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Opinião

Publicado: Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 19h16 | Última atualização em Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 20h36 | Acessos: 1223

Lugar de mulher é onde ela quiser

Foto Alexandre de Moraes

Não é de hoje que “Ser mulher” não é fácil por conta das violências perpetradas contra todas nós. A violência contra as mulheres vai da física até a violência simbólica, patrimonial, psicológica, moral, sexual ou econômica. Somos silenciadas e invisibilizadas nos mais diversos espaços, desde o privado até o público. Segundo os dados sobre a violência contra a mulher, o espaço privado, ou seja, a nossa casa, que deveria ser um lugar seguro, é o mais violento, e essa violência é cometida por maridos, tios, pais ou padrastos.

Muitas de nós temos medo de denunciar, nas delegacias, estupros, pois a primeira coisa que vão nos perguntar é o local em que estávamos, a roupa que usávamos ou a hora que passávamos por determinado espaço para termos sido estupradas, culpabilizando-nos. Se a violência for cometida pelo marido ou pelo pai, certamente duvidarão de nossas palavras. Se for praticada pelo marido, podem dizer que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”.

Se nossa casa não é um lugar seguro, o espaço público também não é, pois somos assediadas nos transportes públicos, nos bares, no trabalho (pelo chefe, que pode nos demitir se não cedermos ao assédio, e por colegas de trabalho, que nos silenciam nas reuniões, nos colegiados etc.).

Essa construção de violência e invisibilidade é histórica. No livro História das mulheres do Brasil, organizado por Mary Del Priori, o artigo A arte da sedução: sexualidade feminina da colônia deixa claro que, no Brasil colonial, só poderíamos sair de casa em três ocasiões: para nos batizar, casar e morrer, ou seja, construiu-se historicamente que nosso lugar não é na rua, que nosso lugar é de total invisibilidade, que devemos ser “belas, recatadas e do lar”.

Isso só demonstra que a história construiu uma reclusão feminina, o que provoca uma série de violências contra todas nós. De acordo com o Mapa da Violência contra a Mulher de 2018, “a cada 17 minutos, uma mulher é agredida fisicamente no Brasil. (...). A cada 3 horas, alguém relata um caso de cárcere privado. No mesmo dia, oito casos de violência sexual são descobertos no país, e, toda semana, 33 mulheres são assassinadas por parceiros antigos ou atuais. (...)”.

Como viver em paz, sendo mulher, num país que nos violenta diariamente? Como viver em paz num país que nos vê como meros objetos sexuais, sem direitos dos mais diversos? Penso que o caminho é longo e que devemos nos proteger. Acredito no poder da educação para que o quadro contra a violência que nos acomete diminua a fim de que, quem sabe um dia, possamos viver num mundo mais tranquilo para todas nós, mulheres.

É por isso que, atualmente, na Universidade Federal do Pará, como professora do curso de História do Campus de Ananindeua, venho desenvolvendo o Projeto de Extensão Lugar de mulher é onde ela quiser: gênero e ensino de História, que visa formar alunas e alunos capacitados para ministrarem aulas com conteúdos referentes à mulher e ao feminismo e debater os diversos tipos de violência que nos acometa, haja vista que, muitas vezes, passamos por situações de violência e nem nos damos conta de que é um tipo de violência.

O grupo se reúne ao longo do ano para debater a literatura sobre feminismo, mulher, gênero e masculinidades e, nesse ínterim, produz oficinas que são apresentadas em escolas públicas, de preferência em Ananindeua. As oficinas têm dado retorno bastante positivo para o nosso grupo, pois temos percebido que não se fala sobre feminismo no ensino básico, tampouco se apresenta a importância dessa luta para um mundo menos violento para todas nós, ou seja, o ensino também nos invisibiliza por questões históricas e ideológicas.

Nas oficinas, percebemos que a sociedade que enxerga as mulheres feministas como histéricas e mal-amadas passa a olhar a mulher feminista como alguém que luta por maior participação dela na vida pública, na política, nos cargos de direção, por um mundo mais respeitoso, com menos violência para todas nós. É por isso que sempre clamo para que “sejamos todos feministas”, como já diria a feminista nigeriana Chimamanda. E nenhuma a menos!

Anna Maria Alves Linhares - professora de História da Universidade Federal do Pará, Campus Ananindeua. Coordenadora do Projeto de Extensão Lugar de mulher é onde ela quiser: gênero e ensino de História que visa formar alunas e alunos ao ensino de temática sobre a mulher no ensino básico. E-mail: annlinhares@yahoo.com.br

Ed.152 - Dezembro e Janeiro de 2019 / 2020

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