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MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA

Publicado: Terça, 12 de Maio de 2026, 19h52 | Última atualização em Terça, 19 de Maio de 2026, 18h30 | Acessos: 99

Pesquisa atesta relação entre sono e desempenho muscular em pacientes oncológicos

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Por Luiza Amâncio

No silêncio do quarto, o sono (ou a falta dele) pode estar apontando algo que não conseguimos ver. Para quem passa por tratamento oncológico, dormir mal pode ser um sinal de que o corpo está perdendo força. Foi a partir dessa inquietação que a estudante de fisioterapia, Aline Georgina Oliveira, decidiu investigar a relação entre qualidade do sono e força muscular em pacientes oncológicos do Hospital Universitário João de Barros Barreto (HUJBB).

A pesquisa intitulada “Associação entre a qualidade do sono e força muscular em pacientes com câncer: um estudo transversal” teve como objetivo compreender se os distúrbios do sono estão associados à fraqueza muscular e ao risco de sarcopenia, condição caracterizada pela perda progressiva de massa e força dos músculos. Os distúrbios mais comuns são insônia e apneia obstrutiva do sono, frequentemente diagnosticados em pessoas com câncer.

Para transformar essa hipótese em evidência científica, Aline contou com a ajuda da orientadora, professora Laura Maria Tomazi Neves, e do co-orientador, Laerte Jônatas Leray Guedes: “Nós nos juntamos para elaborar um projeto que pudesse suprir essa demanda da literatura sobre os distúrbios do sono em pacientes oncológicos”, declarou a pesquisadora.

Os pesquisadores observaram 46 pacientes adultos em tratamento ou em acompanhamento oncológico no HUJBB. A metodologia combinou o relato sobre o que o paciente sente com o que o corpo revela. Foram aplicados instrumentos comprovados cientificamente, como: o Índice de Qualidade do Sono de Pittsburgh - que mede a eficiência e o grau dos distúrbios do sono -; e a Escala de Sonolência de Epworth - que avalia o quanto o indivíduo sente sono durante o dia. Para investigar o risco de sarcopenia, utilizou-se o questionário SARC-F, além de testes objetivos de força.

A precisão na hora de comprovar a hipótese e não deixar dúvidas quanto ao resultado  foi decorrente da utilização de instrumentos requintados: “Para avaliar a força de membros inferiores, utilizamos o dinamômetro isocinético, que é um aparelho de altíssimo custo que nós temos no Laboratório de Avaliação e Reabilitação das Disfunções Cardiovascular, Oncológica e Respiratória  (LACOR)”, destacou Aline. Assim, não se tratava apenas de perguntar se o paciente dormia bem, mas de medir o impacto disso no funcionamento real do corpo. Saber, por exemplo, quanta força ele possui para estender e flexionar a perna.

“Como resultado, nós descobrimos que existe, sim, uma correlação positiva entre a qualidade do sono e a força muscular. Quanto melhor for a qualidade do sono daquele paciente oncológico, melhor será a força muscular dele. Esses resultados são importantes para que os profissionais da saúde possam entender os distúrbios do sono como possível causa primária de um quadro de fraqueza muscular. Isso irá ajudá-los a ver o paciente oncológico de forma holística, ou seja, enxergá-lo para além do câncer em si” , reforçou a estudante.

O descanso noturno como parte do tratamento

Quando os dados pesquisados foram cruzados, o padrão encontrado tornou-se ainda mais claro, e revelou: quanto pior o sono, maior o risco de fraqueza, consequentemente, pior o desempenho funcional e maior a dependência na hora de realizar atividades do dia a dia. Pacientes com mais sonolência e pior qualidade de sono também apresentaram mais dificuldade para caminhar, levantar, manter-se ativos e gerar força nos músculos das pernas.

Os testes mostraram ainda que quem dormia pior tinha desempenho inferior nos músculos responsáveis pela flexão do joelho, fundamentais para manter o equilíbrio. A força das mãos, medida por dinamometria de preensão manual, acompanhou esse declínio, funcionando como um retrato integrado do enfraquecimento corporal.

A pesquisa indica que o sono não é apenas um momento de pausa, mas um componente decisivo da capacidade física de quem vive em tratamento oncológico. Dormir mal, nesse contexto, não significa apenas acordar cansado, mas também perder força, mobilidade e autonomia.

Ao trazer o sono para o centro do debate sobre cuidado, o estudo sugere que observar como o paciente dorme é também uma forma de prever como ele vai  reagir à terapia e preservar sua qualidade de vida. Em um corpo já atravessado por tantos desafios, o descanso noturno se revela como um dos últimos territórios de resistência: silencioso, mas profundamente determinante.

Sobre a pesquisa: O artigo intitulado “Associação entre a qualidade do sono e força muscular em pacientes com câncer: um estudo transversal” teve orientação da professora Laura Maria Tomazi Neves, vinculada à Faculdade de Fisioterapia do Instituto de Ciências de Saúde (FFTO/ICS), e co-orientação de Laerte Jônatas Leray Guedes, do Laboratório de Avaliação e Reabilitação das Disfunções Cardiovascular, Oncológica e Respiratória (LACOR) com financiamento Pibic/CNPq. A pesquisa realizada por Aline Georgina Oliveira foi premiada no XXXVI Seminário de Iniciação Científica da UFPA, da Pró- Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp).

Sobre a pesquisadora: Uma apaixonada pela área da saúde, Aline Georgina Oliveira de Oliveira tem 22 anos e cursa Fisioterapia. Participa do grupo de pesquisa do Laboratório de Avaliação e Reabilitação das Disfunções Cardiovascular, Respiratória e Oncológica, localizado no Hospital Barros Barreto (HUJBB). Aline pretende seguir na carreira acadêmica dando continuidade aos seus estudos nos cursos de mestrado e doutorado para chegar à docência. Em seu tempo livre, gosta de ir ao cinema, estar com quem ama, assistir séries e ler livros. Sua dica para mulheres que desejam ingressar na pesquisa é: “Escolha algo que você tenha paixão e prazer em pesquisar.”

Edição: Jéssica Souza | Fotografia: Alexandre de Moraes 

Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Abril

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