Belém nos traços de Biratan Porto
Tese analisa trabalho do cartunista no período de 1978 a 1985
Por Cintia Magno
Ainda sob o efeito dos últimos anos da ditadura civil-militar, a população da capital paraense pôde acompanhar uma leitura alternativa às informações oficiais que chegavam ao noticiário da imprensa comprometida com o regime. Pelos traços das charges criadas pelo cartunista Biratan Porto, uma outra realidade acerca das condições que a ditadura impôs a Belém no período da redemocratização era apresentada.
Compreender o cenário vivenciado à época dos sete últimos anos do governo militar é o objetivo da tese Correndo o risco: Belém do Pará na charge de Biratan Porto no ocaso da ditadura (1978-1985), defendida pelo jornalista e cartunista Walter Pinto de Oliveira no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPGHist/IFCH) da Universidade Federal do Pará (UFPA), sob a orientação do professor Aldrin Moura de Figueiredo.
Adotando ferramentas metodológicas da História Social da Arte, a tese buscou compreender esse cenário baseada na análise das charges publicadas naquele período, especialmente as criadas pelo cartunista Biratan Porto. Walter Pinto explica que o golpe que resultou na instauração do regime militar no Brasil impactou diretamente esse tipo de produção artística em Belém. “A ditadura que tomou o poder por meio do Golpe de 31 de Março de 1964 causou o fechamento do único jornal de oposição, o Jornal do Dia, e, com ele, o encerramento da atividade do humor gráfico no Pará, na década de 1960. Esse vazio perdurou até 1973, quando uma geração de cartunistas surgiu nas páginas de A Província do Pará, sobretudo no encarte Bandeira 3”.
O jornalista relata que o que inspirou um grupo formado por Hamilton Bandeira, Osmar Pinheiro, Emmanuel Nassar e Luiz Pinto a retomar essa atuação no Pará foi o trabalho do grupo de cartunistas de O Pasquim, semanário alternativo fundado no Rio de Janeiro em 1969. Apesar disso, Walter considera que o cartum praticado no Pará, naquele momento, ainda era uma atividade amadora, o que contribuiu para que aquela geração de artistas seguisse outros rumos. “Dois anos depois, eu e Biratan Porto, leitores do Pasquim, começamos a publicar no Jornal A Província, o único que abriu espaço para a charge, na coluna Jornaleco, de Raymundo Mário Sobral. Logo surgiram outros cartunistas”, relata. “Em 1978, A Província, buscando a modernização da edição, contratou Biratan Porto para ser cartunista diário do jornal. Assim, o humor gráfico contemporâneo paraense se tornou profissional”.
Salão de Desenho de Humor reúne e organiza artistas locais
Walter Pinto lembra que, durante as pesquisas realizadas para a elaboração da tese, foi possível identificar a atuação desses dois grupos nos anos 1970, no cenário paraense, mas destaca que seus membros eram todos autodidatas e não se conheciam. A primeira ação para uma organização dos artistas ocorreu com a realização do I Salão Paraense de Desenho de Humor, idealizado por Biratan Porto, baseado na sua experiência no Salão Internacional de Humor de Piracicaba. Ao todo, foram realizados quatro salões paraenses entre 1970 e 1980.
Em meio a esse cenário, Biratan Porto destacou-se como, segundo Walter pontua em sua tese, “o primeiro cartunista contemporâneo a atuar profissionalmente na imprensa do Pará”. Durante o último ano do governo do general Ernesto Geisel, ainda em plena ditadura militar, o artista estreou como cartunista contratado do Jornal A Província do Pará, no qual publicou um volume robusto de charges marcadas pela leitura crítica da realidade. “Nos sete anos que delimitam o início do seu trabalho ao final da ditadura, Biratan publicou em torno de 2.500 charges sobre temas relacionados à vida em meio à ditadura. Biratan atuou como um cronista gráfico daquele período que seria chamado de abertura política”, conta o jornalista.
O autor lembra que, apesar de o período ser apontado como um momento de abrandamento do regime, muitos episódios ocorridos mantinham resquícios do autoritarismo que caracterizou as duas décadas de regime. Essa realidade está contada nas charges que Biratan publicou à época. “Bombas explodiram em bancas de jornais contra a venda de jornais alternativos, assim como não cessaram as políticas públicas de exclusão dos segmentos mais vulneráveis. As charges de Biratan acompanham esses acontecimentos no momento em que eles se deram. São, aos olhos da historiografia, fontes primárias, apesar de serem representações do que o artista via, sujeitas, portanto, à crítica em função da subjetividade”, pontua o jornalista. “Mas elas não são criações descosidas da realidade; pelo contrário, partem sempre do fato, do acontecimento, da notícia publicada no jornal. Biratan, porém, fez a sua leitura desse noticiário sempre de forma crítica, muitas vezes contrariamente à linha editorial do jornal”.
No final de 1970, charges já abordavam segurança e alto custo de vida
Entre as leituras apresentadas por Biratan em suas charges, Walter Pinto de Oliveira destaca temas como o adensamento populacional nas áreas de baixadas, causado pelo fluxo migratório em função dos grandes projetos desenvolvimentistas, os problemas sociais e econômicos decorrentes desse fluxo, o mau atendimento do sistema de saúde, a má conservação das ruas, a insegurança pública, a alta do custo de vida, entre outros temas.
“Em minha tese, a charge funciona como uma chave que dá acesso ao acontecido, visto por uma leitura a contrapelo do jornal, uma leitura que não se conforma com os limites impostos pelas linhas editoriais. A charge ressignifica o fato. É uma chave que exige o diálogo com outras ciências para que o assunto de que trata possa ser efetivamente entendido pelo leitor de hoje”, afirma o autor.
Quando se trata da não conformação quanto aos limites impostos pelas linhas editoriais, as charges criadas por Biratan Porto são, mais uma vez, destacadas. Isso porque o cartunista conseguiu tecer, por meio de suas criações, críticas ao regime militar e aos seus efeitos na cidade de Belém, mesmo atuando em um jornal que apoiava o regime. “Mas a Província era um jornal que precisava conquistar leitores. Então, em 1973, uma grande reforma gráfica foi realizada como parte de um projeto de modernização do jornal. Essa reforma abriu espaço para a charge, mas esse espaço só foi efetivamente ocupado quando o diretor-superintendente Roberto Jares Martins percebeu a qualidade do trabalho do Biratan Porto, que já havia publicado em O Pasquim, no Correio Braziliense e na própria A Província”.
Como resultado dessa abertura, não apenas a população paraense da época pôde contar com a interpretação e a leitura de Biratan Porto sobre os efeitos da política nos anos de 1978-1985 em solo paraense, mas também as gerações atuais e futuras ganharam com a publicação de uma expressão artística que, como destaca o jornalista e pesquisador Walter Pinto, permite acessar o tempo.
Edição: Rosyane Rodrigues |Fotografia: Alexandre de Moraes
Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Junho
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