (indígenas e não indígenas) dentro da Resex Tapajós-Arapiuns oferece, de maneira regular, somente do 5° ao 9° ano. “Além de precário, o ensino secundário é oferecido de forma modular em algumas comunidades, exigindo que as(os) alunas(os) que desejam cursá-lo viajem de uma comunidade para outra, às vezes, percorrendo longos e complexos trajetos fluviais. Como não existem Instituições de Ensino Superior na reserva extrativista, a maioria das(os) estudantes, ao concluir a escolaridade, deve migrar para Santarém ou outras cidades, caso desejem se qualificar. Esse cenário não favorece a população local, dada a carência de recursos econômicos”, explicam as(os) pesquisadoras(es).

Moradores consideram as jacintas bonitas e inofensivas

Quase todas(os) as(os) moradoras(es) indígenas e não indígenas da Resex Tapajós-Arapiuns (98,55%) reconhecem as libélulas ou donzelinhas, porém pelo nome popular: jacinas ou jacintas. Segundo as(os) estudiosas(os), o termo “jacina” significa “borboleta marrom com asas azuis-claras”, na língua indígena Tupi. “O nome popular parece coincidir com a descrição de algumas espécies do gênero Zenithoptera, que possuem corpos marrons com asas azuis metálicas e estão distribuídas da Nicarágua à Argentina, incluindo a região amazônica”, informa o estudo. “Confirma-se a percepção de que as libélulas fazem parte do grupo das borboletas, provavelmente em decorrência da semelhança na capacidade de voo, aos habitats que frequentam e à coloração marcante.”

A sensação (98,07%) e a experiência (63,83%) com libélulas foram avaliadas positivamente por muitos moradores da reserva. Os atributos mais associados aos insetos foram beleza (32,26%), inofensividade (27,74%), aparência marcante e colorida (23,23%) e capacidade de voar (16,77%). Os melhores lugares para se observar libélulas são às margens dos rios (38,65%) e do igarapé (25,04%), e na floresta (26,6%).

O estudo concluiu que o ecoturismo comunitário, centrado em Odonata, tem o potencial não só de atrair turistas, mas também de promover a participação e o empoderamento de populações indígenas e não indígenas que habitam a reserva extrativista. Contudo é necessário projetar e implementar programas educacionais e de treinamento. “Isso inclui aprofundar-se na biologia, importância ecológica, técnicas de manejo e identificação de espécies potenciais. O financiamento e o desenvolvimento de políticas públicas que apoiem essas iniciativas são cruciais para garantir o sucesso e a sustentabilidade do ecoturismo comunitário”, destacam as(os) investigadoras(es).

Sobre a pesquisa - O artigo “Neotropical dragonflies (Insecta: Odonata) as key organisms for promoting community-based ecotourism in a Brazilian Amazon conservation area” está disponível em acesso aberto, no volume 55 da revista Global Ecology and Conservation. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), por meio do Edital nº 13/2020 (Programa de Desenvolvimento da Pós-Graduação - PDPG Amazônia Legal); a Fundação para a Ciência e Tecnologia (Projeto UIDB/04020/2020 - 10.54499/UIDB/04020/2020) e a Agência Executiva de Investigação (Horizontes Sustentáveis) financiaram as atividades. O estudo faz parte do Instituto Nacional de Ciência e Tenologia - Sínteses da Biodiversidade Amazônica (INCT SinBiAm) e do Programa de Pesquisa em Biodiversidade da Amazônia Oriental (PPBIO-AmOr), que buscam alinhar o conhecimento da biodiversidade com a conservação e o desenvolvimento sustentável das comunidades tradicionais.

Edição: Rosyane Rodrigues |Fotografia: Acervo da pesquisa

Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Junho

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