Trinta anos da ovelha Dolly
O experimento que mudou o rumo da Biologia moderna
Por Luiza Amâncio
Em julho de 1996, no Instituto Roslin, na Escócia, nascia a ovelha Dolly, o primeiro mamífero da história clonado com a célula de um animal adulto. Três décadas depois, o experimento que parecia ficção científica segue sendo um dos marcos mais decisivos da genética contemporânea, com desdobramentos que redefiniram o que a ciência entendia sobre as células do corpo.
De acordo com o professor do Programa de Pós-Graduação em Reprodução Animal na Amazônia (ReproAmazon/UFPA) e pesquisador na área de biotecnologias reprodutivas, Moysés dos Santos Miranda, o sucesso de Dolly se sustenta em dois pilares: um voltado à reprodução animal e outro de caráter essencialmente científico, responsável por inaugurar uma nova linha de investigação.
"Eu diria que ela foi importante do ponto de vista de uma nova técnica de reprodução", resume o professor. Para o especialista, o verdadeiro salto científico da Dolly não está na clonagem em si, mas na demonstração de um princípio que a comunidade científica ainda não havia comprovado em mamíferos. "A Dolly foi o primeiro mamífero produzido a partir de uma célula somática de outro mamífero já adulto", afirma Moysés Miranda.
O professor explica que o experimento provou, pela primeira vez em mamíferos, que qualquer célula do corpo carrega toda a informação genética necessária para formar um novo indivíduo. Esse processo — batizado de reprogramação celular — mostrou que era possível, com uma célula especializada, como foi o caso da célula da glândula mamária usada na Dolly, “desespecializar” a célula até um estágio embrionário, de modo que ela fosse capaz de dar início a uma nova vida.
Segundo o professor, o impacto da Dolly não se limitou ao momento de seu nascimento, mas funcionou como ponto de partida para uma revolução inteira na medicina regenerativa celular. "Ela foi a base para a criação de uma nova tecnologia, que é a terapia por reprogramação celular chamada de iPS (induced pluripotent stem cells)", explica.
O desenvolvimento das células iPS ocorreu em 2007, quando o cientista japonês Shinya Yamanaka conseguiu produzir células-tronco embrionárias, com células de indivíduos adultos, inspirando-se na técnica usada na Dolly, mas sem a necessidade de clonagem ou de uso de um óvulo. “Uma vez geradas em laboratório, as células iPS podem ser diferenciadas em qualquer célula do corpo e, portanto, são uma revolução na possibilidade de terapia celular e de órgãos”, explica o professor. Moysés Miranda destaca também que essa nova tecnologia se mostrou tão relevante para a ciência que recebeu um Prêmio Nobel de Medicina em 2012, tendo como co-laureado o professor inglês John Gordon, pioneiro na clonagem de anfíbios.
Não há diferença entre a expectativa de vida de clones e não clonados
Uma das maiores dúvidas que cercaram o nascimento da ovelha dizia respeito ao tempo de vida e à saúde de animais clonados: o clone nasceria com a idade do espécime original? O especialista explica que essa preocupação foi superada por estudos posteriores. "Essa reprogramação celular inclui a reprogramação da idade também, que é medida basicamente pelo comprimento de uma estrutura chamada telômero. A expectativa de vida dos animais clonados é igual à dos animais não clonados. Essa preocupação não existe mais dentro do mundo da clonagem”, explica Moysés dos Santos Miranda.
Esse amadurecimento da técnica, segundo o professor, é reflexo direto de três décadas de aperfeiçoamento científico. "O que mudou foi que agora ajudamos, entre aspas, o óvulo a reprogramar a célula somática. Graças ao conhecimento acumulado ao longo desse tempo, tentamos utilizar alguns protocolos em laboratório para aumentar a eficiência da técnica", diz Miranda. Mas o pesquisador não diminui a complexidade do feito: "gerar um novo mamífero a partir de uma única célula somática é um processo muito complexo e que ainda tem limitações de eficácia, mas ainda é bastante utilizado no mundo todo".
Curiosamente, a Dolly não foi o primeiro organismo clonado usando uma célula adulta — um sapo já havia sido clonado em 1962, por um cientista inglês. Mas foi o primeiro mamífero, o que garantiu à ovelha escocesa uma notoriedade sem precedentes e um impacto científico muito mais amplo. Para Moysés, é justamente esse alcance que define o principal legado de Dolly, 30 anos depois. "Ela estimulou uma avalanche de pesquisas nessa área e, graças a isso, avançamos muito, principalmente na ciência da desdiferenciação e rediferenciação celular, que, na nossa área, chamamos de reprogramação epigenética", explica o professor.
Vale ressaltar que, apesar dos avanços na tecnologia de clonagem animal, a clonagem de seres humanos é proibida, no entanto os estudos seguem em curso, apontando para um futuro em que órgãos e tecidos poderão ser produzidos em laboratório de forma individualizada, com células do próprio paciente, principalmente, por meio da técnica de iPS. “O maior legado da Dolly é que, em breve, vamos conseguir fazer terapia celular, órgãos em laboratório, e isso tem um potencial enorme para acabar com a fila de transplante e ajudar a salvar vidas", conclui o professor.
Clonagem na UFPA
O professor destaca que, acompanhando os avanços tecnológicos desta área, a UFPA continua fazendo pesquisas na área. Inspirado no nascimento da Dolly e trabalhando com modelos de animais, em parceria com a iniciativa privada, o grupo de pesquisa do professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) Otávio Ohashi (in memoriam) estabeleceu uma linha de pesquisa em clonagem e reprogramação na Universidade e produziu diversos clones bovinos entre os anos de 2004 e 2014.
O professor Moysés, que coordena o Laboratório de Embriologia Animal, no Instituto de Medicina Veterinária (IMV) da UFPA, em Castanhal, destaca que, além da clonagem em si, a UFPA tem buscado acompanhar os avanços científicos da área como um todo. “Hoje estamos dando continuidade ao legado científico do professor Ohashi e, em parceria com a USP, já estamos estabelecendo a técnica de iPS em búfalos”. Segundo Moysés Miranda, em animais de produção, a reprogramação celular por células iPS possui um grande apelo por ter o potencial de acelerar e aumentar a multiplicação desses animais. “Em um futuro próximo, poderemos produzir, em larga escala, gametas em laboratório”, aposta o professor.
Edição Rosyane Rodrigues | Ilustração: Magnific.com
Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro
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