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Especial de Verão – Turismo

Publicado: Quinta, 23 de Julho de 2026, 19h31 | Última atualização em Segunda, 27 de Julho de 2026, 19h04 | Acessos: 21

Turismo, imersão e desenvolvimento local

#ParaTodosVerem: Fotografia mostra um homem e uma mulher dentro de um caiaque amarelo, sobre um rio de águas escuras. Eles estão sorrindo em nossa direção. Ambos estão com os braços erguidos para cima, segurando remos de extremidades azul e hastes cinza sobre a cabeça. À esquerda, o homem veste um colete salva-vidas laranja sobre uma camisa preta de mangas longas e bermuda verde. À direita, a mulher veste um colete salva-vidas azul sobre uma camisa branca de mangas longas e short branco. Ao fundo, há uma paisagem com vegetação verde densa. O céu está azul com algumas faixas de nuvens brancas
Turistas em passeio de caiaque na praia do Pesqueiro
Turistas em passeio de caiaque na praia do Pesqueiro

Por Karina Moraes

Durante as férias, quando viajamos para uma região desconhecida, é comum contratarmos empresas de turismo que nos levem até os principais pontos turísticos: praias, parques, centros culturais ou gastronômicos. Mas a cada ano, mudam tanto os destinos, como as preferências dos visitantes. Atualmente, turistas têm procurado viver experiências mais autênticas, conhecendo o modo de vida e as histórias dos destinos visitados.

Essas buscas também aprimoram o bem-viver social e econômico das comunidades que produzem esse tipo de turismo, uma vez que, historicamente na região amazônica, grande parte dos recursos naturais são explorados e destinados ao desenvolvimento externo, deixando com as comunidades locais o menor retorno financeiro.

Esse novo fenômeno é comprovado na tese Direito de Permanecer: Turismo de Base Comunitária e Desenvolvimento Endógeno na Ilha de Marajó - Pará - Brasil, da turismóloga Marinete Boulhosa, que investigou como o turismo de base comunitária (TBC) no município de Soure atua no crescimento de dentro para fora das comunidades do Pesqueiro, Céu e Caju-Una, mostrando que os próprios turistas observam essa prática como inovadora, sustentável e mais proveitosa.

O arquipélago marajoara passou por diferentes projetos desenvolvimentistas preocupados em aumentar o fluxo turístico, sem considerar os impactos comunitários e ambientais.  Segundo Marinete Boulhosa, de um modo geral, os pacotes turísticos do Marajó seguem o roteiro: praias, apresentações de carimbó e turismo de fazenda. Esse é o exemplo de turismo convencional, que oferece um contato superficial com as comunidades ao focar nas vivências de entretenimento.

Diante disso, moradores locais passaram a investir em outras experiências para gerar e garantir uma fonte de renda. Na comunidade do Pesqueiro, por exemplo, os turistas chegavam buscando passeios de barco. “Eles queriam ver pássaros e macacos, conhecer a vegetação do mangue, saber como se extrai o caranguejo e como acontece a pesca artesanal”, disse um morador em depoimento à pesquisadora.

No Turismo de Base Comunitária, saberes e fazeres são os protagonistas

Aos poucos, essa tendência ganhou forma e as comunidades receberam ações de capacitação como palestras, oficinas e seminários promovidos por entidades governamentais e não-governamentais. Inicialmente sem habilidades técnicas, mas com um profundo conhecimento do ambiente local, esses grupos estavam construindo o turismo de base comunitária (TBC), prática na qual os saberes e fazeres ancestrais são os protagonistas. “Quem vive lá conhece a realidade e é capaz de pensar o próprio desenvolvimento. O TBC é vantajoso, pois democratiza oportunidades, exalta a conservação da natureza e cria uma experiência cheia de trocas culturais”, avalia Marinete Boulhosa.

Outra estratégia foi a organização de associações como meio de melhor representação. Nas comunidades do Céu e do Pesqueiro, 70% e 80% dos moradores, respectivamente, fazem parte de alguma associação, como a Associação de Moradores do Céu (AMPOC) e a Associação das Mulheres da Vila do Pesqueiro (ASMUPESQ). Em Caju-Una, os entrevistados responderam que ainda não integram essas ações. Segundo a turismóloga, essa ausência dificulta o crescimento e a articulação do turismo de base comunitária.

“Com a associação, você tem capacidade de melhorar a organização interna, a colaboração com agências turísticas, que divulgam e comercializam o potencial desses locais. As associações também auxiliam a captação de recursos para financiar empreendimentos, equipamentos e atividades de formação”, ressalta a turismóloga.

Outra premissa do TBC é a desaceleração do turismo convencional e contatos mais profundos entre turista e comunidade. Para a pesquisa, Marinete Boulhosa entrevistou turistas entre 2019 e 2022, e percebeu que essa era uma demanda. Uma turista do Espírito Santo elogiou os conhecimentos adquiridos sobre peixes, marés e plantas medicinais. Outra de São Paulo comentou: “Me emocionei com os moradores do Pesqueiro. Rimos, comemos juntos e contamos histórias. Fui muito bem recebida e me senti em casa”.

Analisar as peculiaridades locais é o primeiro passo

De acordo com a pesquisadora, que também visitou outras regiões do Brasil observando práticas de turismo de base comunitária, há diferentes formas de produzi-lo e tudo depende de uma pré-análise das particularidades do lugar. “Vai depender das características do ambiente, o que pode ser aproveitado como turismo e qual a capacidade de organização da comunidade”, explica Marinete Boulhosa.

Além disso, ouvir é essencial. “Escutar as pessoas mais velhas da região é valorizar o próprio saber e poder transmiti-lo. Elas conhecem o que suas comunidades demandam mais do que ninguém”, afirma a autora do estudo. Marinete também percebeu que buscar o perfil dos turistas é essencial. Essa compreensão mostra que, no verão, o turismo pede muito mais do que admirar as belas paisagens. Agora, aspira-se mergulhar na complexidade social e cultural do destino visitado.

Sobre a pesquisa: A tese Direito de Permanecer: Turismo de Base Comunitária e Desenvolvimento Endógeno na Ilha de Marajó - Pará - Brasil foi defendida por Marinete da Silva Boulhosa, em 2024, no Programa De Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável Do Trópico Úmido (PPGDSTU/Naea), da Universidade Federal do Pará. A pesquisa teve a orientação do Prof. Dr. Silvio José de Lima Figueiredo.

Edição Rosyane Rodrigues | Imagem: Acervo da pesquisa

Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro

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