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O poder que vem das redes

Publicado: Segunda, 09 de Abril de 2018, 14h58 | Última atualização em Segunda, 09 de Abril de 2018, 18h00 | Acessos: 195

A mobilização popular durante a elaboração do Código Florestal

Por Armando Ribeiro Fotos Reprodução

A internet produz cada vez mais plataformas capazes de gerar interação entre os cidadãos, e as redes sociais vêm se consolidando como um palco de debate em que milhões de pessoas podem atuar. Para entender a força dessas novas mídias e o papel delas na promoção de transformações sociais, o jornalista Alexandre Gibson Junior escreveu a dissertação As redes sociais on-line como arenas de embate e o papel da campanha ‘Veta, Dilma!’ no processo de elaboração do novo Código Florestal Brasileiro, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA/UFPA).

A pesquisa, orientada pelo professor Silvio Lima Figueiredo, baseou-se nos debates sociais ocorridos durante a elaboração do novo Código Florestal Brasileiro (CFB) e na contribuição dos movimentos “Floresta Faz a Diferença” e “Veta, Dilma!”, ambos com grande popularidade nas redes sociais, para as discussões que estavam ocorrendo. “Chamou atenção a forma como a internet tratou do assunto, que não estava sendo abordado nas mídias tradicionais, como a televisão. Com a repercussão no facebook, o assunto ganhou visibilidade. Procurei entender se nesse movimento ocorreu algum debate e se ele aproximou as pessoas do assunto”, explica Alexandre Gibson.

A reformulação do CFB foi construída pela bancada ruralista e pretendia amenizar as leis ambientais. Durante o processo de elaboração, surgiram várias manifestações de Organizações Não Governamentais contrárias à proposta. “Foram realizadas assembleias públicas para ajudar na elaboração do projeto de lei. Analisei todas elas e percebi que a participação popular foi focada, ou seja, era composta, em sua maioria, por pessoas ligadas aos ruralistas. Quando a proposta foi para votação, as ONGs defenderam a necessidade de um debate mais amplo”, conta o autor. A pesquisa ocorreu no período de 26 de abril de 2012, primeiro dia após a aprovação do Código Florestal na Câmara dos Deputados, até o dia 25 de maio de 2012, dia em que a  então presidente Dilma Roussef vetou 12 artigos do novo Código Florestal.

Durante esse período, os movimentos sociais criaram diversas estratégias de mobilização pela internet, como páginas no facebook, divulgação da hashtag “Veta, Dilma!”, que chegou a ser o assunto mais comentado do twitter por dias e contou com o apoio e a participação de celebridades. Analisar essas publicações e como o público interagiu com elas foi a principal base do estudo. “O trabalho utilizou para avaliação a Análise de Conteúdo, que permitiu traçar um perfil do movimento e de seus participantes. Foram analisados 98 posts e 2.848 comentários das páginas no facebook  ‘Floresta Faz a Diferença’ e ‘Veta, Dilma!’”, explica o jornalista.

Posts participativos foram os mais compartilhados

Os 98 posts foram divididos em cinco categorias: Informativa, Acusativa, Panfletária, Participativa e Propagandista. Dessas, a categoria mais compartilhada foi a Participativa (63%), que mostrava as campanhas realizadas fora da rede, como passeatas, eventos e fotos de artistas em apoio. A análise dos comentários foi dividida em dois pontos principais, contra e a favor do veto. “Os argumentos de quem era contra tiveram um caráter amedrontador, como ‘se não aprovar, o Brasil vai passar fome’. Já quem defendia o veto falava em preservar a natureza do desmatamento com discursos alarmistas sobre a perda da Amazônia e a devastação total da floresta”, revela Alexandre Gibson.

Para o pesquisador, o papel das redes sociais não foi influenciar a reformulação do código, mas chamar atenção da sociedade para o que estava acontecendo e provocando destaque em outras mídias. “No final, prevaleceram os interesses econômicos. As conquistas foram pontuais, com vetos parciais apesar de toda a repercussão. Esse caso exemplifica o atual papel da internet, de falar sobre questões que, muitas vezes, não são abordadas pelas mídias tradicionais, ampliar debates e trazer novas referências. Isso ocorreu no caso do CFB e continua ocorrendo com as reformas da Previdência e Trabalhista”, afirma.

Alexandre ressalta o potencial dessa nova mídia. “A grande questão é que as mídias tradicionais foram apropriadas pelo capital e perderam grande parte desse papel. Elas  trabalham olhando para o que pode ou não afetar seu público. Já na internet, hoje, não há esse controle. Lá podem surgir diversos movimentos que vêm pressionar o debate, levantar bandeiras que não teriam espaço em outro lugar”, afirma.

Internet pode provocar participação mais ativa da população

O pesquisador ainda fala que os sujeitos entram na internet procurando páginas que reforcem suas opiniões, não havendo uma troca entre visões opostas. “É uma ferramenta que, se for utilizada de maneira mais objetiva, pode ser muito útil para ampliar o debate público e possibilitar que a população tenha uma participação mais ativa. Infelizmente, nessa sociedade de espetáculo que a gente vive, elas servem mais como uma arena, um palco, em que as pessoas atuam. No caso analisado, representavam ser ruralistas ou ambientalistas. Quando encontram um pensamento diferente do seu, partem para o ataque, se sentem protegidas para expor as maiores barbaridades, deixando de aprofundar o debate”, observa.

Para o jornalista, a internet atualmente se apresenta como uma potencializadora de preconceitos. “O ódio online está conectado ao da vida real. Se você faz um comentário racista ou homofóbico dentro da rede isso é apenas um reflexo do seu comportamento na vida cotidiana, está ligado a questões culturais que são mais perceptíveis na internet”, afirma. Para ele, essas atitudes se agravam nas redes por elas passarem uma sensação de perigo reduzido. “As pessoas pensam que não tem ninguém olhando, que aquele comentário preconceituoso jamais será ligado à sua vida offline”, explica.

Alexandre Gibson Junior conta que é fundamental para qualquer pesquisador entender como funcionam as redes sociais, já que elas estão inseparáveis da realidade. “Temos que olhar para essas tecnologias e nos perguntar qual o seu papel e como elas podem gerar debates profundos e transformadores. Além disso, precisamos analisar como essas ferramentas podem dar um retorno à comunidade, que está em constante mudança e sendo moldada por essas mídias”, destaca.

Ed.142 - Abril e Maio de 2018

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Dissertação As redes sociais on-line como arenas de embate e o papel da campanha ‘Veta, Dilma!’ no processo de elaboração do novo Código Florestal Brasileiro

Autor: Alexandre Gibson Junior

Orientador: Silvio Lima Figueiredo

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA/UFPA).

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