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Quem são essas mulheres?

Publicado: Terça, 15 de Outubro de 2019, 14h53 | Última atualização em Terça, 15 de Outubro de 2019, 16h49 | Acessos: 498

A relação entre grandes projetos e a exploração sexual na Amazônia

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Por Flávia Rocha Foto Acervo da Pesquisa 

“Pode-se dizer que uma parte da sociedade brasileira analisa a prostituição como uma escolha feita por homens e mulheres para ganhar ‘dinheiro fácil’. Será mesmo essa escolha o modo mais fácil de ganhar dinheiro?”, questiona o professor Augusto César Pinto Figueiredo, autor da dissertação As filhas do Belo Monte: prostituição e grandes projetos na Amazônia. A pesquisa foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes da Amazônia (PPLSA/Campus Bragança), com orientação do professor Luiz Junior Costa Saraiva.

“A ideia inicial do estudo era dar voz a essas mulheres, analisando suas falas por meio da análise do discurso francesa, especificamente a Foucaultiana. Depois, percebemos um rico campo de informação e poderíamos mostrar como os grandes projetos afetam a vida dessas mulheres, considerando os discursos de preconceito e de ódio. Após a coleta do material, compilamos e construímos um quadro de referência que mostra o perfil delas”, explica Augusto Figueiredo.

A pesquisa mostra como a prostituição foi se adaptando à modernidade. O autor abre a dissertação com um apanhado histórico sobre o assunto. “No primeiro capítulo, apresento uma análise da prática da prostituição desde a adoração à deusa Afrodite até o século XXI, com o uso da internet e de aplicativos”, afirma o professor.

No segundo capítulo, Augusto analisa grandes projetos realizados na Amazônia, da exploração de látex durante a Belle Époque à construção da Transamazônica e, por fim, de Belo Monte, o locus da pesquisa. “Infelizmente, os grandes projetos para a região amazônica visam somente à exploração dos recursos naturais e ao acúmulo de lucros em poucas mãos. O desenvolvimento da Amazônia deve ter como base as necessidades, os interesses e o protagonismo de sua população e não os interesses exógenos”, avalia Augusto Figueiredo.

Nos canteiros de obras, mulheres são “entretenimento”

A implantação das usinas hidroelétricas atrai para os canteiros de obra, de forma sucessiva e desordenada, ondas de migrantes para trabalhar na fase de construção da infraestrutura desses projetos. Segundo o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), nos espaços de construção das hidrelétricas, as mulheres são mais uma mercadoria de entretenimento para os operários. “Os grandes projetos, assim como atraem a mão de obra, atraem as mulheres. Elas não vão por causa dos grandes projetos, e sim porque é lá que o dinheiro é agregado. Isso cria um ciclo”, analisa o professor Augusto Figueiredo.

Muitas dessas mulheres se autodenominam “barrageiras”, pois acompanham os homens que constroem essas barragens. Quando essa fase se encerra, os trabalhadores vão para outro projeto e elas também. “A violência contra as mulheres no contexto dos grandes projetos da Amazônia está intimamente ligada ao tipo de relação capitalista que é estabelecida nos grandes empreendimentos. Não é por acaso que a exploração e o abuso sexual de mulheres são problemas latentes nos Estados que compõem a Amazônia Legal brasileira”, afirma o autor da dissertação.

Entre as entrevistadas, 60% são solteiras, 24% são divorciadas ou separadas, 16% são viúvas. 84% dessas mulheres são profissionais do sexo para prover condições financeiras para si mesmas ou para seus familiares. A maioria delas possui de dois a três filhos. “Para elas, a crise econômica e social é um dos porquês cruciais para o ingresso na prostituição, e nessa atividade encontram uma possibilidade real de geração rápida de renda”, revela.

Na pesquisa, Augusto Figueiredo indica que muitas mulheres estão em situação de prostituição temporariamente e, em muitos casos, elas proveem o sustento de suas famílias sem que estas saibam da sua real situação. Apesar de ser ilegal no Brasil, a figura do agenciador ou “rufião” ainda é comum em Altamira. As mulheres são obrigadas a morar em vilas ou em quartos anexos ao prostíbulo, de propriedade do agenciador. Elas pagam aluguel, só podem consumir a alimentação fornecida pelo proprietário e, quando realizam os programas sexuais, pagam pela utilização do espaço. O inevitável endividamento dificulta a saída delas desses locais.

Etnia e idade determinam valor do programa

A dissertação mostra que existem dois grandes momentos na prostituição: a entrada para a exploração sexual, que ocorre em virtude de diversos fatores econômicos e familiares, e a tentativa de sair dela. “Aqui há de se observar que é uma escolha diretamente ligada a fatores psicológicos terríveis, e isso deve ser levado em consideração. Numa sociedade que tenta superar o machismo, é inadmissível que a culpabilidade masculina seja desconsiderada tampouco esquecida nesses casos”, afirma Augusto Figueiredo.

Além disso, o valor que essas mulheres recebem depende das preferências dos demandantes. “Nós verificamos que a etnia das profissionais influencia no preço do programa. O programa com uma mulher caucasiana vinda da região sul/sudeste era R$ 500,00 por 30 minutos. O programa com uma mulher indígena custava 80 reais, no auge de Belo Monte. É uma diferença grande. Há também a questão da idade: se a mulher for jovem, o valor do programa tende a aumentar. Por isso, quando se acompanham os grandes projetos, verifica-se que o tempo de permanência na prostituição não é longo, pois os homens buscam mulheres mais jovens”, observa o professor.

“O quarto item mais importante na hora de determinar o valor do programa é a escolaridade. Isso se justifica porque mulheres com escolaridade mais alta, geralmente, não atendem nos prostíbulos, mas em suas próprias residências ou em locais indicados pelos ‘clientes’. São as freelancers, também conhecidas como garotas de programa”, revela Augusto Figueiredo. Essas mulheres atendem a homens de poder econômico mais elevado e oferecem o que é conhecido como “tratamento VIP”.

“Acredito que a pesquisa é importante por realizar um levantamento antropológico e social de um grupo ainda marginalizado, apesar de essa atividade existir há séculos. Em um dos depoimentos, uma mulher falou: ‘as pessoas só me olham como prostituta. Elas não entendem que eu sou filha, já fui esposa e sou mãe de alguém. Eu sou uma cidadã comum: pago impostos, vou ao supermercado, gero renda para a sociedade, como qualquer pessoa’. Este foi um dos pontos principais da pesquisa: mostrar o lado humano que a sociedade não enxerga”, conclui.

Números da exploração sexual 

60% são solteiras
24% são divorciadas ou separadas
16% são viúvas
84% são provedoras das suas famílias
R$ 500,00 programa com mulher caucasiana
R$ 80,00 programa com mulher indígena
Quanto mais jovem a mulher, mais caro é o programa

Ed.151 - Outubro e Novembro de 2019

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