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Opinião

Publicado: Segunda, 27 de Abril de 2020, 21h31 | Última atualização em Sexta, 01 de Maio de 2020, 15h27 | Acessos: 968

Luz no fim do túnel? Possíveis implicações do coronavírus na economia brasileira 

Por André Cutrim Carvalho Foto Acervo Pessoal

Na economia, tanto o movimento ascendente (prosperidade) quanto o movimento descendente (depressão) são de natureza cumulativa. As tendências ascendentes e descendentes, uma vez iniciadas, não persistem indefinidamente no mesmo ciclo, mas acabam por inverter-se em algum momento. A manifestação de uma crise, quando da passagem do auge da expansão para o início da recessão, pode ser abrupta como ocorre com a fase criticamente aguda das pessoas que são surpreendidas pelo ataque de um novo vírus, enquanto a recuperação ocorre de forma não repentina e lenta.

A COVID-19, ou novo coronavírus, é uma doença infecciosa que ataca, sobretudo, as vias respiratórias provocando sérias complicações e, em muitos casos, levando a óbito. Neste cenário de pandemia, segundo a OMS, a economia global foi inserida numa grave crise econômica. Hyman Philip Minsky, importante cientista econômico, fez a seguinte pergunta em seu livro: Cant “It” Happen Again? traduzindo, “Pode ‘ela’ – uma Grande Depressão – acontecer novamente?”. Minsky tinha razão, pois uma nova crise econômica mundial se avizinha!

Minimizada por alguns, pode-se afirmar que os efeitos da COVID-19 ganharam implicações típicas de uma crise global. Na atual conjuntura, porém, o epicentro da economia monetária da produção capitalista assiste, com temor e preocupação, ao povo americano ocupar, dia após dia, milhares de caixões. Isso porque os EUA tornaram-se o país com o maior número de mortes por coronavírus, superando a Itália.

O medo de uma recessão fez com que o Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, injetasse cerca de US$ 1,5 trilhão na sua economia. Os Bancos de Wall Street, por exemplo, são categóricos ao afirmarem que o impacto do coronavírus na economia mundial pode chegar a US$ 5 trilhões. No Brasil, o índice de mortalidade por conta do coronavírus só tem aumentado, e a economia começa a emanar sinais típicos de uma recessão com projeções de queda do PIB de até 5%.

É preciso entender que as decisões econômicas tomadas por agentes do mercado no tempo presente, sobretudo empresários e consumidores, estão ocorrendo em um ambiente de pura incerteza e muito risco. A consequência econômica disso? A COVID-19 provocou, em nosso país, uma diminuição expressiva dos investimentos, um arrefecimento natural na produção e, por conseguinte, na geração de empregos e, é claro, uma projeção de lucro muito aquém do planejado. Fora que escancarou velhas anomalias, principalmente sociais.

Diante de ações “liberais”, urge chamar o Estado para exercer uma influência orientadora sobre a propensão a consumir, em parte pelo sistema de tributação progressiva, em parte pela fixação da taxa de juros, em parte por meio da injeção significativa de liquidez. Isso porque o principal componente para reduzir o elevado nível de desemprego, quando uma economia se encontra em estado de letargia, é o investimento público, preferencialmente aquele investimento em capital social básico e na geração de infraestrutura socioeconômica.

Nesse contexto, os pagamentos de transferências de renda, tais como auxílio emergencial e outras formas de seguridade social, precisam ser compreendidos, sobretudo pelas instâncias políticas, como estabilizadores automáticos de auxílio de uma política fiscal de uso anticíclico. No curto prazo, porém, a única possibilidade existente para mitigar o risco e a incerteza em tempos de coronavírus é preencher a lacuna entre a produção e a demanda corrente, por meio dos gastos autônomos do governo.

Para melhorar o nível de emprego, em um ambiente de recessão ou de depressão, é necessário elevar a demanda efetiva que os agentes econômicos desejam, isto é, ex ante, bem como a demanda agregada. O que significa mitigar incertezas e reverter às expectativas de perda no curto prazo dos agentes privados quanto ao futuro desconhecido.

O efeito do impacto dos gastos de investimentos públicos seria imediatamente benéfico para elevar o nível de emprego, em face do efeito multiplicador do emprego e da renda na economia, e, também, reduziria os custos de manutenção dos trabalhadores desempregados. Assim como John Maynard Keynes – outro notável cientista econômico –, considero a política fiscal anticíclica, ou seja, o gasto, a taxação e os empréstimos estatais, como um instrumento assaz importante contra o desemprego involuntário, recorrente em tempos de crise econômica.

É importante destacar que uma política fiscal precisa ser combinada com uma política monetária para ter sucesso no combate aos altos níveis de desemprego ante uma crise, também. Portanto uma socialização ampla dos investimentos é o único meio factível para superarmos essa crise. Se se quer reverter o atual estágio dos ciclos de negócios e reduzir o desemprego, é preciso que o governo antecipe e realize novos investimentos públicos de cunho social.

São ações que vão repercutir, positivamente, na camada mais humilde e vulnerável do Brasil. Os governos precisam atuar com políticas anticíclicas e, quando possível, como emprestadores de última instância para atenuar os efeitos desta pandemia. A forma institucional de tratar a relação mercado e Estado deve, por hora, superar a velha dicotomia que os opunha, até porque preservar a saúde e a vida do povo sempre será mais importante que qualquer resultado econômico, ainda que a pandemia esteja afetando a psique humana.

Tudo indica que a dívida do Brasil irá crescer, ocasionando aumento do déficit público na fase de recuperação pós-coronavírus. Algo contornável e com (prováveis) implicações positivas, pois pode movimentar, novamente, a economia e salvar um número considerável de brasileiros. O Estado de bem-estar social, como determina a Constituição de 88, precisa ser resgatado. O modus operandi do liberalismo ruiu de novo, e o resgate dos ensinamentos básicos do Mestre Keynes, por parte de vários países, confirma isso.

Em tempos de crise, não podemos negar, somos todos (um pouco) keynesianos!

 André Cutrim Carvalho - doutor em Desenvolvimento Econômico e pós-doutor em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp. Professor da Faculdade de Economia e do Núcleo de Meio Ambiente (Numa/UFPA). E-mail: andrecc83@gmail.com

Ed.154 - Abril e Maio de 2020

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