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Entrevista: Escrevivência - uma escrita da vida

Publicado: Segunda, 11 de Dezembro de 2017, 14h41 | Última atualização em Segunda, 11 de Dezembro de 2017, 14h45 | Acessos: 1554

Conversa com a escritora Conceição Evaristo

imagem sem descrição.

Por Maria de Nazaré Barreto Trindade (*), especial para o Beira do Rio Foto Acervo da Autora

O DIA 14 de outubro. Foi um dia de encontro, de poesia e de música. A poesia resistente de Conceição Evaristo, o melodioso som da viola de Hamilton Holanda e a música forte de Milton Nascimento, Lágrimas do Sul. Os dois, personagens da nossa história contemporânea, reverberam a voz de um povo que ainda “canta para seus orixás” e, apesar de “tudo que sofreram”, esperam chegar o dia da “humanidade”. Afinal, nas vozes de nossa ancestralidade, ecoam as dores de seres humanos, negros e indígenas, massacrados por uma colonização que ainda hoje tenta docilizar os corpos e as mentes. Por isso estamos aqui, por eles e por nós.

A ESCRITORA. Apontada como importante voz que compõe hoje o panteão inicial de escritoras negras na literatura brasileira contemporânea, Conceição Evaristo, mineira nascida na periferia de Belo horizonte, é escritora, romancista, contista e professora. O livro de contos Olhos d’água deu a ela o Prêmio Jabuti 2015. No último dia 14 de outubro, ela esteve em visita a Belém, momento em que pudemos ter com ela uma conversa que revela um pouco de sua trajetória de vida e “escrevivência” (neologismo criado pela escritora).

Primeiro, gostaria de conversar sobre sua atuação no movimento negro e a sua relação com o Quilombhoje, que foi onde a senhora começou a publicar os seus trabalhos.

A minha relação com o movimento negro se efetivou quando fui para o Rio de Janeiro na década de 1970. Foi um momento de efervescência muito grande, com a fundação, por exemplo, do Instituto de Pesquisas das Culturas Negras. A minha relação com o movimento negro se dá como uma pessoa formada pelo movimento negro. Eu já tinha consciência do racismo e tinha passado por alguns grupos de BH, mas a minha formação teórica sobre as questões raciais no Brasil se dá dentro do movimento. As pessoas negras que acompanharam as décadas de 1970 e 1980, mesmo que não estivessem dentro do movimento negro, eram contaminadas por ele. Era um momento em que o movimento negro também estava voltado para as lutas de libertação das ex-colônias portuguesas na África.

Mandela estava preso. As notícias sobre o Apartheid da África do Sul chegavam aqui, ao Brasil, com muita veemência. A gente denunciava e falava desse Apartheid, mas também apontava um Apartheid brasileiro, que a sociedade brasileira se negava a reconhecer.

Eu vou conhecer Quilombhoje justamente dentro do movimento negro.  Em 1988 e 1989, a gente tinha grupos literários que sempre se apresentavam nos presídios, em associações de moradores, nas escolas e em bibliotecas públicas, em festas e reuniões do movimento negro. Nesse período, eu conheço Quilombhoje e, em 1990, faço minha primeira publicação em Cadernos Negros III.

Para a mulher negra, escrever e publicar é um ato duplamente político. Nessa perspectiva, “escrevivência” expressa e sintetiza essa concepção?

Escrever e publicar essa vivência expressa e sintetiza. Por quê? Porque há uma literatura canônica e considerada como tal, e essa literatura tem uma forma de enredo, de construção do personagem que estereotipa a personagem negra. Quando a autoria negra escolhe escrever a partir de sua vivência e escolhe publicar, isso é um ato político. A perspectiva da publicação é mais difícil para as mulheres negras do que para as mulheres brancas. Nós temos, na literatura brasileira, uma predominância de autoria de homens brancos, depois, podemos pensar nessa predominância de autoria de mulheres brancas e, em última instância, a autoria das mulheres negras. Enquanto o modernismo possibilitou alguma autoria de mulheres brancas, as mulheres negras vão entrar na cena literária muito depois.

Ao escrever a partir da nossa vivência, a gente introduz outra ficção. É outro modo de conceber uma ficção na literatura brasileira. Quando você pensa personagens negras que não estão inseridas em seus contextos culturais, por exemplo, em Gabriela Cravo e Canela, Rita baiana e Bertoleza são personagens construídas na perspectiva do homem branco, retirando essa personagem do seu espaço social. Quando você lê uma autoria negra, verá essas mulheres sendo construídas a partir do espaço de pertencimento delas. É outro texto, não é?

Segundo matéria divulgada recentemente, existem cinco mulheres africanas no panteão da literatura mundial, entre elas a escritora Djamila Pereira, de Angola. Qual a sua identificação com esse universo feminista e como você define a sua obra em relação a esse universo de escritoras?

Não sei se você conhece Paulina Chiziane, a escritora moçambicana.  A gente sempre se encontra em seminários e se trata como “irmãs do outro lado do Atlântico”, eu aqui; Paulina lá. Quando eu penso em Paulina, quando eu leio sua obra e outras escritoras afro-americanas, o que nos aproxima, apesar de espaços geográficos e de histórias nacionais diferentes? É a dominação e também porque somos afro-diaspóricas.

Então esse processo de colonização que os povos africanos sofreram e essa história compartilhada com os povos afro-diaspóricos nos permitem criar uma literatura transnacional. Você pode ler, por exemplo, um texto de Toni Morrison, de Alice Walker ou de Paulina Chiziane e perceber essa semelhança.

Em sua opinião, ainda existe condicionamento do negro no papel de subalternidade e como a literatura pode contribuir para quebrar esses grilhões?

Olha acredito que ainda existe. Se você fala em termos reais, verá que os trabalhos menos valorizados socialmente ainda cabem à mulher negra. E a literatura pode ajudar por meio da educação. Talvez o efeito que um texto literário possa fazer é muito maior do que um texto histórico, pois, primeiramente, ele vai tocar as emoções. Se você ler Um defeito de cor, de Ana Maria Gonçalves, por exemplo, quantas informações aquele livro traz e é uma ficção! Se fosse um texto histórico, poderia não produzir tanto efeito assim.

Que mensagem a senhora teria para as escritoras negras e para outras escritoras da região amazônica?

Em primeiro lugar, não se pode pensar numa literatura nacional que traga simplesmente determinadas autorias. Uma literatura nacional brasileira não pode trazer só uma autoria de brancos e de homens. Já que a gente fala de uma diversidade, então povos da Amazônia, povos de Minas Gerais, povos do Rio Grande do Sul, povos indígenas, principalmente esses povos que passaram por um processo de subalternização, de subordinação, têm as suas experiências de vida, os seus fazeres literários, a sua cultura, a sua cosmologia e as suas maneiras de se portar no mundo. Se o Brasil é isso tudo, essas vozes também precisam expressar essa diversidade.

Para encerrar, fale um pouco sobre a obra Olhos d'água, vencedora do Premio Jabuti 2015.

Olhos d'água é uma coletânea de contos. A maioria é composta por contos que foram publicados em Cadernos Negros; e alguns, inéditos. São contos que vou ficcionalizar em cima das culturas afro-brasileiras e da realidade dos povos afro-brasileiros. Este livro que me deu certa visibilidade e traz o conto Olhos d'água, que dá nome à coletânea.

Vozes-mulheres

A voz da minha bisavó ecoou
criança nos porões do navio.
Ecoou lamentos
de uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
no fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.

 

(*) Maria de Nazaré Barreto Trindade – Doutoranda do Curso de Antropologia Social na UFPA. É mestra em Estudos Literários pela UFPA e professora da Rede Municipal de Educação.

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