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Ciência

Publicado: Terça, 04 de Agosto de 2020, 16h15 | Última atualização em Terça, 04 de Agosto de 2020, 16h15 | Acessos: 281

 

Vegetação nativa e riachos: evitando colapsos da biodiversidade (*)

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Tomadores de decisões e conservacionistas têm sido desafiados com a tarefa de proteger os ambientes aquáticos em distintas partes do mundo, estabelecendo e implementando limites às alterações provocadas pelas ações humanas. As plantações, a pecuária e a urbanização, embora sejam essenciais para nós, estão entre os usos do solo que têm empurrado os ecossistemas aquáticos em direção ao colapso.

Usar inapropriadamente o solo significa comprometer serviços ecossistêmicos vitais fornecidos pelos ambientes de água doce, como o controle de enxurradas e de doenças, a purificação da água e o fornecimento de alimento. Quando isso ocorre, uma parte significante da biodiversidade é perdida.

Uma estratégia adotada em muitos países é a proteção de faixas de vegetação nativa no entorno de riachos, rios e lagos, abrangendo as zonas de vegetação ripária ou ciliar. No Brasil, essas reservas são chamadas de Áreas de Preservação Permanente (APPs). As APPs são implementadas tanto em propriedades particulares quanto em áreas públicas. Contudo algumas questões permanecem em aberto do ponto de vista científico. Quanto devemos proteger para prevenir colapsos da biodiversidade aquática? Podemos reduzir o risco de nos aproximar desses colapsos? Existe um tamanho único que pode ser usado para estabelecer regulamentos em grandes regiões ou continentes?

Um artigo recém-publicado no prestigiado periódico Journal of Applied Ecology explorou essas questões em uma das regiões mais ricas do mundo em termos de ambientes de água doce - a região neotropical. Com a colaboração de 50 pesquisadores de 26 instituições de pesquisa, os autores reuniram uma grande quantidade de dados sobre peixes e invertebrados de riachos distribuídos na maioria dos biomas brasileiros (Figura 1).

Para obter todos esses dados, cada pesquisador realizou anos de trabalho, coletando, identificando e organizando dados sobre os ecossistemas aquáticos do Brasil. Esse trabalho é fruto de uma iniciativa abrangente que busca aumentar a colaboração dos pesquisadores brasileiros em distintas áreas, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), financiado pelos governos federal (com recursos do CNPq) e estadual de Goiás (com recursos da Fapeg).

“Especificamente, o INCT-EECbio é voltado a fomentar grupos de pesquisa que ajudem a solucionar problemas da conservação da biodiversidade”, explicou José Alexandre F. Diniz Filho, professor da Universidade Federal de Goiás e coordenador do INCT-EECBio.  Para mais informações, acesse https://www.eecbio.ufg.br

“Esta é a primeira vez que questões envolvendo o efeito da degradação ripária sobre a biodiversidade aquática são investigadas com uma grande quantidade de dados, para distintos biomas”, afirmou Renato B. Dala-Corte, primeiro autor do estudo e pesquisador de pós-doutorado na Universidade Federal de Goiás.

“Nós já sabíamos, com base em outros estudos, que proteger a vegetação ripária é a chave para manter os ecossistemas de água doce saudáveis e proteger a biodiversidade. O que nós não sabíamos é se existiam padrões consistentes ao longo de grandes regiões e se nós poderíamos recomendar um tamanho único de reserva ripária que maximizasse a proteção da biodiversidade ao mesmo tempo que permitisse a adoção das práticas comuns de uso do solo no restante da paisagem”, releva Dala-Corte.

Em sua investigação, os autores utilizaram imagens de satélite para detectar mudanças no entorno dos riachos, combinadas com uma abordagem de estimar pontos abruptos de alterações da biota (limiares) baseados em indicadores biológicos. “Esses limiares ocorrem quando vários indicadores biológicos respondem, de forma similar, a uma certa quantidade de perda de vegetação ripária”, explica o pesquisador.

Os resultados são surpreendentes. O estudo sugere que não existe um valor único de largura de vegetação ripária que possa garantir que os ecossistemas aquáticos não irão sofrer mudanças abruptas de biodiversidade em razão das pressões de uso do solo. “Não existe um número mágico”, como os próprios autores afirmam em seu artigo, uma vez que a variação entre biomas e tamanhos ripários avaliados foi muito elevada.

“Esse resultado tem implicações diretas sobre o manejo de reservas ripárias (APPs), porque as regulamentações e leis implementadas nos distintos países usam um único tamanho para limitar o uso do solo em escala nacional, sem levar em consideração particularidades regionais ou o tipo de atividade antrópica. Além disso, as reservas ripárias são geralmente pequenas demais”, explica Dala-Corte. “Para o Brasil, um país de escala continental, faz sentido que um tamanho único não sirva para tudo, o que sugere que muitos ecossistemas aquáticos no país estejam próximos ou já tenham ultrapassado os limiares que levam a perdas abruptas de espécies”, ele conclui.

Outra descoberta do estudo diz respeito ao tamanho mínimo das reservas ripárias. Evidências consistentes sugerem que quanto maior as reservas ripárias menor é o risco de ultrapassar os limiares que levam a declínios abruptos de biodiversidade aquática. Dentro do menor tamanho ripário avaliado (50 metros), a perda de apenas 6,5% de vegetação nativa ripária, em média, já foi suficiente para alcançar declínios acentuados de invertebrados aquáticos. Na Amazônia, esse valor foi de apenas 2,9%.

Quando um tamanho ripário maior foi avaliado (500 metros), uma porcentagem quatro vezes maior de perda de vegetação nativa foi necessária para ultrapassar os limiares. Um padrão semelhante foi observado para peixes. Isso significa que a sensibilidade às mudanças na faixa ripária aumenta à medida que nos aproximamos dos riachos e que quase qualquer alteração na área de 50 metros no entorno dos riachos já é suficiente para desencadear grandes mudanças na biodiversidade aquática.

“O Brasil já tem uma lei ambiental (Lei nº 12.651/2012) que obriga a proteção de APPs de 30 metros de largura no entorno de riachos pequenos, tanto para propriedades privadas quanto públicas, o que é positivo. Contudo nosso estudo sugere que 30 metros é menor do que o mínimo necessário para reduzir o risco de ultrapassar os limiares de perda de biodiversidade”, afirma Fábio O. Roque, professor na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e coautor da pesquisa.

Os autores concluem que os indicadores biológicos mais sensíveis podem ser usados como sinais precoces que alertam o risco de aproximação de mudanças abruptas nos ecossistemas aquáticos. O estudo ainda indica a necessidade de políticas adicionais para a proteção de grandes reservas ripárias na região neotropical, as quais devem considerar o contexto regional na formulação dos regulamentos e promover incentivos aos proprietários de terras particulares para conservarem largas áreas ripárias.

(*) Uma versão oficial do artigo está disponível no site do “Journal of Applied Ecology” (https://besjournals.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/1365-2664.13657), ou via solicitação aos autores.

Outras informações com Leandro Juen, Professor Associado I do Instituto de Ciências Biológicas (ICB/UFPA). E-mail: <leandrojuen@gmail.com>

Conheça os autores do artigo:

Renato B. Dala-Corte, Universidade Federal de Goiás (Brasil), renatocorte@gmail.com.

Fábio O. Roque, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (Brasil), roque.eco@gmail.com.

Luis M. Bini, Universidade Federal de Goiás (Brasil), lmbini@gmail.com.

Adriano S. Melo, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) (current address), asm.adrimelo@gmail.com.

Tadeu Siqueira, Universidade Estadual Paulista (Brasil), tsiqueira.bio@gmail.com.

Almir M. Cunico, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Palotina, PR, Brasil.

Ana M. Pes, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM, Brasil.

André L. B. Magalhães, Universidade Federal de São João Del Rei (UFSJ), Ouro Branco, MG, Brasil.

Bruno S. Godoy, Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, PA, Brasil.

Cecília G. Leal, Universidade de São Paulo (USP), Piracicaba, SP, Brasil.

Claudio S. Monteiro-Júnior, Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, PA, Brasil.

Cristina Stenert, UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.

Diego M. P. Castro, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Diego R. Macedo, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Dilermando Lima-Junior, Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Pontal do Araguaia, MT, Brasil.

Éder A. Gubiani, Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo, PR, Brasil.

Fabiana C. Massariol, Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), São Mateus, ES, Brasil.

Fabrício B. Teresa, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Anápolis, GO, Brasil.

Fernando G. Becker, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), RS, Brasil.

Francine N. Souza, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA, Brasil.

Francisco Valente-Neto, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil.

Franco L. de Souza, Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil.

Frederico F. Salles, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa, MG, Brasil.

Gabriel L. Brejão, Universidade Estadual Paulista (UNESP), São José do Rio Preto, SP, Brasil.

Janaina G. Brito, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM, Brasil.

Jean R. S. Vitule, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Curitiba, PR, Brasil.

Juliana Simião-Ferreira, Universidade Estadual de Goiás (UEG), Anápolis, GO, Brasil.

Karina Dias-Silva, Universidade Federal do Pará (UFPA), Altamira, PA, Brasil.

Laysson Albuquerque, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Campo Grande, MS, Brasil.

Leandro Juen, Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, PA, Brasil.

Leonardo Maltchik, UNISINOS, São Leopoldo, RS, Brasil.

Lilian Casatti, Universidade Estadual Paulista (UNESP), São José do Rio Preto, SP, Brasil.

Luciano Montag, Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém, PA, Brasil.

Marciel E. Rodrigues, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA, Brasil.

Marcos Callisto,Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Maria A. M. Nogueira, Centro Universitário FG (UNIFG), Guanambi, BA, Brasil.

Mireile R. dos Santos, Instituto Federal Sul de Minas Gerais (IFSULDEMINAS), Poços de Caldas, MG, Brasil.

Neusa Hamada, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM, Brasil.

Paulo A. Z. Pamplin, Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), Poço de Caldas, MG, Brasil.

Paulo S. Pompeu, Universidade Federal de Lavras (UFLA), Lavras, MG, Brasil.

Rafael P. Leitão, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, MG, Brasil.

Renata Ruaro, Universidade Estadual de Maringá (UEM), Maringá, PR, Brasil.

Renato T. Martins, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM, Brasil.

Rodolfo Mariano, Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), Ilhéus, BA, Brasil.

Sheyla R. M. Couceiro, Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), Santarém, PA, Brasil.

Vinícius Abilhoa, Museu de História Natural Capão da Imbuia (MHNCI), Curitiba, PR, Brasil.

Vivian C. Oliveira, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM, Brasil.

Yulie Shimano, Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), Cuiabá, MT, Brasil.

Yara Moretto, Universidade Federal do Paraná (UFPR), Palotina, PR, Brasil.

Yzel R. Súarez, Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), Brasil.

Ed.155 - Jun/Jul/Ago de 2020

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