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Barcarena sob risco permanente

Publicado: Segunda, 09 de Abril de 2018, 15h10 | Última atualização em Segunda, 09 de Abril de 2018, 16h39 | Acessos: 477

Laquanam busca soluções para minimizar danos às comunidades

Bacias para depósito de resíduos sólidos representam ameaça às comunidades próximas ao Polo Industrial de Barcarena.
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Igor Brandão - Agência Pará

No final de fevereiro deste ano, o município de Barcarena, na Região Metropolitana de Belém, voltou ao noticiário em razão de mais um caso de contaminação ambiental protagonizado por uma das empresas do Polo Industrial, em que são realizados os processos de industrialização, beneficiamento e exportação de caulim, alumina e alumínio, entre outros produtos.

Desta vez, as imagens assustaram não só os moradores das comunidades diretamente afetadas – Bom futuro, Vila Nova e Burajuba – mas também o público que viu as imagens na televisão e nas redes sociais mostrando a enorme área alagada por lama vermelha proveniente do processo de obtenção da alumina. Nos últimos dez anos, Barcarena vem registrando a média de um caso de contaminação ambiental por ano.

Muitos dos problemas ambientais em Barcarena poderiam ter sido evitados se as indústrias que atuam com processamento de minérios facilitassem o acesso dos pesquisadores do Laboratório de Química Analítica e Ambiental da UFPA, o Laquanam, que vem realizando pesquisas e propondo soluções naquele Polo Industrial desde 2007, tendo acumulado, durante décadas, bastante experiência, apesar da política de má vontade em relação ao laboratório da UFPA.

Naquele ano, uma bacia, da multinacional francesa Imerys Rio Capim Caulim, rompeu-se e deixou vazar milhares de litros de rejeitos ácidos nos rios Curuperê, Dendê, Pará e em outros rios, oriundos do processamento do caulim, a matéria-prima empregada na fabricação de pigmento, utilizada em diversos produtos, como tintas, cerâmicas, porcelana, cosméticos, plásticos, borracha, entre outros. Dois anos depois, houve um transbordamento de efluente de lama vermelha de uma barragem da Hydro Alunorte. A pluma de contaminação se distribuiu pelo rio e, por refluxo de maré, atingiu Abaetetuba, chegando até a região das ilhas.

De acordo com a coordenadora do Laquanam, professora Simone de Fátima Pereira, as indústrias não fazem nenhum tipo de tratamento avançado para a retirada dos metais empregados no processamento da bauxita e do caulim, por exemplo, a osmose reversa. O que fazem é o tratamento de efluente para a correção de pH e turbidez. A Hydro usa ácido clorídrico para neutralizar a soda cáustica; e a Imerys RCC, hidróxido de sódio para neutralizar o ácido sulfúrico.

“Como a Hydro produz rejeito alcalino e a Imerys, rejeito ácido, propus que usassem uma bacia única, porque ácido sulfúrico com soda cáustica se neutralizam, evitando, assim, pelo menos que a população e a biota sofressem com os danos causados pelo lançamento de efluentes altamente corrosivos no meio ambiente”, explica Simone Pereira.

Empresas operam com bacias sem tratamento

Segundo a professora Simone Pereira, cada empresa continua usando suas bacias sem o devido tratamento. A Hydro, que operava com uma grande bacia de 2,2 quilômetros de comprimento por 1,2 quilômetro de largura, construiu uma segunda, também de grandes dimensões. Vazamentos ou transbordamentos, em escala menor, continuaram acontecendo.

Em fevereiro passado, um novo vazamento ocorreu causando pânico entre moradores das comunidades próximas aos Depósitos de Resíduos Sólidos (DRS), como são chamadas as bacias construídas para receber os rejeitos do processamento da bauxita. Após a denúncia de moradores, uma comissão parlamentar da Câmara Federal esteve em Barcarena para tomar ciência do ocorrido. A professora Simone acompanhou a comissão. Coube ao Instituto Evandro Chagas atestar a contaminação.

Após a intensa pressão causada pela divulgação na imprensa e nas redes sociais, o Tribunal de Justiça do Pará determinou que a Hydro Alunorte reduzisse sua produção em 50%, além de embargar uma das bacias da empresa. Em caso de descumprimento, a empresa teria que arcar com multa diária de R$ 1 milhão.

Durante a visita à área afetada, a coordenadora do Laquanam constatou na bacia DRS2, que não deveria estar em operação, o depósito indevido de lama vermelha, feito pela Hydro. Segundo a pesquisadora, a empresa não possui estudo e relatório de impacto ambiental específico para a sua construção. “A empresa  desmatou a área onde instalou a bacia, próximo à nascente do rio São Francisco, desconsiderando o fato de que ali é uma área de proteção ambiental”, afirma.

Simone Pereira também fez parte de uma comissão de órgãos públicos que se reuniu com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade. “O secretário foi taxativo em nos dizer que a empresa não precisava daqueles estudos, pois tinha licença expedida na década de 1980 para construir duas bacias. Ora, naquela época, nem existia Lei Ambiental no Brasil. Com a evolução das leis ambientais e com a expansão da empresa, o papel das autoridades era submeter a empresa à nova ordem ambiental”, diz a pesquisadora. A atuação negligente do Estado também tem contribuído para tornar Barcarena uma autêntica bomba-relógio.

Pesquisas atestam contaminação em água e cabelo

Entre os anos de 2012 e 2014, o Laboratório de Química Analítica e Ambiental (Laquanam) realizou um estudo dos níveis de metais em água de consumo em localidades do município de Barcarena, cujos resultados registraram a contaminação por elementos tóxicos, como chumbo, alumínio, cádmio e bário, em média muito acima das permitidas pela Portaria nº 2.914/2011, do Ministério da Saúde. Por solicitação do Ministério Público Federal, o Laquanam realizou análise em 118 amostras de água de consumo de 26 localidades, incluindo Barcarena, Vila do Conde e Vila dos Cabanos, onde o adensamento populacional é maior.

A presença de metais tóxicos como o chumbo, encontrado na água de consumo de 24 das 26 localidades de Barcarena, aponta para o risco de graves doenças, podendo afetar as funções cerebrais, o sangue, os rins, o sistema digestivo e o reprodutor, além de causar câncer. “Os moradores de Barcarena estão tomando água contaminada há bastante tempo. É preciso que se tome alguma providência para mudar o quadro de risco a que esta população está sendo submetida por consumir água imprópria”, alerta Simone Pereira.

Igualmente perigoso para a saúde humana foi o resultado da pesquisa do laboratório para avaliar a presença de metais tóxicos em cabelo de 90 moradores de 14 comunidades do entorno do Polo Industrial de Barcarena. A população avaliada apresentou níveis de alumínios (cromo, ferro, manganês, níquel, chumbo, estrôncio e zinco) superiores aos encontrados em uma população não exposta. Da população avaliada, 80% dos indivíduos apresentaram níveis de chumbo acima de 10 mg/g. O chumbo esteve em níveis médios três vezes acima do controle. 

Saiba mais

O Laboratório de Química Analítica e Ambiental da UFPA foi criado em 2000. Seu objetivo é o desenvolvimento de pesquisa na área de química analítica e ambiental, a formação de recursos humanos em níveis de graduação e de pós-graduação, além de sugerir, por meio de estudos científicos, alternativas para os problemas ambientais da Amazônia com os órgãos governamentais e às empresas privadas.

A coordenadora do Laquanam, professora Simone Pereira, é graduada em Engenharia Química (1982) e Licenciada em Química (1987) pela UFPA. Possui Especialização em Educação e Problemas Regionais (1989), pela UFPA, e Doutorado em Química, pela UFBA (1997). Atualmente, é professora titular do Instituto de Ciências Exatas e Naturais da UFPA. Tem experiência na área da Química, com ênfase em Química Analítica e Química Ambiental, atuando principalmente nos seguintes temas: poluição por metais tóxicos nos recursos hídricos da Amazônia; impactos ambientais causados por indústrias e mineradoras na Amazônia; presença dos elementos danosos à saúde de indivíduos na região amazônica, outros temas.

Ed.142 - Abril e Maio de 2018

Comentários  

0 #2 Natalina 19-04-2018 13:49
:sad:
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0 #1 Rinaldo 16-04-2018 17:20
Soluções baratas existem, mas em geral as empresas optam por "negociarem as multas". Não é uma questão das empresas desconhecerem os processos a serem feitos, ou que não exista tecnologia. Em geral elas são tão grandes (ou imaginam que sejam) que a menos que exista uma pressão federal e até internacional, nada é feito. Criar elos com movimentos de interesses similares no mundo se torna vital. Exemplo de solução mais barata no site mencionado. (obs.: não divulguem o e-mail)
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