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Saberes populares e tradicionais podem mudar a universidade - parte 2

Publicado: Sexta, 08 de Setembro de 2023, 19h32 | Última atualização em Sexta, 08 de Setembro de 2023, 19h52 | Acessos: 220

Licenciatura intercultural da UFG foi inspirada em iniciativa da UFRR

Etapa aldeia entre o povo Boe Bororo, em Goiás
imagem sem descrição.

Por Felipe Ewald, Carolina Melo e Carolina Pires, com Edmê Gomes Foto: Ana Paula Purcina Baumann

Gilson Ipaxi’awyga Tapirapé, do povo Apyãwa (Tapirapé - MT), tornou-se o primeiro professor indígena a tomar posse na Universidade Federal de Goiás (UFG) no dia 13 de fevereiro de 2023. O fato histórico não fora imaginado ou mesmo sonhado por Gilson quando em 2007 ingressou na primeira turma do curso de Educação Intercultural da UFG.

Com base nas articulações de lideranças e professores indígenas, a licenciatura em Educação Intercultural da UFG começou a dar os seus primeiros passos, de fato, em 2005. Naquele ano, o cacique Raul Hawakati, da Aldeia Buridina, dos Karajá, em Aruanã (GO), Aruani Karajá, também de Buridina, a professora Creusa Krahô, da Aldeia Nova, em Goiatins (TO), e Cassiano Sopero Apinajé, da aldeia São José (MT), entre outros, procuraram a professora da Faculdade de Letras, Maria do Socorro Pimentel da Silva e apresentaram a demanda de um curso superior para a formação de professores indígenas.

O então curso de Licenciatura Intercultural, hoje curso de Licenciatura em Educação Intercultural, se inspirou no pioneiro Núcleo Insikiran de Formação Superior Indígena, da Universidade Federal de Roraima (UFRR), criado em 2001, com o qual a professora Maria do Socorro havia colaborado. Entre os parceiros, estavam as Universidades Federais do Maranhão (UFMA) e de Tocantins (UFT), a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o Centro de Trabalhos Indigenistas (CTI).

Durante cinco anos, Gilson cursou a graduação na área de Ciências da Linguagem, depois participou da primeira edição da especialização em Educação Intercultural e Transdisciplinar: Gestão Pedagógica, seguiu para o mestrado em Letras e Linguística na Faculdade de Letras da UFG e atualmente cursa o doutorado na mesma unidade. Após 16 anos de estudos acadêmicos, o professor da UFG não acredita na união entre os conhecimentos indígenas e os acadêmicos, e sim no seu encontro, na sua coexistência. “A união é quase impossível, pois são visões e mundos diferentes. Mas é possível coexistir, discutir as ciências de como a universidade entende determinado fenômeno e de como os indígenas entendem” Gilson Ipaxi’awyga Tapirapé

Com o acesso de estudantes indígenas às universidades, as quais mantêm uma produção bibliográfica e epistêmica historicamente afastada da realidade dos povos originários, espera-se uma mudança também no ambiente acadêmico e na produção do conhecimento científico. “Ser o primeiro professor indígena da UFG”, afirma Gilson, “é resultado de uma grande luta coletiva. Entendemos que a partir de então a universidade cumpre o dever de criar, de fato, a interculturalidade. Esperamos que se garanta o espaço para os conhecimentos indígenas.”

O curso de Licenciatura em Educação Intercultural da UFG tem duração de cinco anos e é dividido em três matrizes específicas: Ciências da Cultura, Ciências da Linguagem e Ciências da Natureza. Nos dois primeiros anos, o acadêmico estuda a matriz básica para só depois fazer a escolha de qual matriz específica irá se dedicar nos três anos seguintes. A estrutura do curso não conta com disciplinas, mas se organiza por temas contextuais. “As disciplinas são essa caixinha formatada, fechada. Os temas contextuais permitem a abordagem do conhecimento ampliado, alargado, sem fronteira, compartilhado entre saberes e culturas. Possibilita uma abordagem mais dialógica na sala de aula. Nessa perspectiva tudo é assunto da aula. Se aquela temática surgiu no debate é porque ela faz parte do conteúdo da aula”, afirma a professora do Curso de Educação Intercultural, Mônica Veloso Borges.

Ao longo do ano, os acadêmicos indígenas e os docentes da UFG se dividem entre a universidade e a aldeia. O curso é estruturado em quatro etapas anuais: duas na Universidade, normalmente de janeiro a fevereiro, e de julho a agosto; e duas nas aldeias, nos meses de abril ou maio, e outra em setembro ou outubro. Contando com a presença de 30 povos indígenas em seu quadro de acadêmicos, o curso se organiza por meio de Comitês, que reúnem os docentes de acordo com a sua afinidade e conhecimento adquirido a respeito dos povos.

Etnodesenvolvimento: Em Altamira, graduação atende grupos com perfil diverso  

Essa mesma lógica de tempo aldeia e tempo universidade tem o curso de Etnodesenvolvimento da UFPA, no qual Uwira Domingues é professor. Pertencente à etnia Xacriabá, grupo do tronco linguístico Jê que vive entre Minas e a Bahia, mora há quase 30 anos com os Asurini do Xingu, que é um povo tupi. Atuava voluntariamente na aldeia como técnico em enfermagem e professor quando, em 2003, fez vestibular para um curso intervalar (com aulas condensadas) de Pedagogia.

Ao final da graduação, ele e alguns parentes (termo utilizado para se referir a outros sujeitos indígenas, mesmo que sejam de outras etnias e não haja laço consanguíneo direto) fizeram uma proposta para a criação de um curso específico para a formação de povos indígenas na UFPA. Nos trâmites dentro da universidade, estabeleceu-se que o curso só seria aprovado se abarcasse outros grupos de pertencimento.

“Eu era representante aqui da região e era contrário a estudar com esse povo com quem muitas vezes a gente estava em litígio por conta da terra. Os parentes me convenceram do contrário. Disseram que a gente tinha muitas coisas em comum, às quais devia se prender – a principal delas era a forma como a gente se relacionava com a terra. No entendimento dos parentes esses povos eram nossos irmãos de terra”, Uwira Domingues. O docente revela que a iniciativa utiliza a noção de grupos de pertencimento. “O que os une é a relação com a terra, o entendimento da terra como mãe ou como sujeito de direito, como uma pessoa com a qual nós partilhamos vida”, reflete.

Esses grupos de pertencimento compõem um perfil bastante variado:  indígenas, de diferentes territórios e etnias, quilombolas, ribeirinhos, pescadores tradicionais, assentados, camponeses e sujeitos provenientes de reservas extrativistas. Esses estudantes acessam o curso por meio de processo seletivo específico a cada dois anos. Neste ano, foram ofertadas duas turmas, uma no campus de Altamira e outra flexibilizada, ou seja, fora da sede, no município de São Caetano de Odivelas, na região nordeste do Pará.

Diretor da Faculdade de Etnodiversidade, que abriga o curso, Marcos Formigosa observa que são sujeitos diferentes que estão ocupando a universidade, com outra perspectiva de mundo. “A forma como esses sujeitos lidam com o mundo, a relação que eles têm com a rua, que é como eles denominam a cidade, é muito diferente. A lógica de funcionamento do seu tempo é diferente da lógica de funcionamento do que a universidade exige. Então, eles se adequam por vezes, mas também a gente tem tensionado a instituição para fazer adequações para que esses alunos tenham garantida a permanência para conclusão com êxito desse curso”, Marcos Formigosa.

Alguns ajustes dizem respeito ao calendário dos editais para acessar benefícios, que costumam ocorrer fora do período em que os estudantes estão no campus, explica Marcos, que é ribeirinho da Ilha do Marajó e, desde 2016, é professor do curso de Educação no Campo, também ligado à faculdade.

Ele destaca que, ainda que o curso de Etnodesenvolvimento seja uma licenciatura e forme majoritariamente professores, os egressos atuam em diversas frentes: na qualificação de suas associações e comunidades, na construção de projetos de etnodesenvolvimento – numa perspectiva de etnoeducadores, “que têm a possibilidade de pensar numa lógica de ensinar e aprender diferente do modelo cartesiano que a gente encontra na escola básica, mas uma lógica de ensinar em que a cultura, os modos de vida desses sujeitos sejam inseridos no contexto da sala de aula”.

Uwira relata que há entre os egressos mestres, doutores, vereadores, secretários municipais de educação e de saúde. “Isso mostra que o curso tem conseguido alcançar aquilo a que ele se propunha desde o início, que era ser uma ferramenta de emancipação social desses coletivos”. Sobre a ideia de etnodesenvolvimento, o docente ressalta que não se trata de um conceito canônico. “Ele vai sendo desconstruído e reconstruído a cada turma nova que entra, de acordo com as características dessa turma, porque todo o processo precisa ser refeito”, explica.

“A universidade”, defende Uwira, “precisa se aparelhar melhor para dialogar com esses etnoconhecimentos, porque infelizmente nós ainda vivemos um processo colonizatório. O nativo da terra brasileira assumiu um papel de colonizador do seu próprio povo. Mas à medida em que a universidade consiga estar com o ouvido preparado para não só ouvir mas escutar, ela tem muito a aprender com isso”.

Felipe Ewald é jornalista da UFRGS, Carolina Melo é jornalista da UFG, Carolina Pires é jornalista da UFJF e Edmê Gomes é jornalista da UFPA.

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