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A História para além do que é público

Publicado: Quinta, 20 de Julho de 2023, 16h36 | Última atualização em Quarta, 20 de Setembro de 2023, 16h38 | Acessos: 423

Estudo propõe o ensino de História utilizando registros pessoais 

Andressa Barbosa foi uma das alunas que trouxe para a sala de aula histórias e fotos da família
#ParaTodosVerem: Montagem mostra três fotos em sequência. Da esquerda para a direita: Fotografia colorida mostra um casal de adultos e três crianças, dois meninos e uma menina, à frente de uma painel de festa na cor azul. No centro, o registro de uma fotopintura emoldurada que mostra um casal e três crianças à frente. Eles estão registrados da altura do peito para cima. A mulher tem os cabelos escuros, usa brinco e cordão e veste roupa estampada. O homem e as três crianças usam camisas brancas e paletós em diferentes tons de azul. O adulto usa gravata comum e os meninos, gravata do tipo borboleta. Última fotografia, feita em estilo "selfie", mostra uma jovem de cabelos compridos dentro de um veiculo. Ela veste blusa branca e usa uma máscara descartável na altura do queixo.
#ParaTodosVerem: Montagem mostra três fotos em sequência. Da esquerda para a direita: Fotografia colorida mostra um casal de adultos e três crianças, dois meninos e uma menina, à frente de uma painel de festa na cor azul. No centro, o registro de uma fotopintura emoldurada que mostra um casal e três crianças à frente. Eles estão registrados da altura do peito para cima. A mulher tem os cabelos escuros, usa brinco e cordão e veste roupa estampada. O homem e as três crianças usam camisas brancas e paletós em diferentes tons de azul. O adulto usa gravata comum e os meninos, gravata do tipo borboleta. Última fotografia, feita em estilo "selfie", mostra uma jovem de cabelos compridos dentro de um veiculo. Ela veste blusa branca e usa uma máscara descartável na altura do queixo.

Por André Furtado  Fotos Acervo da pesquisa 

De grandes objetos a minúsculas câmeras comportadas em um aparelho celular, a tecnologia foi uma grande aliada à popularização da fotografia. Hoje, diversos grupos sociais se utilizam da luz para fazer registros que contam a história de um momento vivenciado. Pensando nisso, a pesquisadora Daniele Barreto da Costa desenvolveu sua dissertação de mestrado utilizando os produtos da arte fotográfica como ferramenta para o ensino de História.

Professora da rede particular há mais de 10 anos, Daniele atua em Castanhal e notou ser comum as escolas levarem os estudantes a pensar a formação da cidade no início do ano letivo por ocasião do aniversário do município, comemorado no dia 28 de janeiro. Ela observou, todavia, que os alunos sempre possuíram espaço reduzido para manifestar suas opiniões sobre a temática, concentrando a atividade na história oficial que retrata o nascimento do município por meio da criação da estação da Estrada de Ferro de Bragança.

A reflexão da professora foi a semente da pesquisa denominada Nos rastros da “Maria Fumaça”: o ensino de história a partir das fotografias familiares, realizada no Centro de Aprendizagem e Desenvolvimento Percepção (CEADEP), com alunos do 9° ano do ensino fundamental. O estudo teve como objetivo demonstrar a importância dos registros de pessoas comuns e suas vivências na estruturação da história de um determinado local, para que os estudantes se sentissem como agentes de transformação da realidade por meio da valorização das suas experiências e de seus familiares.

“Os alunos são adolescentes e esse público está muito conectado às mídias sociais onde exploram o mundo da imagem, sem se dar conta das análises históricas que podem ser feitas a partir de seus próprios registros. De posse desse começo, decidimos entender como eles liam os registros de outras pessoas e de suas famílias, de épocas mais longínquas e mais recentes”, conta a pesquisadora.

A fotografia e a história impressa

A coleta de dados deu-se por meio de oficinas realizadas tanto com estudantes quanto com seus pais. As fotografias analisadas no trabalho tiveram temáticas sugeridas pela professora, porém foram selecionadas pelos próprios alunos que precisavam justificar sua escolha. “Muitas histórias foram aparecendo no percurso. Sujeitos que não mais convivem, mas que estavam presentes naquele último registro; pais que estão divorciados agora, mas que viviam juntos à época; avôs já falecidos; animais de estimação; presentes da infância que significavam parceria com primos do interior ou lembravam brincadeiras com os irmãos, agora já amadurecidos”, exemplifica a professora.

Para cruzar a informação entre alunos e familiares, a pesquisadora realizou uma oficina de contação de história, em que os pais falavam de suas infâncias ressaltando como era viver em Castanhal em determinado período e o que mudou e permaneceu nos costumes e na arquitetura da cidade.  De posse dessas informações, professora e estudantes traçaram a história de Castanhal por um viés que até então não havia sido registrado. “Comparamos as histórias contadas com os registros fotográficos, e os alunos começaram a socializar as pesquisas de “antes e depois”, e os impactos provocados pelo crescimento da cidade... as transformações operadas no modo de entender as construções; as festas tradicionais de outrora; as que permaneceram, mas não conservam sua organização “original”; até mesmo as brincadeiras e brinquedos de outras épocas e as suas. Todos esses pontos foram objetos de análise em sala de aula”, completa Daniele.

As fotos selecionadas para o estudo foram adicionadas no chamado Portal da Família, um produto da dissertação criado pela autora para que seja um ambiente de socialização marcado por aspectos que reúnem o passado e o presente. “O intuito do Portal é mostrar para os alunos que não “se faz história por inteiro”. Os historiadores têm um trabalho incrível de seleção de fontes, e trabalhar com elas, às vezes, é lidar com escolhas que não são necessariamente deixadas ao acaso, mas que às vezes corresponde a ter que exercer o “ofício” em meio a fontes pré-selecionadas por pessoas e/ou autoridades com alguma intenção. E na contramão dos “arquivos oficiais”, o historiador recorre aos arquivos “não intencionais”, pelo menos “não oficiais”, ressalta a professora.

Um novo olhar para o magistério

A pesquisa permitiu que os alunos assumissem o protagonismo nas análises historiográficas e trouxe a eles ainda a percepção do quão é importante valorizar e manter a história de uma comunidade viva.

“A proposta do Programa de Pós-Graduação em Ensino de História (ProfHistória) é de que os nossos projetos possibilitassem aos nossos pares desenvolver ferramentas dentro de suas possíveis realidades, para promover a transformação significativa nas relações de ensino-aprendizagem e na maneira de se compreender os estudos históricos e os lugares sociais dos sujeitos envolvidos no processo educacional”, afirma a historiadora.

Daniele afirma que sua pesquisa possibilitou um novo olhar para sua profissão e que a profissional que iniciou a pesquisa difere daquela que, hoje, detém o título de Mestre em Ensino de História. “Antes eu me preocupava mais com o conteúdo da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). Depois da pesquisa, entendi que meus alunos aprendem mais rápido sobre os conceitos históricos, quando percebem afinidade e/ou inclusão com as propostas de aula que tendem a valorizar as experiências das pessoas que são “simples” como nós”.

Sobre a dissertação: “NOS RASTROS DA “MARIA FUMAÇA”: o ensino de história a partir das fotografias familiares foi defendida por Daniele Barreto da Costa, em 2021, pelo Programa de Pós-Graduação em Ensino de História (PROFHISTÓRIA), Campus Ananindeua da Universidade Federal do Pará. A orientação foi do professor Wesley Garcia Ribeiro da Silva.

Edição Edmê Gomes - Beira do Rio ed.167

 

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