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O arrasta povo do Pará

Escrito por Beira do Rio | Publicado: Segunda, 15 de Junho de 2020, 16h18 | Última atualização em Segunda, 15 de Junho de 2020, 17h11 | Acessos: 1278

A experiência comunicativa nas festas de aparelhagem

A aparelhagem Super Pop surgiu nos anos 1980 com o nome Big Som Progresso e hoje realiza, em média, 15 shows por mês.
imagem sem descrição.

Por Flávia Rocha Foto Acervo da Pesquisa

As festas de aparelhagem são intrínsecas à realidade do paraense. Ainda que o indivíduo não seja frequentador das festas, é muito provável que a existência destas tenha chegado ao seu conhecimento por meio do anúncio de carro de som ou de comercial na televisão. As primeiras aparelhagens que surgiram em Belém, entre os anos 1940 e 1950, consistiam em um projetor de som, também conhecido como “boca de ferro”, ligado a um ou dois toca-discos. A “Sonoro’s Gajará” foi a primeira aparelhagem da capital paraense.

Segundo dados da Divisão de Polícia Administrativa da Polícia Civil do Pará, somente na Região Metropolitana de Belém, atualmente, existem mais de 800 aparelhagens. As festas de aparelhagem viraram ícones da cultura urbana do Pará. Dessa forma, o comunicólogo Hans Cleyton Passos de Souza escolheu esse tipo de evento como objeto de estudo para sua dissertação O arrasta povo do Pará: A experiência comunicativa e estética nas festas da aparelhagem Super Pop. O trabalho foi defendido no Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia (PPGCOM/ILC), com orientação do professor Fábio Fonseca de Castro.

A aparelhagem Super Pop foi fundada entre os anos de 1986 e 1987, pelo empresário Elias Carvalho, com o nome de Big Som Progresso. Hoje, a aparelhagem Super Pop Live, dependendo do período, realiza em média 15 shows por mês. Janeiro e fevereiro são os meses em que a aparelhagem menos faz apresentações. Isso se dá por ser a época de chuva na região. A partir do carnaval, o número de apresentações aumenta. Os meses mais requisitados são junho (em razão da quadra junina) e julho (graças às férias escolares).

“Para desenvolver a pesquisa e compreender esse momento festivo, utilizei um aporte teórico que vem tanto da Sociologia quanto da Antropologia. Em contato com as pessoas durante esse momento de relação social, comecei a observar quais elementos se repetiam no decorrer das festas. Essas características partilhadas pelas pessoas do evento foram o que eu chamei de tipificação, um conceito que corresponde a elementos sociais que são partilhados por grupos de pessoas”, explica o pesquisador. O objetivo da pesquisa foi analisar quais elementos eram tipificados nos frequentadores da aparelhagem Super Pop live.

Carisma e tecnologia são essenciais nas festas

Em busca da compreensão das tipificações presentes no momento festivo, Hans Passos analisou quatro festas de aparelhagem; três realizadas pelo Super Pop Live (Areião do Outeiro, Festa do Botequim, Festa do Pará Clube) e uma pelo Ouro Preto Marcantes. Segundo a pesquisa, o primeiro aspecto em comum entre as festas da aparelhagem Super Pop Live foi a importância do papel do DJ.

Na criação da primeira aparelhagem, os DJs da época eram conhecidos como ‘controlistas’ e sua função era apenas operar o equipamento sonoro. Quem desempenhava o papel de “dar voz” ao sonoro era o locutor. De acordo com Walmir Melo, ex-DJ entrevistado pelo pesquisador, o locutor, “na maioria das vezes, era o personagem mais conhecido da aparelhagem. Era o animador da festa”.

Atualmente, o carisma do DJ e a sua forma de interação com o público fazem parte das estratégias de a aparelhagem se manter relevante no cenário das festas em Belém. Alguns DJs possuem seus próprios fãs clubes. “Durante a festa da aparelhagem Ouro Preto Marcantes, conversei com alguns participantes e pude observar que grande parte dos presentes não ia pela afinidade com os DJs ou pela aparelhagem, mas para curtir as músicas, diferentemente do público do Super Pop”, comenta Hans Passos.

Não há como separar as festas de aparelhagem da tecnologia. Os eventos fazem o uso de luzes, telas de LED, efeitos pirotécnicos e amplificadores de som de alta capacidade. “Um dos DJs entrevistados afirmou que as pessoas consideram muito a tecnologia. Quanto mais a aparelhagem usa esses elementos, maior a probabilidade de manter-se no topo. Quando ela para de investir nesse aspecto, começa a ficar ‘batida’, ou seja, repetitiva”, explica o comunicólogo. Os proprietários das aparelhagens compreendem o que o público deseja e ficam atentos a qualquer adição que se possa fazer para continuar agradando, muitas vezes baseados no cenário nacional e internacional.

O exagero é algo muito presente. Isso se reflete no uso da tecnologia pelas aparelhagens e até na forma como os frequentadores se apresentam nas festas. “É possível observar que os participantes gostam de ostentar roupas de marca, com as logomarcas em destaque. O corte de cabelo mais comum é o chamado degradê ou undercut. Além disso, eles tendem a escolher cores mais extravagantes e chamativas para suas roupas e para o tom dos cabelos”, descreve o autor do estudo.

Repertório conta com tecnobrega, forró, funk e pop

O consumo de bebidas alcoólicas também é uma tipificação. “Observei que muitos participantes buscavam se inserir no contexto da festa pelo consumo de bebida. Se o grupo estava bebendo cerveja, quanto mais baldes à mesa, mais ‘inserida’ a pessoa ou o grupo pareceria estar”, afirma Hans Passos.

Entre os anos de 1930 e 1960, o merengue caribenho teve grande influência no gosto musical paraense, pois as rádios do Caribe possuíam melhor sinal na capital do estado do que as rádios brasileiras. Atualmente, as festas de aparelhagem ainda são influenciadas por outros gêneros musicais. É possível comprovar essas influências observando a tematização das festas. A presença do tecnobrega é indispensável, porém canções famosas de forró, funk e pop internacional também estão presentes.

“As festas de aparelhagens assim como os bailes funks configuram-se como uma indústria de entretenimento musical, fazendo com que a periferia não seja associada apenas à violência e pobreza, mas também a um lugar que produz música, cinema etc. Um sujeito que possui instrumentos básicos de edição e captação de áudio e/ou vídeo pode se tornar um produtor musical”, afirma Hans Passos.

É importante dar visibilidade para as aparelhagens como elemento cultural e como patrimônio da região amazônica. O pesquisador defende, ainda, a análise das festas baseada em elementos teóricos e metodológicos, e não apenas de maneira empírica. É importante estudar de que forma o elemento, construído intersubjetivamente nas festas, se apresenta.

Confira algumas curiosidades sobre as aparelhagens

- A denominação “aparelhagem” passou a ser utilizada em meados dos anos 1970, com a modernização dos equipamentos utilizados na estrutura. Em alguns locais, o termo “equipe de som” também chegou a ser utilizado.

- O divisor de águas entre os sonoros e as aparelhagens foi a chegada do transistor, pois esse dispositivo possuía baixo custo de manutenção, e a qualidade sonora não era comprometida ao longo do tempo. A partir de então, as aparelhagens passaram a participar de uma “corrida tecnológica”, buscando cada vez mais recursos.

- O Super Pop já possuiu várias denominações: Pop som - O Águia de Fogo, Pop Som - 1, 2, 3 e 4, Super Pop - O Peso do Som, Super Pop - O Águia de Fogo, O Águia de Fogo Super Pop - O Arrasta Povo. Atualmente é denominado Super Pop Live.

- O nome “Águia de Fogo” veio de um seriado televisivo norte-americano da década de 1980, o qual contava com um helicóptero chamado Águia de Fogo, que participava de várias missões de espionagem.

- Durante a pesquisa de campo, o pesquisador pôde acompanhar o processo de montagem da estrutura física da aparelhagem Super Pop, que, dependendo da configuração selecionada pelo contratante, requer de 3 a 8 horas de montagem.

Ed.155 - Jun/Jul/Ago de 2020

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