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A vida na outra margem do Guamá

Publicado: Segunda, 27 de Maio de 2019, 14h44 | Última atualização em Sexta, 28 de Junho de 2019, 16h30 | Acessos: 2304

Como o turismo está afetando a ilha do Combu e seus moradores

imagem sem descrição.

Por Flávia Rocha Foto Acervo da Pesquisa

“O objetivo era analisar as percepções, as tensões e os conflitos relacionados à prática do turismo por parte dos distintos atores sociais (órgão gestor, empresários, sociedade civil organizada, visitantes locais e externos, antigos e novos moradores) que utilizam a ilha do Combu, considerando a diversidade urbana e regional em que está inserida”, afirma a turismóloga Ágila Flaviana Alves Chaves Rodrigues, autora da dissertação A produção do espaço pelo e para o turismo na área de proteção ambiental da ilha do Combu (Belém-Pará). A dissertação foi defendida no Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável e Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA), sob orientação do professor Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior.

A ilha do Combu é formada por quaSaint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior.A ilha do Combu é formada por quatro comunidades: Igarapé Combu e Beira Rio, localizadas de frente para a parte continental da cidade; Igarapé Piriquitaquara, tro comunidades: Igarapé Combu e Beira Rio, localizadas de frente para a parte continental da cidade; Igarapé Piriquitaquara, localizada de frente para a Ilha do Murutucu; e Furo de São Benedito, localizada de frente para o município de Acará. “O Combu surge como objeto de estudo por sua importância nas discussões atuais sobre o turismo na cidade. Desde o início dos anos 2000, o mercado e o Estado fazem desse local um ambiente propício para a busca por novas aspirações econômicas”, explica a pesquisadora.

Durante a pesquisa, Ágila Rodrigues percebeu que seria necessário analisar os projetos de turismo “voltados para o rio” realizados em Belém. “Durante a gestão de Edmilson Rodrigues, ocorreu o processo de revitalização do complexo Ver-o-Rio e a reforma da praça Princesa Isabel. Posteriormente, na gestão de Duciomar Costa, implementou-se o Portal da Amazônia, um projeto que sofreu uma série de mudanças e interferências além de demorar para ser concluído”, relata Ágila. “Mas, quando se faz essa ‘abertura para o rio’, surgem variados conflitos, porque esses locais são habitados, os moradores da área são remanejados e toda a vida que produziram ali é tirada deles”, revela a pesquisadora.

A dissertação mostra que a ilha do Combu é um ambiente fruto de disputas pelo uso e pela posse da terra, em razão do seu enquadramento como Área de Proteção Ambiental (APA), terreno de marinha e Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE). “Os moradores vivem sob três tipos de gestão, que, muitas vezes, não conversam umas com a outras. A ilha abriga cerca de 1.300 moradores, os quais têm a necessidade de serem ouvidos e vistos. Então, fiz entrevistas com presidentes de associação de moradores, donos de bares e restaurantes, condutores de embarcação, além de representantes da Prefeitura de Belém, do Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade do Estado do Pará (Ideflor-bio) e da Secretaria de Estado de Turismo (SETUR)”, conta Ágila Rodrigues.

Mais de 20 restaurantes foram mapeados na ilha

Ao explicar a sua metodologia de trabalho e as técnicas de investigação, Ágila Rodrigues afirma que esteve na ilha praticamente todos os dias do mês de julho, quando se intensificam a ida e a vinda de visitantes. “Também disponibilizei formulários no Facebook, no Instagram e em alguns sites e blogs voltados para o tema ‘viagem’. Fiz um mapeamento do que chamamos de ‘equipamentos turísticos’ da ilha, isto é, os restaurantes, as trilhas ecológicas e a fábrica de chocolate. Foram mapeados cerca de 20 restaurantes, 11 localizados dentro do furo Igarapé Combu. É uma proporção imensa para um local relativamente pequeno. A ilha tem apenas 15 km de extensão”, avalia Ágila.

A pesquisa documental foi importante para entender a história do local. “Inicialmente, a ilha pertencia ao município do Acará, depois passou a fazer parte de Belém. Há registros de que a ilha do Combu pertencia aos antigos donos das terras, os sesmeiros, no período colonial. Esses donos pouco visitavam o local, então mandavam trabalhadores de outras regiões em seu lugar. Os trabalhadores, por sua vez, foram se instalando por lá. No período da Cabanagem, assim como em várias outras ilhas ao redor da cidade, o Combu foi rota de fuga para os cabanos”, narra a turismóloga.

De acordo com Ágila Rodrigues, atualmente, os espaços turísticos criados na região pelo Estado estão a favor de um agente principal: o mercado. “A pesquisa mostrou que a Coordenadoria Municipal de Turismo tem tido uma atuação mínima no local e que vários novos projetos estão sendo desenvolvidos para a orla sul”, alerta. “A forma como o turismo ocorre na ilha não é a mais adequada. Por exemplo, andar de lancha e de jet ski dentro dos furos causa uma grave erosão, deixando o igarapé mais raso. Lá não existem ruas ou avenidas, apenas algumas trilhas. O rio é a principal via de locomoção”, afirma a autora da dissertação.

O ritmo de trabalho também mudou na ilha: “antes, o trabalhador tinha folga sábado e domingo. Hoje, a folga é na segunda-feira. Durante a semana, eles trabalham na extração do açaí e, aos finais de semana, com as visitações”, diz a pesquisadora. Entre os novos projetos que atingirão a Ilha do Combu está o Programa Desenvolve Belém. “A maioria das propostas sugere a mudança e a transformação de vários locais em ambientes de consumo e de entretenimento. Entre elas, encontra-se a ‘Marina Belém’, com extensão do Iate Clube até a Praça Princesa Isabel. Essa praça é o principal elo entre os moradores da ilha e os da parte continental. Será que esses agentes estão sendo contemplados por essa proposta?”, questiona Ágila Rodrigues.

Atividade gera renda e também traz problemas 

Questões fundiárias, saneamento básico e assistência médica estão entre os graves problemas enfrentados pelos moradores da ilha do Combu. “Por ser uma Área de Proteção Ambiental (APA), a venda de terrenos é proibida, mas anúncios de aluguel e venda são comuns. Não há abastecimento de água nem coleta de lixo. O morador deve enterrar, queimar ou trazer o lixo para a parte continental da cidade. Para ser sustentável, o turismo precisa ser bom para quem vive no lugar. O morador é o principal indicador das consequências positivas ou negativas”, conta Ágila Rodrigues.

Quando os moradores levam esses problemas para o Conselho Gestor, eles são direcionados para a Superintendência de Patrimônio da União. De lá, eles são redirecionados para o INCRA, por estarem em área de assentamento agroextrativista. As instituições têm dificuldade na comunicação interna, apesar de fazerem parte do conselho de gestão da APA. “Depois de anos nessa situação, os moradores estão desencorajados e não participam de reuniões nem das decisões sobre o local”, afirma a turismóloga.

É incontestável que o turismo complementa a renda dos moradores. Segundo a pesquisa, antes eles tinham só o açaí e agora, na entressafra, eles veem o turismo como uma forma de renda extra. “Mas essas famílias estão assumindo funções secundárias. A maioria atua como cozinheiro, garçom e serviços gerais. Eles não estão assumindo o protagonismo”, afirma Ágila Rodrigues.

A pesquisadora também critica o marketing que é feito para esses locais. “Recentemente, Belém ganhou o título de Cidade Criativa da Gastronomia e discute-se a criação de um Centro Global de Gastronomia. Em vez de criar um único Centro estruturado, que vai receber grupos selecionados de pessoas, por que não fazemos pequenos centros gastronômicos nas feiras e nos portos espalhados pela cidade? Assim, vamos atingir um número maior de pessoas interessadas em conhecer e desenvolver a culinária paraense. É preciso pensar em políticas públicas onde a vida realmente acontece”, conclui.

 Ed.149 - Junho e Julho de 2019

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A produção do espaço pelo e para o turismo na área de proteção ambiental da ilha do Combu (Belém-Pará)

Autora: Ágila Flaviana Alves Chaves Rodrigues

Orientador: Saint-Clair Cordeiro da Trindade Júnior.

Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Sustentável e Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA)

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