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Rural e urbano, legítimo e estilizado

Escrito por Beira do Rio | Publicado: Segunda, 15 de Junho de 2020, 16h40 | Última atualização em Segunda, 15 de Junho de 2020, 17h11 | Acessos: 1305

Desde o século XIX, o carimbó continua se reinventando 

imagem sem descrição.

Por Gabriel Mansur Ilustração Walter Pinto

Os gêneros musicais são uma expressão artística que compõe a história de um povo. São parte importante da cultura local e carregam um passado que explica sua origem. Samba, sertanejo, forró e frevo são exemplos de gêneros que carregam essa ancestralidade e constituem a cultura de suas regiões. Na Amazônia, o carimbó é um dos gêneros que se destacam.

Em 2014, o carimbó recebeu o título de Patrimônio Cultural e Imaterial do Brasil. Porém já existem registros sobre o gênero desde o século XIX. Com marcas de origem africana, o carimbó é caracterizado pelo batuque, tendo como um dos instrumentos o curimbó, que deu origem ao seu nome.

Com o objetivo de compreender como os artistas do carimbó pensavam a musicalidade, o historiador Edilson Mateus Costa da Silva apresentou a tese A invenção do carimbó: música popular, folclore e produção fonográfica (século XX), orientada pelo professor Antonio Maurício Dias da Costa e defendida no Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia (PPHIST/IFCH).

“A maioria dos trabalhos toma o carimbó com base no olhar dos folcloristas, assim como se debruça, quase exclusivamente, sobre as fontes orais, esquecendo a vasta produção musical que existe a partir dos anos de 1970”, explica o pesquisador.

No início da sua pesquisa, Edilson Mateus da Silva faz um apanhado histórico sobre o carimbó. Mencionado pela primeira vez no século XIX, o gênero foi perseguido e viveu na clandestinidade até os anos 1940. O carimbó era visto como algo que “destoava da civilização”, pois era repleto de batuques e festejos. Diferentemente das músicas da época, que seguiam o padrão clássico europeu, o ritmo chegou a ser compreendido como “perturbação ao sossego público”.

No fim da década de 1930 até 1940, o ritmo ganhou ares folclóricos. Passou a ser aceito pela intelectualidade como parte da “essência” da Amazônia. Com o fomento à criação de uma identidade nacional nos anos 1950/1960, o carimbó foi incorporado em projetos políticos e educacionais e foi celebrado como exemplo da riqueza da cultura popular brasileira.

Gravações começam em 1970, com Mestre Verequete

Em 1970, o carimbó passa a ser gravado e comercializado. Em 1971, o primeiro álbum foi lançado sob o nome “O Legítimo Carimbó”. Seu autor: Augusto Gomes Rodrigues, o Mestre Verequete. Em 1973, é popularizado sob a autoria de outro grande nome do gênero, Pinduca, que lança seu primeiro disco: “Carimbó e Sirimbó do Pinduca”.

O carimbó levanta debates entre folcloristas, intelectuais e artistas. Existe uma discussão sobre a diferença entre o carimbó “legítimo” e o “estilizado”, sendo o legítimo feito com os instrumentos tradicionais; e o estilizado, incorporando arranjos eletrônicos. “Uma das questões centrais da pesquisa foi desconstruir essa noção recorrente de que há uma oposição entre ‘legítimo’ e ‘estilizado’. Esse pensamento coloca, de um lado, os artistas ‘de raiz’/ ‘pau e corda’, representados por Verequete e Lucindo; e de outro lado, os ‘estilizados’, representados por Pinduca e demais artistas”, ressalta Edilson Mateus da Silva.

O historiador explica que esta é uma visão estereotipada, em que o carimbozeiro tradicional teria ficado parado no tempo, “ou seja, para tocar carimbó ‘legítimo’, seria necessário remontar o modelo da época da colônia, vestir-se como no passado e usar instrumentos não eletrônicos”.
De acordo com o pesquisador, é preciso entender que o homem do interior, o tocador de carimbó, também tem acesso à tecnologia e aos instrumentos eletrônicos. “Quando, nos anos de 1970, eles incorporam guitarras aos arranjos, estavam reproduzindo elementos que pertenciam ao cotidiano do ‘caboclo’ amazônico naquele momento”, afirma o pesquisador.

Com base nessa discussão, Edilson Mateus faz uma linha do tempo sob a perspectiva da produção fonográfica do carimbó. Começa em 1971, quando Verequete lança seu primeiro álbum. Verequete nasceu em Bragança, morou nos municípios de Ourém e de Capanema. Aos 14 anos, veio para Belém e passou a viver no distrito de Icoaraci, onde teve os primeiros contatos com o carimbó.

A infância no interior foi importante para as suas composições assim como a influência de seu pai, o músico Antônio José Rodrigues, compositor de carimbó e de outras manifestações folclóricas. As composições ligadas à vida no interior e o fato de tocar apenas com os instrumentos “tradicionais” fizeram com que o mestre fosse considerado um represente do carimbó legítimo. Verequete tocava com o Grupo Uirapuru.

Pinduca inovou ao trazer arranjos eletrônicos

Pinduca, outro grande representante do carimbó, lançou seu primeiro álbum em 1973. Chamou atenção por trazer elementos diferentes, como arranjos eletrônicos. Sua música não foi bem recebida por alguns críticos e folcloristas, que entendiam essa expressão do carimbó como “deturpada”. Segundo Edilson Mateus Costa da Silva, Pinduca colaborou em grande medida para a popularização do carimbó.

“Os seus primeiros discos tiveram um grande impacto no mercado fonográfico, também foram responsáveis pela ‘invenção’ do carimbó como o entendemos hoje: folclórico e representante da regionalidade. Os inúmeros debates em defesa do carimbó no âmbito musical, mercadológico, educacional (tornando-se conteúdo escolar), econômico (com a exploração do turismo) foram forjados nas polêmicas e no sucesso da sua obra”, esclarece Edilson Mateus.

Muitos outros carimbozeiros contribuíram para a construção do carimbó que conhecemos. Um deles, Mestre Lucindo, era organizador de grupos de carimbó e promovia expressões consideradas folclóricas. Seu primeiro conjunto de carimbó chamou-se Flor da Cidade. Em 1974, gravou um LP que é considerado pioneiro. A partir de 1970, a produção fonográfica do carimbó foi amplamente marcada pelo modelo das composições de Mestre Lucindo.

De acordo com o historiador, há uma tentativa de “manter as raízes” do carimbó por parte de alguns críticos musicais. “Ficou ‘patenteado’ que o carimbó era rural, já que, para ser folclórico, um gênero não poderia ser ‘moderno’ ou mesmo ‘urbano’. Eles criaram um estereótipo que enquadrava o carimbó em um modelo específico que se expressava como ‘legítimo’, levando os artistas a se enquadrarem nesse modelo”, revela.

“A valorização do carimbó e de seus artistas deve ocorrer por ele ser um elemento que colabora para nossa identidade regional. O gênero vai se modificar e incorporar outras referências, outros instrumentos, além de se associar a outros gêneros, como já vem ocorrendo. E não parece que essa aproximação com os instrumentos eletrônicos seja capaz de deturpá-lo, ao contrário, deverá proporcionar outros processos criativos, como podemos observar artistas mais jovens, recentemente gravando carimbó”, conclui Edilson Mateus da Silva.

Linha do Tempo

Ed.155 - Jun/Jul/Ago de 2020

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