Especial de Verão – Turismo
Turismo, imersão e desenvolvimento local
Por Karina Moraes
Durante as férias, quando viajamos para uma região desconhecida, é comum contratarmos empresas de turismo que nos levem até os principais pontos turísticos: praias, parques, centros culturais ou gastronômicos. Mas a cada ano, mudam tanto os destinos, como as preferências dos visitantes. Atualmente, turistas têm procurado viver experiências mais autênticas, conhecendo o modo de vida e as histórias dos destinos visitados.
Essas buscas também aprimoram o bem-viver social e econômico das comunidades que produzem esse tipo de turismo, uma vez que, historicamente na região amazônica, grande parte dos recursos naturais são explorados e destinados ao desenvolvimento externo, deixando com as comunidades locais o menor retorno financeiro.
Esse novo fenômeno é comprovado na tese Direito de Permanecer: Turismo de Base Comunitária e Desenvolvimento Endógeno na Ilha de Marajó - Pará - Brasil, da turismóloga Marinete Boulhosa, que investigou como o turismo de base comunitária (TBC) no município de Soure atua no crescimento de dentro para fora das comunidades do Pesqueiro, Céu e Caju-Una, mostrando que os próprios turistas observam essa prática como inovadora, sustentável e mais proveitosa.
O arquipélago marajoara passou por diferentes projetos desenvolvimentistas preocupados em aumentar o fluxo turístico, sem considerar os impactos comunitários e ambientais. Segundo Marinete Boulhosa, de um modo geral, os pacotes turísticos do Marajó seguem o roteiro: praias, apresentações de carimbó e turismo de fazenda. Esse é o exemplo de turismo convencional, que oferece um contato superficial com as comunidades ao focar nas vivências de entretenimento.
Diante disso, moradores locais passaram a investir em outras experiências para gerar e garantir uma fonte de renda. Na comunidade do Pesqueiro, por exemplo, os turistas chegavam buscando passeios de barco. “Eles queriam ver pássaros e macacos, conhecer a vegetação do mangue, saber como se extrai o caranguejo e como acontece a pesca artesanal”, disse um morador em depoimento à pesquisadora.
No Turismo de Base Comunitária, saberes e fazeres são os protagonistas
Aos poucos, essa tendência ganhou forma e as comunidades receberam ações de capacitação como palestras, oficinas e seminários promovidos por entidades governamentais e não-governamentais. Inicialmente sem habilidades técnicas, mas com um profundo conhecimento do ambiente local, esses grupos estavam construindo o turismo de base comunitária (TBC), prática na qual os saberes e fazeres ancestrais são os protagonistas. “Quem vive lá conhece a realidade e é capaz de pensar o próprio desenvolvimento. O TBC é vantajoso, pois democratiza oportunidades, exalta a conservação da natureza e cria uma experiência cheia de trocas culturais”, avalia Marinete Boulhosa.
Outra estratégia foi a organização de associações como meio de melhor representação. Nas comunidades do Céu e do Pesqueiro, 70% e 80% dos moradores, respectivamente, fazem parte de alguma associação, como a Associação de Moradores do Céu (AMPOC) e a Associação das Mulheres da Vila do Pesqueiro (ASMUPESQ). Em Caju-Una, os entrevistados responderam que ainda não integram essas ações. Segundo a turismóloga, essa ausência dificulta o crescimento e a articulação do turismo de base comunitária.
“Com a associação, você tem capacidade de melhorar a organização interna, a colaboração com agências turísticas, que divulgam e comercializam o potencial desses locais. As associações também auxiliam a captação de recursos para financiar empreendimentos, equipamentos e atividades de formação”, ressalta a turismóloga.
Outra premissa do TBC é a desaceleração do turismo convencional e contatos mais profundos entre turista e comunidade. Para a pesquisa, Marinete Boulhosa entrevistou turistas entre 2019 e 2022, e percebeu que essa era uma demanda. Uma turista do Espírito Santo elogiou os conhecimentos adquiridos sobre peixes, marés e plantas medicinais. Outra de São Paulo comentou: “Me emocionei com os moradores do Pesqueiro. Rimos, comemos juntos e contamos histórias. Fui muito bem recebida e me senti em casa”.
Analisar as peculiaridades locais é o primeiro passo
De acordo com a pesquisadora, que também visitou outras regiões do Brasil observando práticas de turismo de base comunitária, há diferentes formas de produzi-lo e tudo depende de uma pré-análise das particularidades do lugar. “Vai depender das características do ambiente, o que pode ser aproveitado como turismo e qual a capacidade de organização da comunidade”, explica Marinete Boulhosa.
Além disso, ouvir é essencial. “Escutar as pessoas mais velhas da região é valorizar o próprio saber e poder transmiti-lo. Elas conhecem o que suas comunidades demandam mais do que ninguém”, afirma a autora do estudo. Marinete também percebeu que buscar o perfil dos turistas é essencial. Essa compreensão mostra que, no verão, o turismo pede muito mais do que admirar as belas paisagens. Agora, aspira-se mergulhar na complexidade social e cultural do destino visitado.
Sobre a pesquisa: A tese Direito de Permanecer: Turismo de Base Comunitária e Desenvolvimento Endógeno na Ilha de Marajó - Pará - Brasil foi defendida por Marinete da Silva Boulhosa, em 2024, no Programa De Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável Do Trópico Úmido (PPGDSTU/Naea), da Universidade Federal do Pará. A pesquisa teve a orientação do Prof. Dr. Silvio José de Lima Figueiredo.
Edição Rosyane Rodrigues | Imagem: Acervo da pesquisa
Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro
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