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Pelo direito de serem ouvidas

Publicado: Quinta, 30 de Janeiro de 2020, 18h54 | Última atualização em Quinta, 30 de Janeiro de 2020, 20h36 | Acessos: 1766

Dissertação discute luta feminina por espaço nas arenas políticas

imagem sem descrição.

Por Gabriel Mansur Ilustração Walter Pinto

Historicamente, as mulheres têm sido excluídas das discussões na sociedade. Desde a Antiguidade, elas são silenciadas. Na Grécia Antiga, não eram consideradas cidadãs, por isso não faziam parte das discussões da polis, por exemplo. Quando lutavam contra o silenciamento, eram vistas como aberrações. Na Idade Média, as mulheres que tinham um modo de vida diferente do que lhes era imposto eram consideradas bruxas, perseguidas e, diversas vezes, assassinadas.

Desde o final do século 19, entretanto, as mulheres têm conseguido avanços cada vez maiores em relação a sua representação na politica e, como consequência, conquistado mais direitos. Na política formal, com a primeira onda feminista, adquiriram o direito ao voto e o direito de serem votadas. Em 1997, foi criada a cota eleitoral estipulando que 30% dos candidatos de qualquer partido político fossem do sexo feminino. Em 2010, Dilma Rousseff foi eleita a primeira presidente do Brasil.

Entretanto, apesar dos avanços, a representação feminina na política ainda é baixa. Em âmbito regional, nas eleições de 2016, foram eleitas apenas 13% como vereadoras, e são 12% do total de prefeitos. Como jornalista, por diversas vezes, a pesquisadora Nathália Lima Kahwage se deparou com reportagens a respeito da sub-representação feminina na política. Procurando entender o motivo para esse desequilíbrio, Nathália Kahwage apresentou a dissertação Representação Política, Gênero e Relações de Poder: análise de aspectos discursivos da atuação das vereadoras de Belém e de Manaus no Facebook.

Orientada pela professora Danila Gentil Rodriguez Cal Lage, a dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação Comunicação, Política e Amazônia (PPGCOM/ILC). O estudo busca investigar como as relações de poder influenciam os discursos das vereadoras de Belém e de Manaus, com base nos vídeos postados nos seus perfis e na fanpages no Facebook, um ambiente em que elas dominam o próprio discurso, ressignificando, recorrendo ou negando estereótipos.

As consequências da sub-representação feminina 

A jornalista chama atenção para três fatores que levam à sub-representação. A associação da mulher à vida doméstica, o que diminui a sua rede de contatos; a dupla jornada de trabalho feminina, o que diminui o seu tempo livre para outras atividades; e o padrão social imposto às mulheres, que não têm sua imagem associada à política, papel historicamente masculino. Além disso, as mulheres que chegam aos cargos eletivos sofrem com a exclusão da sua atuação para manutenção dos privilégios masculinos no campo.

As mulheres, então, buscam “outros tipos de política, que estão relacionados com a organização, a atividade e o engajamento, entre os quais se destacam os movimentos feministas e os grupos de mulheres. A política que exercemos no dia a dia para conquistar mais direitos”, pontua Nathália Kahwage. Apesar disso, a pesquisadora chama atenção para o fato de que, mesmo imprescindível para a democracia, limitar-se a fazer política fora das instituições não é suficiente.

Nathália encontrou, na figura das vereadoras Marinor Brito (PSOL), Simone Kahwage (PRB) e Blenda Quaresma (MDB), em Belém; e na figura de Glória Carratte (PRP), Joana D’arc (PR), Professora Jacqueline (PHS) e Professora Therezinha (Democratas), em Manaus, seu objeto de pesquisa para entender como as relações de poder e a utilização dos estereótipos pelas próprias representantes influenciam na comunicação fora dos muros institucionais. A pesquisa analisou 210 vídeos no período de agosto de 2015 até 8 de março de 2018, data em que se comemora o Dia Internacional da Mulher.

A jornalista buscou alguns conceitos para fundamentar sua pesquisa, como o de power over, power to e power with, e a associação de estereótipos de mãe, guerreira ou profissional. Power over são as relações de dominação; power to, as relações de empoderamento e∕ou resistência; e power with, de solidariedade. A figura de “mãe” está relacionada ao estereótipo de mulher carinhosa, atenciosa e sensível. A “profissional” é incansável, trabalhadora e multitarefa, e, por fim, a “guerreira” é a que toma iniciativa, rompe convenções sociais e, por conseguinte, se aproxima do “modelo masculino”.

Resistência e empoderamento no Facebook 

Nathália Kahwage percebeu que as vereadoras de Manaus são mais engajadas nas suas páginas do que as de Belém. Entre elas, a vereadora Joana D’arc se destaca. Joana, por ser ativista da causa animal, usou o Facebook como uma plataforma para fazer sua campanha e, depois de eleita, não deixou de utilizá-lo.

Além disso, a pesquisa mostrou que as vereadoras de Manaus produzem mais conteúdo, com maior quantidade de tempo de vídeo. A jornalista salienta a necessidade de estabelecer continuidade e periodicidade nos vídeos para manter as pessoas engajadas e estabelecer um relacionamento. “Elas poderiam ter feito mais, investido mais. Pensando no custo e na rapidez, poderiam tentar ampliar esse público que não tem acesso às sessões da Câmara Municipal, em Belém ou Manaus”, pontua.

A jornalista destaca que, “normalmente, toda situação de dominação gera uma reação de resistência. Isso foi algo que me surpreendeu. Achei que as situações de dominação estariam mais explícitas, mas não. O que eu mais vi ali foram reações de resistência e empoderamento, ou seja, em segundo plano, está a dominação. São elas reagindo, de alguma forma, se empoderando e rompendo com a ideia de passividade e submissão ligada aos estereótipos femininos”.

Por fim, a pesquisadora percebeu que as vereadoras apresentaram nos vídeos do Facebook aspectos discursivos que indicaram a predominância do estereótipo de mãe, sendo Marinor Brito a única que divergiu, usando o estereótipo de guerreira. “Ele [estereótipo de mãe] tem essa ‘pegada’ de dominação, está muito ligado ao papel clássico da mulher, o que é esperado da mulher na sociedade, sob o olhar masculino”.

Apesar de, à primeira vista, parecer opressora, essa tipologia apresentou muita mobilidade, com a análise dos resultados. “Dentro do trabalho, foi o que mais chamou atenção. Cada uma delas apresentou um padrão diferente para o mesmo estereótipo de mãe. A “mãe” da Joana D’arc cuida do meio ambiente, dos animais e da floresta. A Blenda Quaresma está relacionada ao assistencialismo e à promoção de ações sociais a famílias carentes. A Simone Kahwage, por exemplo, apresenta o sentido clássico de mãe, com viés afetivo, carinhoso e de proximidade. Por várias vezes, utiliza a palavra ‘cuidar’ nos vídeos”, ressalta Nathália.

Isso significa que, mesmo ligado ao padrão social estabelecido pela sociedade para as mulheres, as vereadoras ressignificaram esses estereótipos, em especial o de “mãe”, nos vídeos postados nas suas páginas e nos perfis no Facebook, redefinindo-os de acordo com o contexto e com as diferentes relações de poder, isto é, ainda que enfrentem diversas situações de dominação no dia a dia, elas não foram passivas e mostraram resistência. Assim, ainda que o campo político seja historicamente masculino, as parlamentares buscaram alternativas – nas mídias digitais, por exemplo - para superar os obstáculos institucionais que as silenciavam e marginalizavam-nas.

Câmaras municipais em números

Belém (3 mulheres e 32 homens)

Marinor Brito: 60 anos, professora. Eleita pela primeira vez em 1996, atualmente no 5º mandato. Saiu em 2018 para a ALEPA.
Simone Kahwage: 39 anos, administradora. Primeiro mandato (2017-20). Vice-presidente da CMB.
Blenda Quaresma: 33 anos, empresária e estudante de Direito. Primeiro mandato (2017-20)

Manaus ( 4 mulheres e 37 homens)

Gloria Carrette: 57 anos. Eleita pela primeira vez em 2000.
Professora Jacqueline: 55 anos, professora. Eleita pela primeira vez em 2012.
Joana D’arc: 30 anos. Bacharel em Direito. Eleita pela primeira vez em 2016. Atualmente, na ALEAM.
Professora Therezinha: 66 anos, professora. Eleita pela primeira vez em 2006. Atualmente, na ALEAM.

Ed.153 - Fevereiro e Março de 2020

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