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Microplásticos encontrados em Salinas

Publicado: Terça, 15 de Outubro de 2019, 14h40 | Última atualização em Terça, 15 de Outubro de 2019, 16h34 | Acessos: 269

A quantidade de plástico é baixa, mas está distribuída em toda a praia 

imagem sem descrição.

Por Aila Beatriz Inete Foto Alexandre de Moraes

Os microplásticos são partículas minúsculas, algumas imperceptíveis a olho nu. Essas partículas foram encontradas no meio ambiente pela primeira vez na década de 1970 e tornaram-se objeto de preocupação e estudo. Desde então, os microplásticos estão cada vez mais presentes nos ambientes aquáticos, causando muitos problemas nos ecossistemas. Em 2014, o professor da Faculdade de Oceanografia (IG/UFPA) José Eduardo Martinelli Filho publicou o artigo A distribuição generalizada de microplástico em uma praia arenosa de macromarés na Amazônia (Widespread microplastics distribution at an Amazon macrotidal sandy beach).

Segundo o artigo, pesquisas bibliográficas revelam que o rio Amazonas pode transportar 32.200 toneladas, por ano, de resíduos de plástico, tornando-o o 7º maior rio poluidor do mundo. Apesar disso, a poluição por plástico é pouco conhecida na Amazônia. “Na década de 1990, começou a emergir essa preocupação com o microplástico, mas, aqui, na Amazônia, só na década atual se iniciaram os trabalhos científicos sobre o assunto. Eu me interessei pelo assunto em 2013 e iniciei essa pesquisa na praia da Corvina, em Salinópolis, em 2014”, conta o professor. A praia da Corvina foi escolhida, pois o turismo e as atividades pesqueiras podem ser importantes disseminadores de plásticos para o mar.

O objetivo principal da pesquisa era estabelecer uma linha de base, conhecer o nível de contaminação ambiental por microplásticos em uma praia na Amazônia. Segundo o professor, o material tem sido encontrado em lagos, em geleiras, em mares profundos de diversos países, então, obviamente, ele se encontra na Amazônia.

Em abril de 2014, foram determinados quatro quadrantes ao longo da praia e, dentro desses quadrantes, aleatoriamente, foram cavadas trincheiras. Depois disso, amostras de areia foram coletadas em diversos pontos e em diferentes profundidades (da superfície até 60 cm). Os microplásticos foram separados dos sedimentos e, depois, encaminhamos para análise.

Fios de nylon, isopor e fibras de roupas entre os achados

“Os principais resultados foram levemente positivos. As quantidades encontradas são relativamente baixas, se compararmos com outras regiões contaminadas no Brasil, como a Baixada Santista (SP) e a região do Paranaguá (PR), que estão entre os maiores portos da América do Sul, em termos de volume de carga”, revela o professor José Eduardo Martinelli Filho. Foi encontrado um total de 5.819 partículas, quantidade inferior à de outros locais. No entanto, em todas as amostras analisadas, independentemente da profunidade ou do ponto de coleta, os microplásticos estavam presentes.

“A notícia ruim é que ele está amplamente distribuído ao longo da praia, ou seja, toda a praia, de certa forma, encontra-se contaminada, em algum nível, pelo microplástico”, avalia o professor. A hipótese dos pesquisadores é que o microplástico da região advém, principalmente, da pesca.

“Os artefatos de pesca são abandonados tanto na água quanto na praia. Nós encontramos uma quantidade significativa de fios de nylon, isopor e fibras de roupas. Estas se acumulam nas máquinas de lavar e são despejadas nos rios pelo esgoto doméstico”, conta o pesquisador.

A atividade turística também é uma fonte de material plástico para os rios e os mares. Segundo Martinelli, a população de Salinas fica seis vezes maior nos períodos de férias. “A população passa de 40 mil para 280 mil pessoas. Nesses picos de turismo, também aumenta o descarte de plásticos na região costeira”, explica.

Algumas pesquisas apontam a presença de microplásticos em peixes. “Alguns tipos de plásticos são tóxicos, enquanto outros podem absorver substâncias tóxicas. Os que apresentam toxidade, quando ingeridos, podem causar problemas de saúde aos animais que os ingerirem e a toda a cadeia trófica”, alerta Martinelli. Mesmo que o plástico não seja tóxico, o acúmulo pode causar a obstrução nos aparelhos digestório ou respiratório dos animais.

Plástico: solução é evitar descarte no meio ambiente 

“Uma vez que os ambientes estão contaminados, a remoção das partículas é muito difícil. Não direi que é impossível porque acabou de ser divulgado o trabalho de um jovem cientista que criou um método de remoção de microplásticos da água e foi premiado pelo Google. Mas, atualmente, não existe um método eficaz de remoção”, afirma o professor.

De acordo com José Martinelli Filho, as micropartículas se acumulam e depositam-se ao longo do tempo, na água, nas praias, nos manguezais e em outros lugares. Como o plástico demora milhares de anos para se degradar, o esperado é que a concentração aumente.

“O cenário atual não vai melhorar porque as partículas já estão lá, não tem como voltar atrás e, até o momento, não existe um método eficaz para a remoção. O que poderia ser feito é reduzir a quantidade que chega aos ambientes costeiros, e isso requer conscientização, educação ambiental, ações de governança pública e gestão, com os setores público e privado atuando de forma mais ativa”, afirma Martinelli.

Barreiras - Segundo o professor, podem ser instaladas barreiras nos rios para reter os plásticos de grande porte, além de ações de incentivo e divulgação da coleta seletiva. Para Martinelli, esse problema não é só local, também afeta outros países.

Atualmente, o professor está participando do Projeto de Pesquisa A distribuição de microplástisco em ambientes aquáticos amazônicos, e os resultados devem indicar a poluição em diferentes locais na Amazônia. “Estamos trabalhando em vários locais da Amazônia para obtenção desses dados: em ambientes de água doce, estuários e ambientes marinhos”, diz o pesquisador.

O professor ressalta que os estudos de microplástico no ambiente amazônico são de suma importância. “Esses trabalhos mostram que a Amazônia não é um ambiente limpo e preservado, mas altamente impactado. O cenário atualmente é desmotivador e alarmante. O crescimento do desmatamento, da pecuária e do cultivo da soja (de maneira extensiva e sem regulamentação devida) é preocupante. Conhecer o nível de poluição por microplásticos pode subsidiar a gestão e minimizar os impactos”, conclui o professor.

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