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Entrevista: Valeska Zanello

Publicado: Terça, 22 de Setembro de 2026, 18h27 | Última atualização em Terça, 22 de Setembro de 2026, 18h35 | Acessos: 227

Combater a violência contra a mulher deve ser luta coletiva

imagem sem descrição.

Por Jéssica Souza

Imagine uma prateleira em que as mulheres são dispostas como produtos à espera de serem escolhidas. Nos lugares mais visíveis dessa prateleira, destacam-se os corpos que cumprem os ideais geralmente impostos pelo racismo, machismo e etarismo, ou seja, mulheres jovens, brancas, loiras e magras. Na metáfora da “prateleira do amor”, criada pela psicóloga e pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) Valeska Zanello, os homens exercem o papel de avaliadores e “compradores” desses produtos. Nesse mercado, mulheres mais velhas, negras, gordas ou com deficiência são empurradas para as camadas inferiores ou para o fundo da prateleira, sendo fetichizadas, preteridas ou vistas como opções descartáveis.

A teoria explica como a sociedade organiza as relações afetivas e sexuais entre homens e mulheres. Ao longo dessa forma de socialização, mulheres aprendem que o sucesso de suas identidades depende da validação do olhar masculino. Os homens, por sua vez, acham que devem ser priorizados e amados independentemente da aparência ou de sua performance social.

Com essa lógica perversa, proliferam e perduram as relações abusivas. O país mantém uma média de quatro mulheres mortas, por dia, por motivação de gênero. As mulheres também são as que mais sofrem abalos de saúde mental, além do cenário de violência, pela sobrecarga materna e da tarefa não remunerada do cuidado.

Em visita a Belém para participar do IV Fórum Nacional das Defensorias Públicas e lançar suas obras no estande da Editora da UFPA, na 29ª Feira Pan-Amazônica do Livro e das Multivozes, Zanello concedeu entrevista ao Jornal Beira do Rio. Na oportunidade, a autora promove letramento de gênero, lembrando que o tema da violência contra mulheres toca a saúde pública e diz respeito à coletividade. Conhecer e mudar essa história é necessário e urgente.

Contexto atual

O feminicídio é a pontinha do iceberg. Para chegar ao feminicídio, muita violência já é naturalizada. O Brasil é um país que tem uma história atravessada por violências. A gente precisa falar sobre isso. Eu acho que tem um movimento, uma espécie de primavera feminista. E a gente está conseguindo visibilizar e nomear, mas a gente ainda tem muito trabalho pela frente. Fizemos vários avanços. A própria Lei Maria da Penha, uma das leis, talvez a mais moderna, que a gente tem para proteger as mulheres, mostra isso. Só que, para mudar a cultura, leva um tempo. A gente vive numa sociedade liberal em que as pessoas esperam tudo a curto prazo. E aí, o que os estudos, por exemplo, transculturais, da própria psicologia cultural, apontam é que, para mudar a configuração de uma emoção, a gente precisa de até três gerações. Mas isso aponta também para o compromisso ético que a gente precisa ter para fazer o nosso papel histórico. A gente só pode votar, ter CPF, se divorciar, porque mulheres que nos antecederam dedicaram suas vidas para essa mudança, sabendo que nunca usufruiriam da pauta pela qual elas lutaram. Então, eu, provavelmente, não vou ver o mundo que eu queria antes de morrer, mas eu espero deixar o mundo melhor para as meninas que estão vindo e para os meninos também.

 Sociedade brasileira

A gente tem muitos Brasis, muitas realidades de territórios e culturas locais muito específicas. Mas, de modo geral, o Brasil é profundamente sexista. E onde a gente vê isso? No sintoma desse sexismo. O Brasil está entre os dez países mais violentos em muitas categorias contra as mulheres: feminicídio, violência doméstica, estupro, abuso sexual, casamento infantil... A gente precisa falar sobre isso. Precisamos também pensar que o problema da violência contra a mulher não é somente um problema do governo e do sistema jurídico/judicial, é um problema de toda a sociedade civil. Então, a gente precisa implicar os profissionais de saúde, pois é, na saúde, onde mais chegam os casos de violência, porém muitos profissionais não fazem notificações, porque não entendem a importância da construção de uma boa base de dados epidemiológicos para a construção de políticas públicas. Temos que investir também na formação de professores no letramento de gênero, porque muitos têm boa vontade, mas não tiveram essa formação nos estudos universitários... A gente precisa se reinventar, sem tantos gastos públicos, para fazer um trabalho, cada vez melhor, em prol das mulheres.

Saúde mental

Temos uma profusão de estudos científicos que mostram que a violência de gênero contra as mulheres, ou seja, a violência cometida por homens contra as mulheres tem um impacto grande na saúde mental feminina. Então, existe uma correlação muito grande entre a violência sofrida nesse sentido e alguns transtornos mentais, como depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós-traumático, ideação suicida, transtorno do sono... E o que as pesquisas mostram é que os sintomas persistem mesmo quando a violência cessa, inclusive assédio sexual na universidade, que é uma coisa que eu pesquisei e sobre a qual precisamos falar, e que é o mais comum, que barra/expulsa, do ambiente acadêmico, mulheres com grande potencial de contribuição para a ciência. E aí é importante dizer que há uma hiper-psiquiatrização dos sintomas relacionados à violência. Em vez de essa mulher ser encaminhada para a rede de proteção, ela, geralmente, é medicalizada. Então ela é revitimizada e silenciada.

Papel do Estado

O Estado tem papel fundamental. Como a violência contra as mulheres é uma questão estrutural, a resposta não pode ser individual, tem que ser coletiva. Então políticas públicas são fundamentais, mas precisam ser baseadas em pesquisas. Não basta ter boa intenção. A gente precisa de dados fidedignos para que, realmente, essa política pública chegue e seja eficaz. Precisamos, cada vez mais, ir sofisticando essas leis e suas aplicações, como tem, agora, a ampliação da Lei Maria da Penha, a discussão da criminalização da misoginia, que foi um projeto de lei composto por mim... Em 2023, isso me incomodava muito: que o racismo, a homofobia e a transfobia fossem criminalizados; e a misoginia não. Eu propus esse projeto de lei por meio do Programa E-Cidadania do Senado. As mulheres se mobilizaram. Reunimos mais de 23 mil assinaturas em uma semana. O projeto foi aceito pelo Senado e, depois, as senadoras e deputadas se engajaram, mas, na época em que eu procurei apoio, ninguém quis. Isto é muito importante: a proposta que eu fiz foi toda pautada em tudo isso que eu discuto nos meus livros sobre o sexismo, sobre como o sexo importa, não em si mesmo, mas porque nos coloca em lugares sociais distintos, em sociedades sexistas. E a história da misoginia no Ocidente tem a ver com isso. O conceito de gênero sofreu transformações de sentido, ao longo do século XX, e responde, em seus sentidos diferentes, a necessidades específicas de grupos diferentes. Temos que ter conceitos claros e definidos, para que a lei venha cobrir as demandas pelas quais ela pretende ser criada.

Raça e etnia

A questão da raça, principalmente o racismo, também é algo estrutural. Eu uso a ideia de estrutural como uma hierarquia necessária para a manutenção do sistema. Então, no patriarcado capitalista, sexismo e racismo são estruturais, porque, se as pessoas negras deixarem de fazer os trabalhos do subemprego, o sistema quebra. Ou seja, sobretudo o trabalho que os brancos não querem fazer. E se mulheres pararem de cuidar, que é um trabalho não pago, o sistema quebra. Então, a questão estrutural tem a ver com opressão. O que é diferente de discriminação, também sofrida por estes e outros grupos. No caso do racismo, podemos avaliá-lo como estrutural com base em muitos dados. Aí precisamos de políticas reparatórias e, também, de transformação cultural. No caso das etnias, ainda temos muito a avançar na produção de conhecimento para poder pensar em políticas de intervenção. Vou dar um exemplo: a gente fala muito de violência contra as mulheres, mas um dos grupos menos estudados, nesse sentido, são as mulheres indígenas. Eu orientei uma tese de doutorado, da Jaqueline Calafate, que é um expoente, uma pessoa que sabe muito e estuda isso há mais de 20 anos. A gente fez um levantamento. Só para você ter uma ideia, no Brasil, a gente tem dois bancos de dados (sistemas), que é o Sinan e o Siasi, e eles não conversam entre si. Então temos uma grande subnotificação de violência contra mulheres aldeadas. Quando fizemos entrevistas com os profissionais que vão às aldeias trabalhar na área da saúde, a maioria não faz essa notificação: somente de casos de suicídio e alcoolismo. Então, de novo, a gente precisa pensar nessas especificidades. É supernaturalizada a violência contra mulheres indígenas, porque a política não tem chegado lá, sobretudo quanto mais aldeada e mais distante for essa comunidade. E aí, eu queria destacar que a ciência é fundamental. Não basta ter boa vontade para fazer uma boa política, a gente precisa de pesquisa e, nisso, a Universidade tem um papel essencial.

Obras

O livro Prateleiras do Amor é uma edição de bolso, superacessível, baseado no livro inicial Saúde mental, gêneros e dispositivos, com a ideia de furar a bolha e levar conhecimento científico para promover letramento de gênero para a população em geral. Não adianta só produzir um conhecimento que fique numa bolha universitária. Temos que utilizar esse conhecimento para promover mudanças sociais, e esse é um dos intuitos também do meu grupo de pesquisa.

O livro Scripts culturais, gêneros e emoções reflete o estudo que venho fazendo há oito anos sobre a relação entre emoção e gênero, no sentido de que as emoções não são universais, mas são atravessadas por aprendizagens culturais. Então, uma das coisas que mais vulnerabilizam as mulheres a relações abusivas e violentas e que explicam, muitas vezes, a dificuldade de sair de uma relação assim é a forma como a gente aprende a amar, além de várias outras emoções, como o ciúme, o pudor, a vergonha. Aí, eu percebi que, para falar sobre como o gênero atravessa as emoções, eu ia precisar deixar claro o significado com o qual trabalho no meu livro. O meu estudo é ligado à socialização primária. Então, aborda o quanto, em sociedades sexistas, nascer num sexo X ou Y nos coloca em lugares sociais diferentes. Por exemplo, quando, em uma família com meninas adolescentes, há um irmão, ele pode fazer coisas que, para as meninas, não são permitidas, como dirigir mais cedo, receber namoradas em casa e voltar tarde para casa após uma festa. Assim, o tempo inteiro, as mulheres são relembradas de que não ocupam os mesmos espaços, e isso produz efeitos reais, nos comportamentos, emoções etc. Este livro, então, é o primeiro volume e tem como subtítulo “Problematizando gênero”. Para o segundo volume, estou preparando uma discussão sobre gênero e emoções, com foco na importância da cultura na conformação das emoções e como o gênero as atravessa. A depender do tamanho da produção, pode vir até um terceiro volume sobre a interseccionalidade dos dispositivos de gênero com a orientação sexual e a identidade de gênero.

Perspectivas

Para mudar essa realidade, a educação é fundamental. É a chance que o governo tem de fazer a diferença, já que a educação é obrigatória. Inclusive, podendo romper ciclos de repetição transgeracional. Então, há meninas que são filhas de mães que apanharam, de avós que também sofreram violência…  e que crescem achando que é normal os homens cometerem violência e que esse é o seu destino pelo fato de ser mulher. Se a escola problematizar isso e promover letramento de gênero, pode ser exatamente o momento em que esse ciclo repetitivo será quebrado. Esse letramento deve começar desde que se é introduzido no processo educacional, quando se iniciam as brincadeiras que estimulam o sexismo, em âmbito tanto familiar quanto social. Não é só o que é dito, mas também como é dito que vai fazer a diferença: os exemplos que são dados, a naturalização de comportamentos sexistas na infância, na escola, nas igrejas. Isso tem que ser problematizado e, quanto mais cedo, melhor. A educação é importante, mas não basta. Eu vejo hoje um discurso antipunitivista que talvez desse certo em outro momento do país ou em outra cultura. A punição também é importante. Por exemplo, há muitos homens que descumprem as medidas protetivas. Aí deveria haver uma punição mais séria, porque, se ele não é preso, quem fica presa em casa é essa mulher, que teme pela própria vida. Lutemos contra isso!

Edição Rosyane Rodrigues | Fotos: Alexandre de Moraes

Beira do Rio edição 178 – Julho a Setembro

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