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Entrevista: O desconforto de ser estrangeiro

Publicado: Quinta, 16 de Agosto de 2018, 13h35 | Última atualização em Quinta, 16 de Agosto de 2018, 14h33 | Acessos: 3143

Israel Hounsoun fala sobre preconceito no Brasil laico e miscigenado

Israel Hounsou
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Israel Hounsou nasceu no Benin, África, e chegou ao Pará em 2014, para estudar Ciência da Computação na Universidade Federal do Pará (UFPA), por intermédio de convênio internacional para estudantes de graduação, mantido pelo MEC. Ele é um dos 300 estrangeiros matriculados na UFPA, dos quais os africanos formam uma comunidade de 80 graduandos. Entre Brasil, Rússia, Japão e França, ele optou vir para o Brasil, porque se identifica com o país. Nem todos os países que enviam estudantes concedem bolsas de estudo. O Benin, de Israel Housoun, por exemplo, é um desses. Por isso ele divide seu tempo de estudante com o de professor de Francês. Estudantes estrangeiros com dificuldades financeiras podem concorrer ao Auxílio Moradia e à Bolsa Permanência, gerenciados pela Superintendência de Assistência Estudantil da UFPA (Saest). Housoun é presidente da Associação dos Estudantes Estrangeiros da UFPA e, nesta entrevista, ele fala das dificuldades de ser estrangeiro numa universidade brasileira e do trabalho de apoio da entidade para que os alunos não se sintam tão distantes de suas realidades.

Ser estrangeiro no Brasil

Uma coisa que percebi ao chegar ao Brasil é a questão do racismo. A gente sente um choque, porque, no Benin, não tem esse problema com etnia, apesar de ser um país também de grande diversidade, que recebe pessoas de todo o mundo. Mas a nossa convivência com estrangeiros é boa, de modo geral. No Brasil, a gente percebe esse impacto. Há um olhar diferente, a gente sente isso em volta. É um choque. Racismo como expressão linguística é algo que quase não se fala no Benin, porque não faz parte do dia a dia do povo. Mas, quando a gente chega aqui, quase todo dia, para não falar toda hora, ouvimos ou percebemos o racismo. É uma realidade triste, e a gente precisa saber lidar e lutar contra ela. Não são somente os africanos que sofrem preconceito. Os sul-americanos e os asiáticos também. O problema está no fato de ser estrangeiro. Isso já cria um desconforto. Como não estamos no nosso país, não podemos adotar um posicionamento mais agressivo. Então, a gente tem que se adequar com o que está sendo oferecido. Mas também reagimos. De que forma? Promovemos eventos, organizamos debates, participamos de mesas-redondas, convidamos especialistas, trocamos experiências, enfim, tudo que possa nos ajudar a lidar com esse tipo de problema.

Língua Portuguesa

Quando cheguei ao Pará, não falava nenhuma palavra da língua portuguesa. Todo estudante estrangeiro de graduação que vem pelo convênio tem que aprender o português durante seis meses. Depois, faz uma prova de proficiência. Se aprovado, está habilitado a continuar o curso. Os reprovados voltam imediatamente aos seus países. De nada adianta você chegar à sala sem entender o que o professor está falando. Na pós-graduação, é diferente. Muitos chegam sem falar o português, mas, como são estudantes de outro nível, possuem um conhecimento mais amplo e, geralmente, estão numa faixa etária mais avançada, então se viram como podem. O português é uma língua muito difícil. O maior problema é o sotaque, que muda de pessoa para pessoa. O uso de gírias é outra dificuldade e também há as expressões de duplo sentido. Um dia, um amigo perguntou: Israel, você sabe plantar bananeira? Eu disse claro! É só pegar a semente da banana e colocar embaixo da terra e... Antes de descrever como fazer, todo mundo riu. Foi então que aprendi o que é “plantar bananeira” no Pará.

Similaridade gastronômica

Não há como negar que a cultura africana é muito diferente da cultura brasileira. Mas há algumas semelhanças, como na culinária. Há comidas que se parecem muito com as nossas. A maniçoba tem alguma coisa a ver com uma comida de Benin, também feita com maniva. Temos dois tipos de folha da mandioca, uma verde e outra vermelha. A folha vermelha é venenosa e exige um cozimento de vários dias. Mas a verde é cozida em 45 minutos. No Congo, há o Foufou, uma comida feita com farinha de milho, que parece a polenta brasileira. A nossa farinha é muito parecida com a paraense. O Benin é um dos grandes exportadores de farinha. Quando vim para cá, trouxe uma sacola com dois quilos da farinha, mas, em Guarulhos, a polícia abriu a mala e jogou tudo no lixo. Eu tentei argumentar que não era droga. Evidentemente, tenho muita saudade das nossas comidas, por isso a gente sempre organiza eventos culinários. Mas, às vezes, a falta de algum tempero africano faz enorme diferença.

A religião Vodu

Outro traço cultural em que percebo uma grande diferença é em relação à religião. Apesar de o Brasil ser um país laico, percebe-se certo preconceito com a religião do outro. No Benin, também existem várias religiões, mas, por incrível que pareça, há mais tolerância. Quando há festa de católicos ou de mulçumanos, a gente participa. Não é porque a outra pessoa é de religião diferente que você vai dizer que ela é do demônio. Somos seres humanos, só a religião é diferente. A religião Vodu é a mais tradicional do Benin, mas a ideia que se tem dela fora do país é completamente distorcida da realidade. O Vodu hollywoodiano, aquele que mostra um boneco espetado por agulhas, é falso. É uma construção que discrimina o Vodu, que é uma religião estudada por uma ciência, o Fa, como o cristianismo é estudado pela Teologia. Eu penso que se trata da religião mais verdadeira do mundo, mas não há templo de Vodu no Brasil. O que há de mais parecido são as religiões de matrizes africanas, a Umbanda e o Candomblé, por exemplo, mas não é a mesma coisa.

Adaptação

Quando comecei o curso na UFPA, ninguém falava comigo, ninguém se aproximava. Aos poucos, eu consegui me fazer respeitar e, hoje, me sinto muito bem acolhido entre colegas e professores. Pode ser por causa do meu jeito expansivo, mas foi principalmente pelas minhas boas avaliações. Mas esta é a minha experiência. Sei de colegas que já sofreram rejeição, discriminação e preconceito. São fatos e nem sempre essa discriminação está relacionada à questão étnica. A língua contribui para que sejamos isolados dentro de um grupo de estudo. Na hora da apresentação de trabalhos, isso fica mais evidente. Por acreditarem que não dominamos a língua, devido ao sotaque, somos excluídos da apresentação. Mas verifique minhas notas, veja meu aproveitamento. Não é porque um estrangeiro não domina inteiramente a língua que se torna burro. Não! Todos nós recebemos a mesma aula. Quando chego em casa, estudo como qualquer estudante brasileiro. Assim consigo o respeito, o carinho e a lealdade dos colegas. Tem gente que pensa que estrangeiros vêm estudar no Brasil porque em seus países não há condições para tal. Não é nada disso. Meu curso de Informática de Gestão, no Benin, por exemplo, teve semestre muito mais puxado que o do curso de Ciência da Computação daqui. Mas, então, por que escolhi vir pra cá? Talvez sentisse falta da parte prática no meu país. A disponibilidade de computadores é bem maior aqui. No Benin, a computação é um pouco mais recente, os computadores são mais caros, nem todos podem comprar um de primeira mão. Mesmo as universidades tendo esses equipamentos, o aluno só pode acessar quando autorizado pelo professor, então isso dificulta a prática. Na UFPA, há vários computadores no laboratório, você pode usá-los, sem problema.

A Associação

Sou presidente de uma entidade que trabalha com estudantes de diferentes países na UFPA. Um dos nossos objetivos é garantir uma boa condição de vida aos estrangeiros, não só condição financeira, mas de bem-estar. Sabemos que estamos em outro país, fora de nossas casas e longe da família. Quando chegamos, sentimos a realidade diferente e, com ela, toda a carga de preconceito, racismo e discriminação. Evidentemente, há coisas boas que nos acontecem também e contribuem para que não nos sintamos isolados. Mas as dificuldades são reais. Há estudantes que passaram por vários problemas, principalmente psicológicos, e não souberam lidar com tudo isso. Tiveram problemas de adaptação e até mudaram de Estado. É justamente por isso que a associação existe. Ela acompanha esses casos, dá apoio psicológico quando necessário, discute os problemas em eventos e encaminha reivindicações pertinentes. Trabalhamos para que nossos colegas estrangeiros não se sintam tão distantes de suas realidades.

Ed.144 - Agosto e Setembro de 2018

Comentários  

+2 #1 adérito luacuti 21-08-2018 19:11
:eek: :lol: Esse é o nosso Presidente :lol: , adorei a matéria, relatos como esse, embora que sucinto, têm ajudado no estreitamentos das relações com os estudantes estrangeiros na UFPA.
Parabéns aos envolvidos ;-)
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