Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Início do conteúdo da página

Opinião

Publicado: Quinta, 11 de Março de 2021, 21h34 | Última atualização em Quarta, 31 de Março de 2021, 19h54 | Acessos: 667

A Década Oceânica “Amazônica”

Por Raqueline Monteiro Foto Acervo Pessoal

A Amazônia é conhecida como “o pulmão do mundo”, contudo o oceano, por meio do fitoplâncton, é o principal responsável pela produção do oxigênio que respiramos. Ele também é importante pelas trocas de água entre a terra e o mar. A água evapora no oceano e transforma-se em chuva, recompondo rios, lagos, igarapés e reservatórios utilizados pelo homem. Portanto salvar o oceano é consequentemente salvar a nossa existência na Terra.

Por essa razão, a Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável relacionado ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 – Vida na Água (ODS-14) da Agenda 2030 surge com a proposta de unir esforços de todos os envolvidos com o mar para reverter o estado atual do oceano, considerando as individualidades de cada região. Nesse contexto, nós, amazônidas, temos um papel fundamental no processo, pois, além de morarmos na maior bacia hidrográfica do mundo, temos conhecimento acadêmico, científico, holístico e ancestral de diferentes povos e grupos sociais existentes na região.

O rio Amazonas desemboca no oceano Atlântico, entre o estado do Amapá e a ilha do Marajó (PA). Ele recebe águas de afluentes, como os rios Xingu, Tapajós e Tocantins, que fluem como um único rio até o oceano. O rio Amazonas alimenta o oceano Atlântico com nutrientes, sedimentos, matéria orgânica e, infelizmente, com poluentes perigosos (p. ex. metais pesados e plásticos), extremamente tóxicos para os animais aquáticos e para a saúde humana. Poluir a água é poluir o nosso corpo, pois a água do rio e do oceano é a mesma água que circula em nós. Nós e os demais seres vivos fazemos parte do ciclo da água por meio da eliminação de urina e de fezes, da respiração e do suor.

A Amazônia não é somente floresta. Ela é rio, ela é mar e ela é cultura formada por diferentes pessoas e por povos que aqui permanecem. Existem diferentes “Amazônias” e todas são conectadas pelo rio, que desempenha um papel essencial no cotidiano, por sua função econômica, social, cultural e ambiental. Porém a região sofre com o descaso e com a ganância de quem detém os poderes político e econômico que permitem a exploração das terras a qualquer custo, como se fosse um vazio demográfico.

Comunidades tradicionais, ribeirinhas, quilombolas e indígenas são as mais impactadas pela remoção e destruição dos seus territórios pelos empreendimentos hidrelétricos e de mineração, pelo agronegócio e garimpo ilegal, pela grilagem de terras, especulação imobiliária e indústrias, pelo desmatamento, pela construção de portos e resorts. Nas cidades, a população mais pobre sobrevive na periferia, em “puxadinhos” ou palafitas, sem qualquer condição de moradia. Dessa forma, percebemos que os problemas socioambientais na Amazônia têm gênero, classe e raça.

Entre esses problemas, o saneamento básico é uma questão urgente na Amazônia, pois a sua ausência deixa as pessoas vulneráveis a doenças de veiculação hídrica (p. ex. dengue) e à água poluída em virtude da entrada de esgoto e de lixo doméstico. Segundo o Painel Saneamento Brasil (2018), 43% da população não têm acesso à água e 90% da população não têm coleta nem tratamento de esgoto na Região Norte. As pessoas estão preocupadas com a qualidade da água que irão consumir. Caso não tenham dinheiro para comprar, provavelmente beberão água poluída em razão da ausência de tratamento de esgoto. Dessa forma, o acesso ao saneamento básico dará qualidade de vida às pessoas e eliminará fontes de poluição para a água que flui pelos rios até o oceano.

Todavia as necessidades das diferentes “Amazônias” entrelaçadas pelo rio não são ouvidas, tampouco respeitadas. Portanto precisamos ocupar espaços em que a Amazônia é discutida e trazer as perspectivas de quem vive a Amazônia real. Durante a Década Oceânica, cientistas, ativistas e demais grupos precisam estar envolvidos com um olhar mais atento em relação ao nosso presente e ao futuro, trocando conhecimento para empoderar o nosso discurso. Precisamos nos reconectar com a Amazônia e reconhecer que a nossa história também faz parte desse território, mesmo que inserida em um ambiente urbano. A Década da Ciência Oceânica é também a Década da Ciência e Saberes Amazônicos e dos seus protagonistas da água.

Raqueline Monteiro – oceanógrafa, mestre em Oceanografia, doutoranda em Ecologia Aquática e Pesca e Jovem Embaixadora do Oceano Atlântico.
E-mail: raqmonteiro.oc@gmail.com

Beira do Rio edição 158

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

Fim do conteúdo da página