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Especialização é nova meta do Parfor

Publicado: Terça, 15 de Outubro de 2019, 14h55 | Última atualização em Terça, 15 de Outubro de 2019, 16h12 | Acessos: 156

Projeto reivindica implantação da pós-graduação

Por Walter Pinto Ilustração Walter Pinto

Criado em 2009, o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica está completando dez anos de atividade. Mais conhecido como Parfor, o plano objetiva qualificar os professores sem graduação que atuam na educação básica, os chamados “professores leigos”. A UFPA é a instituição que lidera o Parfor no Pará.

Ao fim da primeira década, os números da Universidade mostram que a meta prevista para o período foi alcançada. São 14 mil alunos matriculados em 21 cursos de licenciatura. Destes, 8.308 já concluíram a graduação. Até o final do ano, serão mais 2.648 novos licenciados. Os números indicam uma profunda transformação na educação básica do Estado. Atestam também o compromisso social da UFPA com a educação, em todos os seus níveis. Ao receber alunos de todos os 149 municípios paraenses, o Parfor/UFPA se configura como o maior projeto de formação docente em execução nos 62 anos de vida da Universidade Federal do Pará.

No Pará, os desafios do Parfor são maiores em razão da dimensão geográfica do Estado, com localidades distantes umas das outras, a maioria acessada apenas por via fluvial. Nestes dez anos, muitos alunos do Parfor empreenderam longas viagens por estradas e rios em busca da sonhada graduação. Há relatos de alunos residentes em localidades mais afastadas que chegaram a enfrentar viagens de 12 horas de duração. O desafio não é menor para os docentes da UFPA que ministram aulas no Parfor. Os que saem de Belém com destino a Gurupá, por exemplo, percorrem os 350 quilômetros entre as duas cidades, em linha reta, em não menos que 28 horas de barco.


Pensando nos compromissos dos alunos do Parfor, todos em atividade docente em suas escolas, a UFPA optou por criar um calendário próprio, cumprido durante o recesso escolar. Considerando a dimensão geográfica do Pará, buscou chegar o mais próximo possível daqueles professores das áreas mais remotas. “A UFPA poderia acomodar-se nos seus onze campi universitários do interior do Estado, mas preferiu organizar-se em 60 polos, que cobrem todos os 149 municípios do Pará”, explica o professor Márcio Lima do Nascimento, coordenador administrativo e financeiro do Parfor-UFPA.

Criar um calendário distinto do regular foi uma decisão acertada: os números indicam queda na evasão de estudantes em relação às instituições que não seguiram a mesma metodologia. O sucesso da experiência foi reconhecido pelo Fórum Nacional de Coordenadores. “O Parfor/UFPA tornou-se referência nacional, sobretudo quanto à forma como foi constituído”, informa a coordenadora acadêmica e pedagógica Josenilda Maria Maués da Silva.

Pará ainda tem demanda para formação de professores

O Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica foi criado pelo governo federal, por meio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). É um pacto federativo em regime de colaboração entre Estados, municípios, distrito federal e instituições de ensino superior. Cada um desses entes desempenha papel específico. A União fornece os recursos financeiros, universidades disponibilizam o corpo docente e a expertise acadêmica, municípios e Estados liberam os professores das redes públicas, assim como contribuem para a logística administrativa.

Apesar do sucesso do Parfor, o pacto federativo que o sustenta já teve revés quando a União não cumpriu com a atribuição de fornecer os recursos. As aulas não pararam, mas, durante dois anos, a oferta de novas turmas foi suspensa. Em 2018, foi retomado. “Ainda há uma demanda imensa para formação no Estado do Pará, mas essa formação está muito rarefeita, porque os professores agora estão em lugares mais remotos”, informa Josenilda Maués, professora e pesquisadora do Núcleo de Estudos Transdisciplinares em Educação Básica, da Faculdade de Educação da UFPA.

No auge do programa em 2010, o Parfor/UFPA registrou o ingresso de 4.116 alunos. Em 2011 e 2014, a marca de 2.000 matrículas foi superada, mas a crise de 2019 fez os números desabarem para o nível mais baixo, com 330 matrículas. Não foi por falta de empenho. O Pará solicitou abertura de quase 13 mil vagas para cursos de graduação e para cursos de especialização. A pós-graduação, ainda não contemplada, é considerada fundamental nesse processo de qualificação docente.

Segundo Márcio Lima, professor e pesquisador da Faculdade de Matemática, existe uma demanda real formada pelos mais de dez mil graduados, incluídos aí os que concluirão suas licenciaturas até o final do ano, pela pós-graduação lato sensu (especialização). Em 2017, em pronunciamento feito no Congresso Nacional, a direção da Capes comprometeu-se em colocar a especialização no edital do Parfor, mas não o fez. No momento em que o governo federal difunde um discurso de valorização da educação básica, a oferta de vagas para egressos do Parfor em cursos de especialização parece ser um meio efetivo de alcançar aquela meta. “No âmbito do Parfor/UFPA, áreas como Língua Portuguesa, Matemática, Física, Química, Ciências apresentam uma demanda significativa para a especialização”, diz o coordenador.

Projetos diferenciados para atender à nova clientela

Outro diferencial do Parfor/UFPA, talvez o mais importante, foi a reconfiguração dos projetos pedagógicos das 21 licenciaturas oferecidas. Essa reconfiguração se impôs como decorrência da natureza da clientela: professores que já atuam na Educação Básica, que vivenciam experiências docentes. Para eles, a UFPA pensou um projeto pedagógico diferenciado, não para formar professores, mas pessoas que já são professores.

Como explica Josenilda Maués, os projetos pedagógicos do Parfor substituíram a tradição bacharelesca das licenciaturas por uma aproximação mais efetiva da finalidade das licenciaturas, ou seja, a discussão das questões pertinentes ao ensino, à escola básica. “Não foi fácil mobilizar todas as faculdades envolvidas na elaboração de novos projetos pedagógicos. Foi preciso fazê-las entender que não poderiam aplicar os mesmos projetos dos cursos extensivos. Os sujeitos agora eram outros, não os egressos do ensino médio. O tempo era intensivo. O espaço em que iriam estudar, na maioria das vezes, era a própria escola onde trabalhavam. Então reconfiguramos os projetos pedagógicos com base nessas premissas”.

Os reformuladores atuaram tendo em vista que a clientela do Parfor é formada por pessoas que estão, há muitos anos, sem estudar, que não tinham domínio de tecnologias e nenhuma familiaridade com ritos acadêmicos. Então foi preciso reconfigurar o TCC, o método de trabalho, a própria experiência acadêmica. Toda essa intensa troca de saberes resultou em uma grande aprendizagem também para os professores da própria UFPA, como ressaltou a coordenadora. Uma das experiências mais exitosas nesta caminhada de dez anos foi o oferecimento de licenciaturas na área da Arte. Para além dos conteúdos acadêmicos, cursos de Artes Visuais, Teatro, Dança e Música conseguem construir uma relação orgânica com a vida das pessoas. Mais uma vez, a UFPA saiu na frente ao investir maciçamente na área.

Em seus dez anos de existência, o Parfor transformou a vida de alunos e de professores. No depoimento seguinte, a professora Josenilda Maués sintetiza um pouco dessa transformação: “Penso que o maior ganho é o encontro vigoroso da universidade com a situação real dos professores e das escolas. Atuar em condições não ideais, conhecer a vida das pessoas, na maioria mulheres acima de 40 anos, que fazem enormes sacrifícios para estar ali, quarenta dias fora de casa, deixando filhos, levando crianças para amamentar em sala de aula. A gente passa a conhecer a história real dessas mulheres e percebe o quanto é importante para elas ter acesso a um curso superior. Isso muda a vida delas, muda a vida das famílias, dos filhos. São experiências transformadoras de vidas, de alunos e de professores”.

Ed.151 - Outubro e Novembro de 2019

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