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Romance vai do hertz ao byte

Publicado: Sexta, 11 de Dezembro de 2020, 15h31 | Última atualização em Terça, 02 de Fevereiro de 2021, 20h14 | Acessos: 1819

Ouvintes de rádio constroem relacionamentos pelo WhatsApp

imagem sem descrição.

Por Matheus Luz Ilustração Walter Pinto

Transmitido pela Rádio 99Fm desde 1993, o programa de rádio “Amor Sem Fim” embala a noite dos corações apaixonados. Com uma seleção de músicas românticas e recadinhos amorosos, o programa, ao longo dos anos, também já foi responsável por unir dezenas de casais. Isso graças ao quadro “Clube da Amizade”, momento da programação em que os ouvintes têm a oportunidade de se apresentar em busca de amizades ou de relacionamentos.

No “Clube da Amizade”, o ouvinte liga para a rádio e deixa um perfil com a atendente, descrevendo suas características físicas e explicando o tipo de pessoas que deseja conhecer. Durante o programa, vários perfis são lidos, ao vivo, pelo locutor, e os interessados pelo perfil descrito ligam para a rádio para pedir o telefone daquela pessoa. O quadro funciona assim, há anos, conquistando os ouvintes da madrugada que buscam encontrar alguém interessante para se relacionar.

Em 2014, a dinâmica do “Amor Sem Fim” ganhou um diferencial: o WhatsApp. Agora, é pelo aplicativo de troca de mensagens que as interações do ouvinte com o programa ocorrem. O novo recurso ajudou a ampliar essas interações para além da rádio, e os ouvintes passaram a se relacionar entre si, organizando grupos no aplicativo, estabelecendo relações que vão além das possibilidades do “Clube da Amizade”, conversando independentemente do horário de transmissão do programa.

Um dos grupos mais antigos criados pelos ouvintes é o “Amigos do Aelson”, que tem o nome em homenagem ao atual locutor do programa. No grupo, os ouvintes compartilham o dia a dia, os segredos, as decepções e os afetos. Eles ampliaram a relação para o presencial, estabelecendo relacionamentos amorosos e laços de amizade.

Foi nesse ambiente que a jornalista Vanessa Monteiro realizou a pesquisa Um Amor Sem Fim: interações e afetos entre ouvintes de um programa romântico de rádio em Belém, no Pará. A dissertação foi orientada pela professora Netília Silva dos Anjos Seixas e defendida no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/UFPA).

Novos tempos levam rádio para outras plataformas

O objetivo da pesquisadora foi compreender a dinâmica de interações em grupos de WhatsApp que levam à construção de vínculos afetivos entre ouvintes e programas de rádio, analisando tais aspectos com base no Programa “Amor Sem Fim” e no Grupo “Amigos do Aelson”.

Para o estudo, Vanessa Monteiro partiu da pesquisa exploratória com a produção do programa para entender melhor sua história e seu funcionamento. Em seguida, utilizou a observação participante no grupo do WhatsApp “Amigos do Aelson” no período de dezembro de 2018 a dezembro de 2019, além de realizar entrevistas semiestruturadas com cinco ouvintes selecionados.

Para quem acredita que o rádio está com os dias contados, a pesquisa parte de um cenário no qual o veículo se expande para outras plataformas. Nesse contexto, o estudo percebe como a utilização do WhatsApp amplia as possibilidades de interação entre os ouvintes.

A pesquisadora conta que, durante as entrevistas, os ouvintes relataram que, apesar de muitos ainda sentirem falta de ligar e falar ao vivo durante a transmissão e de fazer visitas à rádio, a inclusão do aplicativo de mensagens foi bem-vinda, especialmente pelo fato de que eles podem manter contato direto com o locutor, que inclusive disponibiliza seu número pessoal durante o programa.

Vanessa Monteiro explica que, hoje, aplicativos como o WhatsApp fazem parte do dia a dia das emissoras de rádio, assim como estão presentes na vida de boa parte das pessoas, independentemente da idade. Essas ferramentas acabam substituindo os métodos mais tradicionais de interação entre o ouvinte e o programa, como as cartas e os telefonemas. Além disso, as interações no aplicativo se estenderam, já que os participantes passaram a organizar reuniões em shoppings, bares, clubes e restaurantes.

No estudo, é possível notar como os grupos no aplicativo também fazem o “Amor Sem Fim” manter bons níveis de audiência, pois os ouvintes atuam como impulsionadores do programa. “Os ouvintes se organizam e ficam mandando mensagens durante o programa: são músicas, abraços, recados amorosos, recados para o locutor. Tem ouvinte que manda mensagem todos os dias”, revela a pesquisadora.

Ouvintes buscam relacionamento amoroso romântico 

As músicas sentimentais, a voz do locutor, as falas envolventes, todo esse cenário é um verdadeiro convite à memória afetiva dos ouvintes. Nas entrevistas e nas observações no grupo “Amigos do Aelson”, a autora também percebeu que o principal objetivo dos ouvintes é a busca por um relacionamento amoroso romântico.

E o “Amor Sem Fim” estimula essa atmosfera, fortalecendo a ideia da busca pela “cara-metade” e pelo tão idealizado amor verdadeiro. Vanessa Monteiro analisa esses aspectos em sua pesquisa, percebendo como o programa utiliza vários artifícios para manter o clima de romance durante a transmissão. “O ‘Amor Sem Fim’ segue uma fórmula que vem desde a década de 1980, de outros programas com esse perfil, o que inclui uma seleção musical exclusivamente romântica, seja com flashbacks seja com músicas atuais, os recados amorosos, a tradução, a voz macia do locutor e até o horário da programação, já que muitos desses programas costumam ser no horário noturno”, explica.

No estudo, a pesquisadora discute a nossa relação afetiva com a voz, que existe desde o nascimento e, por isso, é um dos elementos centrais no envolvimento entre as pessoas e os programas de rádio. Os participantes do quadro “Clube da Amizade”, por exemplo, veem o telefonema como parte do encanto dessa experiência: poder ouvir e se apaixonar pela voz daquele que pode ser o próximo pretendente.

Mas não é somente entre ouvintes que a voz e a escuta são importantes, pois toda a ambientação proporcionada pela voz do locutor tem papel fundamental no engajamento do público com o programa, instigando a participação no correio amoroso e em outras interações, como no WhatsApp.

“O locutor e o diálogo pessoal com o ouvinte tornam a relação aparentemente mais próxima, cumprindo a função do rádio como companheiro do ouvinte. Tudo isso influencia nas relações de afeto, tanto entre ouvinte/rádio quanto entre ouvinte/ouvinte. Roland Barthes disse que toda relação com uma voz é forçosamente amorosa. E o programa vem desempenhando bem esse papel”, argumenta a jornalista.

Locutor inspira confiança entre os participantes 

O público do “Amor Sem Fim” é composto principalmente por pessoas na faixa etária dos 30 aos 60 anos. Vanessa Monteiro percebeu, então, que as interações estabelecidas entre os ouvintes também partem do vínculo de afeto criado com o locutor. O ambiente de intimidade desenvolvido entre locutor/ouvinte e entre o próprio público faz com que as relações ocorram mais facilmente. Dessa forma, os entrevistados da pesquisa percebem sua relação com o locutor e o programa como o laço que os une.

Os entrevistados da pesquisa explicaram que não gostam de utilizar aplicativos de relacionamento nem se sentem seguros, mas pelo “Amor Sem Fim” e pelo grupo sentiam mais segurança em iniciar o contato com alguém até então desconhecido. “As pessoas confiam no locutor e na rádio, por isso relatam que se sentem seguras de encontrar alguém tanto por esse meio quanto pelo grupo do WhatsApp, porque conhecem os administradores do grupo e confiam neles. Não importa quantos sites e aplicativos de relacionamento existam. Para eles, é no rádio e a partir do rádio que encontram o que buscam”, conclui a pesquisadora.

 Beira do Rio edição 157

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