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Os riscos do “limo do Tapajós”

Publicado: Quinta, 11 de Março de 2021, 21h39 | Última atualização em Terça, 20 de Abril de 2021, 11h01 | Acessos: 1642

Cianotoxinas intoxicam organismos aquáticos, animais e humanos

imagem sem descrição.

Por Matheus Luz Fotos Acervo da Pesquisa

O Tapajós é um dos maiores rios da Amazônia, que guarda alguns dos destinos turísticos muito populares na Região Norte do Brasil, como a famosa praia de Alter do Chão e seus arredores, com paisagens exuberantes e águas refrescantes. Você sabia que, apesar dessa beleza aparente, nem sempre as praias estão qualificadas para o banho? Mais do que isso, o contato com a água no cotidiano da população local deve ser evitado durante o período chamado “florações”.

Na região entre os municípios de Aveiro e Santarém, no Pará, o rio Tapajós se assemelha a um lago, o que favorece o processo de eutrofização, que resulta no crescimento excessivo de algas e plantas aquáticas. Conhecidas popularmente como “limo do Tapajós”, as florações ou blooms caracterizam o surgimento das cianobactérias, microrganismos importantes para os ecossistemas e para a vida na Terra por constituírem a base de cadeias alimentares, além de serem os maiores produtores de oxigênio atmosférico. No entanto, em determinadas situações, essas cianobactérias produzem cianotoxinas, substâncias que provocam intoxicação e morte de organismos aquáticos, animais e seres humanos. Nem mesmo os métodos convencionais de tratamento de água, como ferver, filtrar ou adicionar cloro, podem descontaminar a água das cianotoxinas.

Pensando nisso, o pesquisador James Leão de Araújo desenvolveu um documentário com fins didáticos para informar e conscientizar a população sobre os diversos efeitos das florações de cianobactérias nas praias do rio Tapajós. O produto audiovisual foi resultado da sua dissertação intitulada Monitoramento por sensoriamento remoto da concentração de clorofila-a e das florações de cianobactérias no Baixo Tapajós: audiovisual praias do Tapajós para gerações presentes e futuras. A pesquisa foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Rede Nacional para o Ensino das Ciências Ambientais (Profciamb), do Instituto de Geociências (IG/UFPA), sob a orientação da professora Maria Paula Cruz Schneider e coorientação da professora Maria Ataide Malcher.

Coleta de dados cobriu área de mais de 2 mil km²

O trabalho teve como objetivo levantar dados sobre a distribuição, a ocorrência e os riscos ocasionados pela presença de cianobactérias no rio Tapajós desde o município de Aveiro (PA) até Santarém (PA), uma área de aproximadamente 2.460 km², a qual envolve unidades de conservação, populações ribeirinhas e destinos turísticos. Foram coletados dados em quatro pontos da margem direita do rio Tapajós: a Ponta do Tauá, localizada na Praia do Cururu; a Praia do Pajuçara; a Praia do Maracanã e o Lago do Mapiri. A escolha dos três primeiros pontos de coleta se deve à ocorrência da floração das cianobactérias, bem como à alta frequência de banhistas.

A metodologia utilizada na pesquisa compreendeu a realização de levantamento por sensoriamento remoto, por meio de imagens de satélite com obtenção das áreas de abrangência das florações, ou seja, as áreas de explosão populacional de cianobactérias ou plâncton, monitorando a concentração de clorofila-a. Com os dados obtidos, foram gerados mapas utilizados como índice para as coletas de campo que viriam a validar os dados obtidos remotamente. As amostras foram pré-processadas na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em Santarém, e então analisadas no Laboratório de Genômica Funcional e Biotecnologia da UFPA. O material utilizado na elaboração do documentário foi produzido durante o processo da coleta de campo, em situações e locações específicas que atendiam às demandas previstas no roteiro do produto audiovisual.

Os dados de sensoriamento remoto foram obtidos no CyanoLakes de forma gratuita, em virtude da parceria com o Laboratório Genômica (UFPA), por intermédio do fundador da plataforma, o doutor Mark Matthews. Parte dos recursos para locações, deslocamentos e coletas de campo foi financiada pelo Profciamb, com recursos da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes) e da Agência Nacional de Águas (ANA).

Balneabilidade: laudo garante segurança à população

A balneabilidade é um dos conceitos trabalhados na pesquisa de James Araújo e refere-se à qualidade da água, que oferece segurança para banho, recreação e esportes aquáticos em corpos hídricos, como mares e rios. No Brasil, os parâmetros de balneabilidade são estabelecidos pela Resolução 274/2000 do Conselho Nacional do Meio Ambiente. Laudos devem ser apresentados para a população informando se a qualidade da água está excelente, muito boa, satisfatória ou imprópria para banho. Neste último caso, o local deve ser interditado.

Além dos efeitos das ações humanas, como a própria ocupação da terra e também atividades turísticas, a verificação da balneabilidade também é importante no que diz respeito ao monitoramento das florações de cianobactérias. O pesquisador James Araújo explica que as cianotoxinas produzidas são um recurso de defesa contra a predação, mas, ao serem dissolvidas na água, trazem malefícios aos seres humanos e aos animais.
“Nos últimos dez anos, tem-se observado, em todo o mundo, o aumento das florações das cianobactérias. As principais causas são o aquecimento global, a maior disponibilidade de nutrientes em esgotos, a lixiviação de nutrientes da agricultura, a retirada da cobertura natural, o manejo inadequado do solo e o transporte de cianobactérias em água de lastro de navios”, explica o pesquisador.

Segundo o autor, para reconhecer a presença das cianobactérias na água, é necessário observar elementos como a coloração esverdeada e o odor desagradável. O pesquisador ressalta que os maiores riscos estão relacionados à ingestão e que, apesar de alguns trabalhos demonstrarem riscos para a pele e as mucosas, ainda são necessárias análises aprofundadas para comprovar a absorção por essas vias.

Em seu trabalho analítico, James Araújo explica que os dados obtidos, embora sejam parciais, demonstram a ocorrência sazonal das explosões populacionais das cianobactérias. “Elas ocorrem em pontos específicos, nos quais não há grandes aglomerados humanos ou esgotos, sendo aparentemente condicionadas por fatores pluviométricos e pelo nível do rio que tem enchente, cheia, vazante e seca, mas somente fatores climáticos não explicam por completo o fenômeno”, argumenta.

Documentário revela resultados de maneira acessível 

Em sua pesquisa, James Araújo discute que o monitoramento por sensoriamento remoto de florações planctônicas e de cianobactérias é um recurso não muito explorado no Brasil. A população em geral não conhece os índices ambientais. Por essa razão, o pesquisador utilizou estratégias que pudessem apresentar, de maneira acessível, as informações técnicas e científicas sobre meio ambiente, saúde e sustentabilidade.

A produção audiovisual intitulada Praias do Tapajós para gerações presentes e futuras foi apresentada para estudantes nos municípios de Santarém e Belém, no Pará. O pesquisador observou que os alunos de Santarém, apesar de estarem familiarizados com o problema do “limo”, surpreenderam-se ao saber das dimensões e consequências resultantes da concentração de cianobactérias, como o fato das águas transparentes do rio Tapajós ficarem impróprias para o consumo. Já os alunos de Belém questionaram a ausência de monitoramento da balneabilidade das praias da capital, além de perceberem os graves problemas ambientais do estado.

“O documentário é importante por levar os dados obtidos para alunos da Educação Básica e para o público em geral, tornando a informação científica mais palatável, pois, na maioria dos casos, as informações e os dados de pesquisa não alcançam a todos”, conclui James Araújo.

Para assistir ao documentário Praias do Tapajós para gerações presentes e futuras, acesse o link: https://www.oercommons.org/courses/praias-do-rio-tapaj%C3%B3s-para-gera%C3%A7%C3%B5es-presentes-e-futuras-tapaj%C3%B3s-river-beaches-for-present-and-future-generations

Beira do Rio edição 158

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