Luto e saudade no Cemitério Santa Izabel
Pesquisa destaca vivências em uma cidade cemiterial em Belém (PA)

Por Andreza Dias Foto Tássia Barros (Comus)
A morte é temida apenas por ser mencionada e permanece na morada do desconhecido. Entre perdas e incertezas, o assunto está presente no imaginário das pessoas e pode ser considerado um evento social e simbólico que abarca questões culturais.
A forma como a sociedade encara a morte pode variar de acordo com as religiões e os contextos socioculturais. Em seu estudo, a antropóloga Elisa Rodrigues foi a campo no Cemitério Santa Izabel, localizado no bairro Guamá, em Belém (PA). A “cidade dos mortos” existe desde 1870 e possui mais de 80 mil túmulos.
“Olhar para um cemitério na periferia de Belém, com particularidades tão visíveis, mas esquecidas ou mesmo apagadas pela falta de estudos ou por sua localização num bairro não central, constitui parte do esforço em voltar-me para o que pulsa e existe além do centro da cidade”, conta a pesquisadora.
De acordo com Elisa Rodrigues, o campo da Antropologia da Morte ou Mortuária ainda é escasso. O seu interesse pelo tema surge de uma perda familiar, o que é comum entre os estudiosos do assunto. Com esse impulso pessoal, Elisa procurou compreender as práticas e as crenças relacionadas à morte e o morrer no contexto paraense. Os resultados estão na dissertação Espaços da morte na vida vivida e suas sociabilidades no Cemitério Santa Izabel em Belém-PA: Etnografia Urbana e das emoções numa cidade cemiterial, defendida no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA/IFCH) da UFPA.
Trabalhadores da morte e profissionais da lembrança
A autora entrevistou trabalhadores do cemitério, como coveiros e zeladores, além de floristas, vendedores ambulantes e visitantes. Eles são “trabalhadores da morte” e “profissionais da lembrança”, pois, de acordo com a antropóloga, essas pessoas trabalham não só com a morte, mas também com o corpo, a memória, as famílias e as visagens.
“Após o interesse inicial nas emoções dos visitantes, a dissertação lançou um olhar sobre os mortos e introduziu os vivos ao mundo dos mortos de maneira cautelosa. Entre outras coisas, os trabalhadores falam sobre o que é compor a cidade cemiterial dentro da urbe belenense”, conta a pesquisadora.
O conceito de cidade cemiterial utilizado pela autora agrega em si todos os componentes que significam a cidade como espaço de trânsito, de morada e de relações, tendo sua fronteira ilustrada e configurada pela porta do cemitério, que separa o espaço dos vivos e dos mortos. Assim, essa porta separa e reaproxima o espaço cemiterial e o urbano.
Elisa Rodrigues analisou duas datas com grande movimentação de público no cemitério: o Cortejo Visagento, que ocorre no dia 31 de outubro, e o Dia de Finados, que acontece no dia 2 de novembro. “O Dia de Finados destaca-se no calendário como uma data simbólico-coletiva que evidencia as emoções, a fé e os ritos presentes no Cemitério Santa Izabel. Organizado pela comunidade e por professores das escolas do Guamá, o Cortejo Visagento é um projeto que busca reafirmar a cultura amazônica. Diferenciando-se das influências do Halloween, o evento valoriza as características regionais fantasmagóricas e visagentas, inspiradas na obra de Walcyr Monteiro, intitulada Visagens e Assombrações de Belém”, afirma.
As tradições sobre lendas e visagens fazem parte da oralidade do bairro e são narradas pelos interlocutores da pesquisa, além de envolverem tanto o espaço físico do cemitério quanto o imaginário de seus frequentadores. O Cortejo é visto pela pesquisadora como um ensaio ou uma preparação para as dinâmicas culturais que ocorrem no Dia de Finados, dois dias depois.
Com a alta circulação no espaço cemiterial, a cidade desacelera para adentrar a cidade dos mortos. “O Dia de Finados é visto como uma oportunidade de compreender o fenômeno da morte e suas diferentes formas de elaboração. Ao percorrer esse trajeto, é possível alcançar um alívio individual e coletivo diante das perdas enfrentadas”, complementa.
Sobre a pesquisa: A dissertação Espaços da morte na vida vivida e suas sociabilidades no Cemitério Santa Izabel em Belém-PA: Etnografia Urbana e das emoções numa cidade cemiterial foi defendida por Elisa Gonçalves Rodrigues, em 2023, no Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia (PPGSA), da Universidade Federal do Pará. A orientação foi do professor Flávio Leonel Abreu da Silveira.
Edição de Rosyane Rodrigues - Beira do Rio edição 168
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