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Opinião

Publicado: Sexta, 27 de Maio de 2022, 19h08 | Última atualização em Segunda, 30 de Maio de 2022, 17h25 | Acessos: 928

A feira, o campo e as lógicas familiares de produção

Por Jean Michel da Silva Gualdez Foto Acervo Pessoal

A pesquisa A feira e o campo: impactos da experiência da UFPA em lógicas familiares de produção surgiu mediante a problemática da consolidação de mercados agroalimentares inseridos na lógica da agricultura capitalista e industrial. Na esfera global, esses modelos passam a exercer pressão sobre as formas de organização produtiva e comercial da agricultura familiar. Em contraste, nota-se o fortalecimento dos Circuitos Curtos de Comercialização – CCC, um movimento baseado na implementação de políticas públicas para revalorização dos mercados regionais, reaproximação do produtor com o consumidor final e disseminação da lógica dos povos do campo.

Como exemplo de mercados destinados à agricultura familiar, há os grupos de consumo consciente, as feiras temáticas (agroecológicas, orgânicas, agricultura familiar etc.) e as feiras institucionais realizadas no âmbito das Instituições de Ensino Superior – IES, como espaços mais democráticos de comercialização, de consumo e de aprendizagem.

A participação da agricultura familiar nos CCC interfere na dinâmica de estruturação e organização dos agroecossistemas no âmbito familiar. Essa dinâmica socioprodutiva promove alterações na diversificação dos arranjos agrícolas, que são impulsionados pela participação nos diferentes espaços de comercialização.

Com base nessa realidade, consolidou-se a dissertação A feira e o campo: impactos da experiência da UFPA em lógicas familiares de produção, que buscou analisar o processo de consolidação da Feira da Agricultura Familiar da UFPA no Campus Belém e os impactos nas lógicas de produção das famílias que dela participam. A pesquisa está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas (PPGAA/INEAF/UFPA) e contou com a orientação do professor Luís Mauro Santos Silva.
O estudo de caso foi baseado na abordagem qualitativa. A coleta de dados ocorreu por meio de pesquisa documental e de entrevistas com representantes da UFPA e das famílias de feirantes de diferentes territórios do estado.

Os resultados mostram que a feira é um projeto de extensão realizado desde 2015 e envolve mais de 30 famílias, além de faculdades e institutos de diferentes áreas do conhecimento, os quais tomam a iniciativa como uma oportunidade pedagógica para o ensino dos acadêmicos.

Esse espaço se caracteriza por uma robusta diversidade de alimentos (hortaliças, frutas e plantas medicinais) comercializados durante as edições. O espaço proporciona a criação de laços sociais e políticos, o fortalecimento da fraternidade entre os feirantes e os consumidores, além de ser estratégico para proporcionar visibilidade à produção de alimentos saudáveis, gerados nos agroecossistemas.

Com a intensificação das vendas e da demanda por novos produtos, ocorre, em alguns casos, o processo de ampliação e diversificação dos arranjos produtivos nos estabelecimentos agrícolas, criando uma relação modificadora na dinâmica de trabalho do grupo familiar, como também na organização e gestão dos agroecossistemas. Essa intensificação também resulta na busca por novos espaços para a comercialização, como outras feiras temáticas nos municípios de origem das famílias.

Em outros casos, a feira causou um efeito complementar na lógica de produção, em que não se constatam alterações significativas na dinâmica socioprodutiva. Nesses casos, a participação da família é uma estratégia para dar visibilidade aos produtos e estabelecer parcerias institucionais. Por outro lado, no contexto econômico, a feira contri­bui para a renda familiar, garante a busca por autonomia dos mercados locais e a permanência da família na comunidade.

Deve-se considerar a importância de estreitamento do diálogo entre universidade e populações rurais, tendo em vista que a Feira da UFPA é um importante espaço de (trans)formação social. Esse espaço é caracterizado pela diversidade sociocultural e política e pela riqueza gastronômica e de saberes tradicionais. Espera-se que novos estudos sejam realizados na expectativa de compreender a fundo tais dinâmicas, dando-se visibilidade à realidade dos povos do campo.

Jean Michel da Silva Gualdez - graduado em Agronomia (IFPA), especialista em Docência para a Educação Profissional e Tecnológica (IFES), mestre em Agriculturas Familiares e Desenvolvimento Sustentável (UFPA/INEAF). Possui experiência com produção agroecológica, projetos agropecuários, diagnósticos socioeconômicos de comunidades rurais e extensão rural aplicada à agricultura familiar amazônica. Hoje atua como técnico em gestão ambiental no Ideflor-Bio. E-mail: jeangualdez@gmail.com

Beira do Rio edição 163

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