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O peso das rotas no bem-estar bovino

Publicado: Terça, 06 de Janeiro de 2026, 18h11 | Última atualização em Sexta, 09 de Janeiro de 2026, 20h10 | Acessos: 51

Pesquisa avalia bem-estar do gado no confinamento pré-abate 

#ParaTodosVerem: Fotografia mostra uma fileira de vacas malhadas em preto e branco. Elas estão posicionadas lado a lado, com as cabeças projetadas para fora de uma estrutura metálica cinza e se alimentam da comida disposta no chão. Os animais usam brincos de identificação amarelos e coleiras azuis. Ao fundo, vê-se a estrutura do galpão com pilares azuis e teto metálico.
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto 

Com um rebanho estimado em 25,5 milhões de cabeças de gado, segundo dados de 2024 do IBGE, o Pará possui o segundo maior rebanho bovino do Brasil, sendo a grande maioria gado de corte. O gado paraense é comercializado, principalmente, com grandes frigoríficos nacionais e é objeto de exportação direta para outros países. Antes de ser abatido em matadouros ou embarcado vivo para entrega, ele é submetido a longas viagens que iniciam nas fazendas produtoras. As condições dessas viagens podem prejudicar o bem-estar dos animais, inclusive afetando a qualidade da carne.

A dissertação Avaliação do bem-estar em bovinos zebuínos de corte, submetidos a confinamento em curral de espera pré-abate utilizando etograma, defendida por Amanda Roberta Mafra de Sena no Programa de Pós-Graduação em Saúde Animal na Amazônia, da Universidade Federal do Pará (PPGSAAM/UFPA), investigou o comportamento do gado da raça zebuína (Bos indicus) submetido a confinamento em currais de espera de abatedouros frigoríficos e o impacto que o transporte ocasionou nos comportamentos desses animais. O etograma é uma ferramenta que faz o registro organizado dos comportamentos observáveis dos animais.

A dissertação, orientada pelo professor André Guimarães Maciel e Silva, focou na raça zebuína, por sua predominância no rebanho brasileiro, e nas características comportamentais próprias da raça, como sua maior reatividade e sensibilidade ao manejo, o que torna relevante a elaboração de um etograma específico para uma avaliação precisa dos indicadores de bem-estar no curral de espera, como explica Amanda Sena. Segundo ela, “o período pré-abate é uma etapa crítica que pode influenciar, significativamente, o estado fisiológico e comportamental dos bovinos, assim como a qualidade do produto final”.

Durante a pesquisa, foram identificados e descritos os principais comportamentos exibidos pelos zebuínos nos currais de espera, observando aspectos como interação social, posturas corporais, atividade locomotoras e sinais de estresse ou tranquilidade. O estudo também comparou o comportamento de animais oriundos de distâncias curtas e longas, para verificar se isso exercia influência sobre as respostas comportamentais. Amanda Sena informa que, “de modo geral, o estudo teve como finalidade propor uma ferramenta padronizada para observação do comportamento, que possa servir de auxílio na avaliação do bem-estar dos zebuínos no pré-abate e contribua para o aprimoramento das práticas de manejo e das condições de espera”.

A pesquisadora explica que, na prática, o etograma ajuda a padronizar e organizar as observações, permitindo comparar, de forma clara, o comportamento entre diferentes animais, grupos e situações. “O etograma é muito útil, porque, a partir do comportamento, é possível identificar sinais de conforto, estresse, medo ou adaptação, fatores que ajudam a entender como o animal reage ao ambiente e ao manejo. No meu estudo, o etograma foi usado para avaliar o comportamento dos zebuínos no curral de espera, permitindo a análise do bem-estar durante o pré-abate”.

Manejo e condições do transporte têm impacto direto no bem-estar

O estudo trabalhou com zebuínos machos não castrados, com cerca de três anos e 500 kg de peso, vindos de diferentes municípios do Pará. Os animais foram transportados até um abatedouro frigorífico em Castanhal (PA), onde ficaram no curral de pré-abate. Os bovinos foram divididos em dois grupos (cada um com três lotes), de acordo com a distância percorrida: curta distância (até 310 km) e longa distância (acima de 600 km). O etograma foi elaborado com base em observações e registro sistemático dos comportamentos, usando o método animal focal e agrupando as ações em categorias comportamentais: agonístico, alimentar, sexual, motor e excretor.

Foram registradas interações sociais, movimentos corporais, ingestão de água, sinais de estresse e outros comportamentos. A coleta ocorreu por um minuto a cada cinco minutos, durante toda a permanência no curral, que durou em média 13 horas. Com essas observações, a pesquisadora montou o etograma, focando nos comportamentos mais frequentes. Para a análise, usou os testes Kruskal-Wallis, Tukey e Mann-Whitney para comparar grupos e momentos da permanência. Assim, avaliou como a distância do transporte e o tempo no curral influenciaram o bem-estar dos animais.

Amanda Sena constatou que o transporte causa problemas importantes ao bem-estar dos bovinos. Em trajetos longos, eles chegavam mais fatigados e menos dispostos a se mover ou explorar o curral. Mesmo em trajetos curtos, havia sinais de estresse, possivelmente ligados ao transporte e à adaptação ao veículo. O jejum prolongado e a falta de água, comuns em viagens longas, reduziram a ruminação e aumentaram a ingestão de água na chegada. Isso mostra que tanto a distância quanto as condições de manejo durante o transporte afetam diretamente o bem-estar.

Sobre o tempo de espera no curral, períodos muito longos geraram mais fadiga e estresse, já que os animais permanecem em jejum por mais tempo. Ela observou queda em comportamentos agonísticos e alimentares ao longo das horas, o que pode indicar habituação, mas também cansaço e menor exploração do ambiente. Além disso, currais com pouco espaço, piso desconfortável ou acesso limitado à água aumentam disputas e dificultam a recuperação dos animais. Por isso o tempo de espera precisa ser planejado e monitorado, garantindo descanso, água e espaço adequados.

As conclusões da pesquisa de Amanda Sena mostraram que o manejo adequado no curral de espera é fundamental para garantir o bem-estar dos bovinos antes do abate. O etograma desenvolvido se mostrou uma ferramenta eficaz para observar e compreender os comportamentos dos animais, permitindo identificar sinais de desconforto e avaliar se as práticas de manejo estavam realmente promovendo boas condições de bem-estar. Os resultados também deixaram claro que o transporte tem impacto sobre o comportamento dos bovinos.

“Animais que viajaram por longas distâncias apresentaram sinais de maior cansaço e necessidade de recuperação, enquanto aqueles que percorreram distâncias mais curtas demonstraram maior atividade e disposição. Isso evidencia que cada grupo de animais demanda um tipo de manejo específico, de acordo com o percurso e as condições do transporte. De forma geral, a pesquisa concluiu que o uso do etograma pode contribuir tanto para melhorar as práticas de manejo no pré-abate quanto para orientar políticas e protocolos voltados ao bem-estar animal nos abatedouros, promovendo processos mais humanitários e eficientes”, concluiu.

Sobre a pesquisa - Avaliação do bem-estar em bovinos zebuínos de corte, submetidos a confinamento em curral de espera pré-abate utilizando etograma foi defendida por Amanda Roberta Mafra de Sena no Programa de Pós-Graduação em Saúde Animal na Amazônia, da Universidade Federal do Pará (PPGSAAM/UFPA).

Edição: Iaci Gomes | Fotografia: Freepik/Banco de imagem

Beira do Rio edição 176 - Setembro a Dezembro 

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