MULHERES E MENINAS NA CIÊNCIA
Retratos desvendam os caminhos que levam à nobreza de Belém no século XIX
Por Luiza Amâncio
Você já se perguntou quem dá nome à alguns lugares da cidade de Belém? Quem foi Batista Campos ou Barão de Igarapé Miri? A pesquisa Retratos da Nobreza, desenvolvida pela estudante de história Júlia Vitória Araújo Ricardo, investiga como a nobreza do século XIX utilizou imagens oficiais feito instrumentos de poder político e de construção da memória social em terras paraenses. O estudo analisa retratos pertencentes ao acervo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará (IHGP) com o objetivo de compreender como essas representações ajudaram a consolidar prestígio, autoridade e a visibilidade pública de sujeitos, cujos nomes ainda hoje estão presentes em ruas, praças, escolas e edifícios de Belém.
Como parte integrante do projeto A nobreza da terra no Pará oitocentista: imagens, poder e memória, orientado pela professora Anna Carolina Coelho, o trabalho parte da análise de fontes iconográficas e documentais para refletir sobre os mecanismos de distinção social e produção de memória no período imperial.
A pesquisa foi realizada a partir do levantamento, digitalização e organização de 22 retratos disponíveis no acervo do IHGP. Segundo Júlia Araújo, o interesse pelo tema surgiu da percepção de que o acervo de retratos do IHGP, embora conhecido, ainda era pouco estudado: “A gente sabia que esse acervo existia, mas não tinha o conhecimento de quais obras estavam retratadas ali, nem quais eram as condições materiais desses retratos”, explica. A partir desse inventário, a pesquisadora identificou os personagens retratados, seus títulos, cargos públicos ocupados, autoria das obras e estado de conservação dos quadros.
Além da análise iconográfica, Júlia recorreu à Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional para mapear a presença desses nobres em jornais do século XIX, buscando compreender suas atuações políticas, alianças e posicionamentos públicos: “Os jornais permitem entender como esses sujeitos se manifestavam politicamente, se eram monarquistas, republicanos ou abolicionistas, e como apareciam no debate público da época”, afirma.
Para a professora Anna Carolina Coelho, o uso combinado de imagens e fontes impressas é central para compreender o período. “Esses personagens, por serem das elites, deixaram muitas fontes. Os retratos e os documentos ajudam a pensar o passado e também como esse passado é representado no presente”, destaca.
Retratos de uma Belém da nobreza
Os resultados da pesquisa mostraram que os retratos foram mais do que objetos artísticos, tendo ainda atuado como ferramentas políticas de distinção social. Dentre características comuns, apresentavam poses semelhantes, vestimentas formais e a ideia de afirmar “sangue azul”. O retrato não mostrava só João Batista Gonçalves Campos, mas também o Visconde de Jari: “O título fazia parte da imagem e da mensagem que se queria transmitir”, explicou Júlia.
A pesquisa também aponta que a padronização estética dos retratos reforçava a ideia de pertencimento a um grupo específico da elite. Segundo a jovem pesquisadora, essas imagens eram produzidas para permanecer no tempo e garantir a continuidade simbólica desses sujeitos. “Eles não eram retratados de forma aleatória. Tudo ali comunicava poder, status e uma tentativa de permanecer na história de Belém”, reitera Júlia.
A estudante, que cresceu no município de Paragominas, ao andar pelas ruas de Belém, percebeu como esses personagens estão espalhados pela cidade de forma naturalizada: “Depois que eu comecei a pesquisar, tive a sensação de que eles estão em toda parte. Todos os caminhos levam aos nobres da terra”, relata. Para ela, a pesquisa ajuda a questionar quem são as pessoas homenageadas nos espaços públicos e quais trajetórias estão sendo celebradas.
A orientadora da pesquisa reforça que o trabalho não busca exaltar a nobreza, mas compreender os processos de construção da memória: “A memória é feita de lembranças e esquecimentos. Esses nobres ajudaram a construir uma memória de ordem e progresso que apagou outras, como a memória da Cabanagem”, afirmou Anna Carolina.
Nesse sentido, o estudo revela que muitos desses nobres participaram ativamente da política imperial e republicana, inclusive em contextos marcados por contradições, como o apoio à monarquia às vésperas da Proclamação da República ou a manutenção de pessoas escravizadas. “Não dá para pensar nesses sujeitos apenas como heróis. É preciso ainda olhar criticamente para quem nomeia a cidade e por quê”, enfatiza.
Sobre a pesquisa: A pesquisa intitulada “Retratos de Nobreza”, sob orientação da professora Anna Carolina de Abreu Coelho, da Faculdade de História (FAHIS/IFCH), foi premiada no XXXVI Seminário de Iniciação Científica da UFPA, realizado pela Pró- Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação (Propesp).
Sobre a pesquisadora: Nascida em Mãe do Rio, Júlia Vitória Araújo Ricardo cresceu em Paragominas, e, hoje, aos 19 anos, mora em Belém e cursa Bacharelado em História na UFPA. A jovem se apaixonou pela pesquisa ainda no ensino médio e pretende seguir na carreira acadêmica, dando continuidade aos seus estudos nos cursos de mestrado e doutorado. Em seu tempo livre, seu passatempo é desbravar os espaços de Belém, além de voltar para sua cidade natal, aproveitar a família e ler. Sua dica para mulheres que desejam ingressar na pesquisa é: “Agir com responsabilidade e comprometimento, buscando referências junto aos professores, estes fundamentais para nos guiar”.
Edição: Jéssica Souza | Fotografia: Alexandre de Moraes
Beira do Rio edição 177 - Janeiro a Abril
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