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Desatentos, hiperativos e impulsivos

Publicado: Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 16h16 | Última atualização em Segunda, 04 de Dezembro de 2017, 18h00 | Acessos: 48

Estudo mapeia TDAH entre escolares de Castanhal/PA

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Por Armando Ribeiro Infográfico Priscila Santos

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é de alta incidência infantil e constitui-se como um tripé baseado na desatenção, na hiperatividade e na impulsividade, que tem efeitos negativos em diversas áreas da vida. Mapear a prevalência dele entre alunos do ensino fundamental em Castanhal (PA) foi o objetivo principal da pesquisa de doutorado do psicólogo João Paulo dos Santos Nobre. A tese Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade: um estudo de rastreamento entre escolares de Castanhal/PA foi orientada pelo professor Fernando Augusto Pontes e defendida no Programa de Pós-Graduação em Teorias e Pesquisa do Comportamento (PPGTPC)/UFPA.

O pesquisador conta que os três subtipos de TDAH, hoje chamados de “apresentação”, por mais que tenham uma variação em cada indivíduo, possuem características que os distinguem. “A hiperatividade está relacionada com a agitação motora, então é aquele indivíduo que vai ficar se mexendo toda hora, que não consegue permanecer sentado muito tempo. A impulsividade se relaciona mais a aspectos emocionais, a pessoa sente dificuldade em esperar sua vez e em deixar os outros falarem, responde antes da pergunta ser concluída. A desatenção seria aquela pessoa que, mesmo envolvida em uma atividade do seu interesse, tende a se distrair”, explica João Paulo.

Embora com elevada incidência, o transtorno ainda é pouco estudado no Brasil, não possuindo um protocolo padrão de diagnóstico. “Em virtude disso, muitas pessoas são diagnosticadas incorretamente, atrasando um tratamento adequado, que evitaria muito sofrimento, pois o transtorno tem um impacto enorme no desenvolvimento do indivíduo”, explica o autor da pesquisa. “Não raramente recebo no consultório jovens e adultos que já têm histórico de terapia ou que, ao tentarem iniciar o tratamento, ouviam respostas como: ‘ele não tem nada, é coisa da idade’ ou ‘é apenas mimado’, e, ao aplicar os protocolos, percebemos que essa pessoa tem todo o padrão do transtorno”, relata o psicólogo.

Prejuízos – De acordo com o professor, os prejuízos na vida de quem possui esse transtorno se manifestam em diversas áreas, implicando relações de amizade, amorosas e familiares. Mas é na vida acadêmica que eles são mais evidentes. De acordo com a pesquisa, dos 57 alunos que apresentaram características de TDAH, cerca de 42 possuíam atraso escolar. Desorganização, desatenção, trocas frequentes de atividade, confusão com os horários e perda de material são frequentes na vida de pessoas com TDAH. Todos esses fatores contribuem para que esses sujeitos criem um estigma de incompetência e inutilidade.

Por ser um transtorno crônico, João Paulo Nobre ressalta a importância de orientar a família. “Na vida familiar, a rotina fica comprometida para uma pessoa com o transtorno, ela é lenta ou agitada demais, confunde as coisas, não lembra datas e fatos importantes. Por isso é importante que a família seja avaliada com o paciente. Em muitos casos, a criança apanha porque não consegue controlar ou inibir alguns comportamentos típicos do transtorno”, alerta o psicólogo.

João Paulo ainda informa que atitudes simples, como adotar regras bem estabelecidas, ter paciência ao dar comandos, auxiliar na realização de tarefas, reforçar os comportamentos positivos e exaltar as qualidades, fazem uma grande diferença à autoestima do indivíduo.

Metodologia teve como base avaliação de professores

A pesquisa se realizou por meio de sorteio de 279 alunos de três escolas municipais de Castanhal, matriculados do 1° ao 9° ano do ensino fundamental. Também contou com a participação de 39 professores que responderam à Escala Swanson, Nolan e Pelham – SNAP IV, acerca do comportamento dos estudantes. A escala foi o instrumento base utilizado no mapeamento, pois ela traz os principais sintomas presentes no TDAH separados em dois grupos: a desatenção e a hiperatividade-impulsividade.

“Depois de separados, eu tenho o questionário com 18 perguntas a que os professores respondem, cuja nota de corte é 6. Assim, se do 1 ao 9, eu tenho 6 itens marcados de maneira positiva, ou seja, que esses comportamentos estão presentes naquela criança ou adolescente, isso sugere que ele tenha um comportamento de desatenção maior que o esperado. Se do 10 ao 18, eu tenho 6 itens marcados, isso sugere que ele tem um comportamento de hiperatividade-impulsividade maior que o esperado”, explica o pesquisador.

Por ser uma pesquisa de rastreamento, as respostas foram obtidas com os professores, não ocorrendo contato direto com as crianças. O psicólogo fala que a tese não visa dar o diagnóstico de TDAH para os alunos, mas sim mapear características do transtorno que os instrumentos utilizados permitiram obter.

João Paulo Nobre relata que uma grande dificuldade foi o contato com os pais, que, muitas vezes, não possuíam conhecimento sobre o assunto e não se importavam com a escolarização dos filhos. “Uma das escolas da minha pesquisa ficava a quase 40 minutos de Castanhal. Era uma escola de campo e os alunos eram filhos de pessoas ligadas à agricultura, com elevado analfabetismo. Se o filho reprovava há vários anos,  eles não se incomodavam”, relata. No entanto o autor informa que os pais que já vinham percebendo comportamentos fora do comum dispunham-se a assinar os protocolos e a participar da pesquisa com mais facilidade.

Informação sobre transtorno pode transformar vidas

Do total de participantes, 57 alunos (20,43%) apresentaram características do TDAH, dos quais 41 eram meninas e 16 meninos, sendo que a apresentação de maior incidência foi a desatenção, seguida pelo combinado hiperatividade-impulsividade.

João Paulo chama atenção para o fato de que essa diferença entre os sexos tenha ocorrido em razão de, antes do preenchimento do formulário, algumas palestras sobre o tema terem sido ministradas, com sinalizações de qual é o padrão de comportamento do transtorno, e isso talvez tenha refinado o olhar dos professores sobre os alunos e, como o padrão desatenção é apresentado mais por meninas, um fato pode ter levado ao outro.

O pesquisador ressalta a necessidade de iniciativas que saiam das clínicas e atinjam as áreas mais carentes. “Quando fui para essa realidade mais carente, percebi o quanto ações que saiam do escritório e cheguem às massas são essenciais. Desde então, sempre que sou convidado, ministro palestra sobre o tema. A contribuição da pesquisa independe de voltar às escolas com os resultados ou do relatório. Você já mobilizou as pessoas. Elas já foram provocadas de alguma forma. Algumas estavam ouvindo falar pela primeira vez do TDAH”, afirma João Paulo Nobre.

Para o pesquisador, estudos como este trazem visibilidade ao tema e ajudam pessoas com o transtorno a superarem os estigmas que carregam. “Quando os pais olham para o filho e percebem que talvez ele não passe de ano porque ele tem um transtorno, que talvez ele não fique quieto e receba muitas queixas da escola por causa de uma condição que é clínica, este aluno, que é tachado de ‘burro’ e ‘que vem à escola só porque tem que vir’, tem o curso de vida completamente modificado, porque as pessoas começam a olhar para ele de maneira diferente. Assim, o mais importante é você aprender a olhar para o outro, entender as suas limitações e ter empatia em relação ao seu sofrimento”, conclui.

 Ed.140 - Dezembro e Janeiro de 2017 / 2018

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