Artigo
Moacir Cardoso: arte e resistência na Pérola do Caeté

Por Daniely Meireles do Rosário
Entre seus rios, cores e costumes, o território paraense abriga uma imensidão de artistas que ainda estamos por conhecer. Iniciar as andanças, registrar os caminhos, chegar às obras e aos processos desses artistas constitui-se como tarefa necessária para o alargamento de referências e conceitos ligados à produção visual contemporânea, em tempos nos quais a dissolução dos legados coloniais é urgente.
Resultado da imersão em municípios do nordeste paraense, a tese Entre a lona e a parede urbana: a outra face da pintura paraense pela obra de Moacir Cardoso apresenta a trajetória de vida e obra do artista Moacir Cardoso, nascido em Salvador e radicado em Bragança há cerca de 30 anos, analisando os simbolismos, as cores e as narrativas que fazem de sua produção uma das mais potentes da cena artística paraense.
Além de se debruçar sobre a obra de Moá Cardoso – como é conhecido nas redes sociais –, a pesquisa percorreu os 223 quilômetros da atual Rota Turística Belém-Bragança, composta por 13 municípios, por onde passava a antiga Estrada de Ferro de Bragança.
Da extensão desse itinerário, a tese apresenta registros fotográficos e entrevistas com artistas que partilham suas vivências, processos de criação e falam de sua relação com a cidade, com o imaginário amazônico e com a pintura de paredes, placas, embarcações, partindo de uma concepção de arte que extrapola uma definição fechada e categórica, propondo-se como um dispositivo cultural resultante dos entrecruzos entre a condição multicultural do artista, a necessidade de compartilhamento e os grupos que consomem e legitimam essa produção artística.
Com características de uma pesquisa exploratória, de imersão nos territórios de fala e trabalho dos artistas, a pesquisa partiu do encantamento pela visualidade figurativa de pinturas registradas nas cidades e dos suportes que existem para além das galerias de arte, objetivando não apenas apresentar pinturas de artistas de alguns municípios do nordeste paraense, refletindo sobre seus modos de representação – suas rotas e memórias –, mas também, sobretudo, narrar a trajetória de vida e produção do artista Moacir Cardoso, detalhando e analisando os saberes, as vivências e os referenciais artísticos que impactam diretamente seu trabalho.
A pesquisa realizada detalha especificamente a fase modernista de Moá Cardoso, cujas referências – de Edmundo Simas (1941-2017) a Tarsila do Amaral (1886-1973), de Juarez Paraíso (1934) a Cândido Portinari (1903-1962) – são convertidas para evidenciar simbolicamente seu contato com o mundo, manipulando visualidades da cultura paraense com suas raízes soteropolitanas.
A fauna, a vegetação, as paisagens ribeirinhas, os rios e as embarcações, o pescador e o catador de caranguejo, o vendedor de açaí, além de personagens típicos da mitologia amazônica são exemplos de um repertório iconográfico crítico sobre a realidade sociocultural do território em que habita, por onde também engendram discursos de resistência política, criando furos de denúncia social nas múltiplas narrativas que cada obra pode provocar.
Na pintura de Moacir Cardoso, a fusão entre suas memórias e a representação de suas vivências são decompostas em “pedaços de cor” que ora se sobrepõem, ora se mostram individualmente. Remetendo visualmente ao pós-cubismo europeu, sua percepção é convertida em cenas imaginárias nas quais marujos e marujas se apresentam mesclados à Igreja de São Benedito e ao produtor de farinha; o Ataíde – criatura mitológica do mangue – afugenta catadores predatórios; indígenas, onças e araras se mobilizam na proteção da floresta. Na pintura, o artista controla a fragmentação visual, preservando a figuração e deixando a cor confundir a visão, na qual cada parte/cor é um pedaço de eloquência.
O pintor – homem do mundo – sente Bragança por suas entranhas mais populares: pela feira, pelo porto, por seus “causos” folclóricos, pelo trabalho braçal de pescadores e vendedoras de comida, evidenciando realidades urbanas muitas vezes romantizadas pelo apelo turístico. O cotidiano de Moá Cardoso acontece sob o sol bragantino, a bordo de sua bicicleta. É um homem que vive intensamente o brilho, a alegria e a energia dos fatos corriqueiros do dia a dia de um município atravessado pelo rio, apropriando-se, um pouco, da substância de cada coisa para criar suas imagens de resistência.
Daniely Meireles do Rosário é doutora em Artes (EBA/UFMG), professora de Artes Visuais da Escola de Aplicação da UFPA, atua como docente e pesquisadora no curso de Licenciatura em Artes Visuais (Parfor) e no Mestrado Profissional Rede ProfArtes (UFU/UFPA-ICA). Lattes http://lattes.cnpq.br/2813836419048179
Edição Rosyane Rodrigues - Beira do Rio ed.167
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