Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Página inicial > 2020 > 154 - abril e maio > De onde vem o seu perfume?
Início do conteúdo da página

De onde vem o seu perfume?

Publicado: Segunda, 13 de Abril de 2020, 20h51 | Última atualização em Segunda, 27 de Abril de 2020, 21h36 | Acessos: 1415

A complexa relação entre ilhéus e empresas de biocosméticos

imagem sem descrição.

Por Gabriel Mansur Fotos Acervo da Pesquisa

O Mercado do Ver-o-Peso, em Belém (PA), é conhecido por sua variedade, principalmente pela oferta de produtos amazônicos, como peixes, frutas, medicamentos e artesanato. Outra característica marcante do mercado é a venda de banhos de cheiro e perfumes produzidos com ervas da região. Esses produtos são plantados, colhidos e tratados nas ilhas estuarinas – onde acontece o encontro das águas do rio e do mar, como a Ilha de Cotijuba, na Região Metropolitana de Belém. O uso das ervas para o comércio internacional remonta aos tempos da colonização portuguesa da cidade, que completou 404 anos em janeiro passado.

Orientado pela professora Leila Mourão, João Marcelo Barbosa Dergan, historiador e coordenador de Acervo e Pesquisa do Centro de Memória da Amazônia da UFPA, defendeu a tese Ilhas estuarinas amazônicas: histórias, memórias e apropriação de saberes sobre a flora (1990-2017), no Programa de Pós-Graduação em História (PPGHist/IFCH). João Marcelo procurou compreender a relação dos ilhéus (moradores das ilhas estuarinas) e da flora das ilhas, dando atenção especial ao cultivo das sementes e raízes aromáticas (Ucuuba, Pracaxi e Priprioca), com as empresas que fazem parte do ramo dos biocosméticos.

Além da sua área continental, o município de Belém é composto por 43 ilhas. No século XVIII, houve a concessão de sesmarias pela metrópole portuguesa para incentivar a produção agrícola na região. As autorizações eram para a plantação de insumos como arroz, cacau, entre outros. Em busca de informações e de fontes, João Marcelo Barbosa Dergan releu os documentos referentes às primeiras concessões e encontrou “cartas de doações e o tipo de plantio que a metrópole portuguesa e o governo brasileiro consideravam necessários para serem implementados nessas áreas”, conta.

Os moradores das áreas estuarinas eram obrigados a plantar o que mandavam os novos donos das terras, em troca, continuariam vivendo no local, por meio de arrendamentos. Mas, de maneira informal, os ilhéus cultivavam, para uso próprio, ervas e sementes que, muitas vezes, se diferenciavam do estabelecido pelas normas oficiais.

Diversidade de aromas sempre surpreendeu pesquisadores 

Durante o século XIX, houve um crescente interesse pelo uso de produtos como perfumes e outros cosméticos, além da busca pela categorização da natureza. Com isso, muitos pesquisadores europeus que passaram pelas ilhas estuarinas se deslumbraram com a diversidade de verde e seus cheiros. As sementes e as raízes já eram utilizadas para a fabricação de sabão; e as frutas, para a fabricação de licores. Com o conhecimento dos ilhéus, os pesquisadores puderam categorizar melhor a flora.

Em sua pesquisa, o historiador João Marcelo Dergan entrevistou diversos moradores de Cotijuba, pois um dos elementos que compõem a sua tese é a história oral, em cruzamento com a história social do trabalho e a história ambiental.

“Para entender o que estava acontecendo no presente, precisei voltar no tempo do passado. O que me norteou foram as memórias significativas dos ilhéus com a cidade, com as ilhas e com o trabalho com as sementes e raízes aromáticas”, explica o pesquisador.
Seu Leandro é um dos entrevistados citados na tese e conta que seu pai vendia sementes e raízes no mercado de Icoaraci, quando o distrito ainda se chamava Vila Pinheiro. No mesmo local, funcionava a fábrica Conceição, que exportava as sementes da ilha para a Itália.

Entrevistada por João Marcelo Dergan, Dona Flávia conta que a coleta e o cuidado com as sementes e raízes foram aprendidos com a sua mãe, Dona Antônia. Portanto se percebe que a relação dos ilhéus com a terra é um conhecimento repassado de pais para filhos. Hoje, essa relação se refaz com as empresas do ramo de biocosméticos.

Com o passar dos anos, os moradores das ilhas estuarinas começaram a fazer algumas reivindicações relacionadas à saúde, à educação, ao direito à terra, entre outras. Com o objetivo de organizar essas reivindicações, foram criadas diversas associações e centros comunitários. Os Centros Comunitários do Combu, do Furo São Benedito e do Movimento de Mulheres das Ilhas de Belém são exemplos dessas associações e têm como objetivo promover o desenvolvimento sustentável e econômico da região, além de mobilizar a comunidade para cursos, oficinas e outras atividades.

Associações intermedeiam as negociações com o mercado

Em 1999, a Brasmazon, empresa incubada pela UFPA, entrou em contato com várias associações e centros comunitários para estudar a viabilidade do plantio e da coleta de espécies vegetais. Em 2002, a empresa Natura entrou em contato novamente, por meio da empresa Beraca, que havia comprado a Brasmazon. A partir daí, houve diversos debates sobre a possibilidade de plantio e de coleta de sementes e raízes nas ilhas para a venda.

Boa parte dos ilhéus trabalha para as associações, que têm contratos com essas empresas, como Dona Deca, que cultiva priprioca e chega a coletar 1.300 quilos por ano. As associações intermedeiam a relação entre a empresa e os moradores, recebem e repassam os produtos para as empresas e ficam com 10% do valor negociado, que é investido em serviços, oficinas e cursos para a comunidade.

Além do necessário para atender ao contrato com as empresas, os ilhéus mantêm plantações de hortaliças, frutas e de outras sementes e raízes que utilizam para fazer biojoias e, assim, complementam a renda com a venda direta nos mercados de Belém.

Empresas que mantêm relações sustentáveis com o ambiente ou com as comunidades tradicionais ganham um valor no mercado. “Mas até que ponto há equidade e distribuição de recursos e de ganhos? Até que ponto isso chega ao fornecedor da matéria-prima (sementes e raízes), quando não há descentralização da tecnologia para a produção de bioprodutos?”, questiona João Marcelo Dergan.

Uma nova relação entre ilhéus e empresa foi estabelecida, gerando ressignificações e contradições na relação entre os moradores e a flora estuarina. O tempo de coleta para o mercado é diferente do tempo de coleta e tratamento para o uso próprio. O conhecimento empírico dos moradores das ilhas é importante para o uso mais sustentável da flora, e a tecnologia das empresas contribui para o aperfeiçoamento das atividades de coleta.

Saiba mais

Cumaru: Matéria-prima utilizada na confecção de aromas naturais, tanto para gêneros alimentícios quanto para cosméticos de perfumaria. As sementes caem no chão e podem ser encontradas ao redor das árvores, lugar em que são coletadas. O óleo de cumaru é um cosmético natural, usado, principalmente, para a saúde e para a beleza dos cabelos.

Priprioca: Utilizada tradicionalmente nos banhos de cheiro. Suas raízes liberam uma fragrância extremamente agradável de aroma amadeirado. A priprioca é colhida, lavada e ensacada para posterior transformação em óleo essencial.

Pracaxi: Suas sementes são catadas nas margens de rio e em áreas de várzea, depois secam ao sol. O óleo de pracaxi é bastante utilizado no tratamento capilar e como revitalizante para a pele.

Ucuuba: As sementes têm uma poderosa manteiga natural, que atua na reparação profunda da pele. Predomina em locais alagados, como as margens dos rios, igarapés e furos.

Ed.154 - Abril e Maio de 2020

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

registrado em: ,
Fim do conteúdo da página