Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Página inicial > Exclusivo > Amazônias, amazônidas
Início do conteúdo da página

Amazônias, amazônidas

Publicado: Sexta, 21 de Agosto de 2026, 17h53 | Última atualização em Sexta, 21 de Agosto de 2026, 17h57 | Acessos: 6

Ensaio analisa trajetórias de Zélia Amador de Deus e Ivete Bastos dos Santos

imagem sem descrição.

Por Jéssica Souza

Território, lutas, conflitos, periferias e mulheres, sejam elas negras, da floresta ou das águas. Com esse interesse de pesquisa, a jornalista Lilian Campelo foi uma das autoras do ensaio Amazônias, amazônidas: as mulheres são como as águas dos caudalosos e revoltos rios, crescem quando se juntam!, classificado pelo Prêmio Margarida Alves de Estudos sobre Ruralidades e Feminismos, uma iniciativa do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar. Em 2025, a 5ª edição destacou artigos acadêmicos, ensaios inéditos, relatos de experiências e memórias sobre ruralidades e feminismo na construção de territórios feministas, agroecológicos e emancipatórios no Brasil. 

O ensaio Amazônias, amazônidas: as mulheres são como as águas dos caudalosos e revoltos rios, crescem quando se juntam! analisa trajetórias de mulheres amazônidas como forma de refletir sobre as dinâmicas sociais, políticas e territoriais da região. O texto parte das histórias de vida da professora da UFPA Zélia Amador de Deus, intelectual e militante do movimento negro no Pará; e de Ivete Bastos dos Santos, liderança sindical rural do município de Santarém. Além de Lilian Campelo, também assinam o texto o professor Rogério Almeida, do curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), e a escritora Maria de Nazaré Trindade.

Com base nas vivências das duas lideranças, o ensaio discute as representações da Amazônia, frequentemente marcadas por estereótipos que privilegiam a natureza e acabam invisibilizando os povos que vivem na região e suas formas de organização social. O texto adota ainda a perspectiva das “Amazônias” no plural, enfatizando a diversidade ecológica, cultural e histórica do território. No relato, é possível verificar a interseccionalidade nos enfrentamentos realizados por essas mulheres, nos quais convergem lutas relacionadas com raça, gênero e posição política.

Segundo a pesquisadora Lilian Campelo, dentro desse cenário, destacam-se as experiências de organização e resistência protagonizadas por essas mulheres — e por tantas outras que vivem na Amazônia. “Ao articular as trajetórias de Amador e Bastos, o ensaio evidencia o entrelaçamento entre questões que ressaltam o papel das mulheres amazônidas na defesa de direitos e na construção de alternativas sociais para a região”, explica.

 Ensaio reúne experiência de jornalista e pesquisadora

O ensaio também aborda a região como uma fronteira de expansão econômica, marcada por conflitos fundiários, disputas por recursos naturais e processos de expropriação associados à mineração, ao agronegócio e à exploração madeireira. Parte da produção resulta de uma entrevista com a professora Zélia Amador e Nilma Bentes, ambas lideranças do movimento negro no Pará, que Lilian realizou como jornalista. A matéria foi publicada em 2013, no site Carta Maior, e, em 2025, inspirou o texto Amazônias, amazônidas: as mulheres são como as águas dos caudalosos e revoltos rios, crescem quando se juntam!

Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação, Cultura e Amazônia da Universidade Federal do Pará (PPGCOM/UFPA) e especialista em Comunicação Científica na Amazônia pelo NAEA/UFPA, Lilian Campelo desenvolve pesquisas nas áreas de jornalismo, narrativa e conflitos sociais na Amazônia, com interesse nas relações entre memória, violência e disputa simbólica nos processos de construção da notícia. “Minha experiência como pesquisadora está diretamente vinculada ao campo da comunicação. Ao longo do mestrado, busquei aprofundar essas temáticas analisando narrativas jornalísticas sobre violência no campo e disputa simbólica na região”, conta.

Para a autora, chegar à final de um prêmio como o Margarida Alves representa um grande motivo de orgulho. O concurso seleciona e premia 20 trabalhos, sendo: oito trabalhos para a categoria Artigo Acadêmico e Ensaio Inédito, seis trabalhos da categoria Relato de Experiências e seis trabalhos para a categoria Memórias. Autores e autoras selecionados recebem premiação em dinheiro, além da publicação dos trabalhos em livro. O ensaio Amazônias, amazônidas ficou na 25ª classificação da Categoria Artigo Acadêmico e Ensaio Inédito.

As mulheres – Nascida sob o signo das águas, marés e quilombos do Marajó, Zélia Amador é mulher negra, educadora, atriz, dramaturga e uma das fundadoras do Centro de Defesa do Negro no Pará (Cedenpa). Já Ivete Bastos nasceu nas barrancas do rio Tapajós, no Baixo Amazonas, oeste do Pará, cabocla, lavradora, extrativista, feirante, ex-gestora pública e ex-vereadora, mas, sobretudo, dirigente sindical dos trabalhadores e trabalhadoras rurais do município de Santarém. Ambas, com suas especificidades e agendas, seguem suas vidas na luta pelo incremento da democracia nos dois cenários amazônicos – distintos em características, mas próximos em necessidades como o acesso à educação, o reconhecimento territorial, o respeito às mulheres, além da defesa pelos direitos de campesinos e do conhecimento ancestral amazônidas.

Sobre o prêmio: Criado em 2005, o Prêmio Margarida Alves de Estudos sobre Ruralidades e Feminismos tem como objetivo fomentar a formulação de pensamento crítico sobre as ruralidades e os feminismos, além de reconhecer não apenas o conhecimento acadêmico, mas também os saberes ancestrais das trabalhadoras rurais. A comenda também destaca a importância da luta de Margarida Alves, sindicalista e camponesa, a primeira mulher a assumir a presidência do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande (PB). Margarida foi assassinada em 1983, com um tiro no rosto, em frente à casa dela. Em 2023, Margarida Alves passou a integrar o Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, por meio da Lei Federal nº 14.649/2023, sendo reconhecida como uma das principais referências da luta camponesa no Brasil.

Edição Rosyane Rodrigues | Ilustração: Magnific/naive-plant-care-stickers-collection

Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro

Fim do conteúdo da página