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Território e infância na Amazônia

Publicado: Sexta, 16 de Outubro de 2026, 18h13 | Última atualização em Sexta, 16 de Outubro de 2026, 19h59 | Acessos: 22

Estudo investiga representações da região na trilogia Tainá

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Por André Furtado

O cinema é uma das formas de entretenimento escolhida por muitos pais como maneira de passar tempo junto com suas crianças e criar memórias. Mais do que uma forma de diversão, o cinema compõe a lista das sete artes clássicas e exerce um papel fundamental, podendo amplificar vozes e apresentar ao público narrativas que formam opiniões. Buscando investigar como a Amazônia é apresentada nas grandes telas, a dissertação Discurso, cinema, meio ambiente e a produção da infância amazônida teve como objetivo discutir e problematizar as representações cinematográficas com temática regional.

A pesquisadora Deisiane Aviz do Nascimento investigou os filmes da trilogia Tainá, que apresentam o território e as infâncias amazônidas ao público infantojuvenil. Essa produção cinematográfica é composta de três filmes sobre a história de uma criança indígena, em defesa da floresta, contra invasores, a exemplo de caçadores, garimpeiros e madeireiros ilegais. Os filmes divulgam e colocam em circulação informações e representações da Amazônia e dos modos de vida da infância indígena.

Segundo Aviz, a história de Tainá tem sido utilizada por profissionais da educação como um recurso didático-pedagógico em diversas áreas do conhecimento. “Diante disso, percebe-se a importância que essa obra cinematográfica assume e as possibilidades de estudos que emergem daí e que nos movem para desenvolver análises que nos permitam não apenas discutir, mas também, acima de tudo, problematizar o universo de significados que colocam em circulação”, enfatiza.

A pesquisa se embasa na Etnografia de Tela, uma metodologia discursiva que permite a elaboração de procedimentos voltados para o estudo dos artefatos de mídia. A metodologia foi dividida em quatro etapas: seleção dos filmes; assistir aos filmes; construção e organização de dados e análise do material. Esta última feita com fundamento nos estudos desenvolvidos por Michel Foucault.

“Primeiramente [assistimos aos filmes] de forma espontânea e, posteriormente, com um olhar mais minucioso. Cada filme foi 'desmontado' para mapeá-los em conjuntos discursivos. Depois, foram selecionadas as cenas, levando em consideração a linguagem cinematográfica, os componentes estruturantes dos cenários, a trilha sonora, os modos de apresentação dos personagens, os diálogos etc. Em seguida, as cenas foram articuladas conforme percepções de pesquisa para construção de conjuntos temáticos passíveis de análise e problematizações”, explica a autora.

Olhar para a região ainda é estereotipado

O estudo apontou a existência de um olhar estereotipado e limitado sobre a Amazônia e os sujeitos que aqui vivem, os quais não são representados de maneira diversa e plural, mas com uma identidade fixa e homogênea. “A trilogia Tainá apresenta um universo de simbologias, significações e representações, manifestadas por meio de discursos que sustentam a ideia de Amazônia associada a concepções de extraordinário mundo verde, configurado como um espaço habitado exclusivamente por indígenas, desenhados como “bons selvagens” e “defensores da floresta”.

Os discursos dos filmes retratam a infância indígena como homogênea e apresenta a criança nativa como espelho da criança amazônida que não dispõe de conhecimentos mais elaborados ou acesso aos aparatos tecnológicos e modernos. Em oposição, a infância da “criança branca” habita o ambiente constituído pela “modernidade” e suas tecnologias. “Diante disso, podemos afirmar que a representação da criança nativa mostrada na trilogia Tainá desconsidera infâncias amazônicas diversificadas e plurais”.

Deisiane destaca, ainda, que o contexto amazônico é rico e diverso e que, na trilogia, outros povos tradicionais são apagados. Portanto utilizar os filmes Tainá para fazer referência a crianças amazônidas é problemático, uma vez que enfatiza o discurso feito, séculos atrás, pelos colonizadores: “Além dos povos indígenas, que, por si sós, são muito diversos, existem ainda muitas outras populações tradicionais, como os ribeirinhos, os quilombolas, os peconheiros, os coletores de castanhas, os pescadores artesanais etc., que têm suas identidades apagadas nessa unidade que o filme traz”.

Diante disso, a autora considera que a infância no contexto amazônico não é igual para todas as populações desse território, pois cada uma dispõe de comportamentos culturais diferenciados. “Assim, é, no mínimo, problemático tomarmos Tainá como espelho para referenciar crianças amazônidas, pois isso empobrece e esconde a pluralidade composta por uma variedade infinita de infâncias”.

Educação pode ser a chave para a representatividade

A educação é a principal ferramenta para a quebra de discursos estereotipados, mas, quando se fala em Amazônia, até mesmo a visão das escolas perpassa pelo viés colonial, ou seja, a de um ambiente rico em natureza, que não faz jus a sua diversidade cultural. Dessa maneira, para a pesquisadora, a adaptação dos componentes curriculares é fundamental, pois o conhecimento escolar é fonte de informação acerca de diversos assuntos.

“Com base nas curiosidades que se manifestaram no período de construção da pesquisa, produzimos ainda o artigo 'Currículo Escolar e Amazônia(s): formas de ver e pensar o contexto amazônico', que apresenta discussões relevantes sobre essa representação do contexto amazônico no currículo da escola básica. E constatamos que o currículo se constitui como um conjunto coerente e operante no processo de produção subjetiva dos indivíduos, e, nele, a Amazônia também tem sido mostrada como um contexto homogêneo, habitado por pessoas que compartilham da mesma história, dos mesmos hábitos e práticas culturais”, revela a pesquisadora.

Para Deisiane Aviz, é urgente expandir conhecimentos sobre a Amazônia na sociedade nacional. “Podemos utilizar o atual cenário tecnológico e informacional a nosso favor, produzindo e divulgando mais o território. Em outras palavras: dar mais visibilidade. E não podemos deixar de citar, também, a importância de mais investimentos em pesquisas sobre o contexto amazônico e seus habitantes, assim como mais produções culturais e disseminação de documentários etc.”, avalia.

Sobre a pesquisa: A dissertação Discurso, cinema, meio ambiente e a produção da infância amazônida foi defendida por Deisiane Aviz do Nascimento, em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPLSA), Campus UFPA/Bragança, com orientação da professora Sandra Nazaré Dias Bastos.

Edição: Jéssica Souza |Imagem: reprodução
Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Junho

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