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Joalheria contemporânea

Publicado: Quarta, 04 de Outubro de 2017, 15h46 | Última atualização em Terça, 10 de Outubro de 2017, 17h46 | Acessos: 2249

Pesquisa reflete sobre o processo de criação de designer local

Abaixo, o conjunto Perpétua, inspirado em referências pessoais: as flores cultivadas pela avó de Jorge Duarte.
imagem sem descrição.

Por Amanda Nogueira Fotos Alexandre Yuri / Alexandre de Moraes

Refletir sobre a criação de joias na Amazônia e compreender o processo criativo de designers e criadores foram os principais objetivos do pesquisador Jorge José Pereira Duarte ao escrever a dissertação Lapidação criadora na joalheria contemporânea da Amazônia: processo criativo de um designer de joias, apresentada no Programa de Pós-Graduação em Artes da UFPA (PPGArtes/ICA), sob orientação do professor Miguel Santa Brígida.

A pesquisa foi realizada no Polo Joalheiro do Pará, local em que Jorge Duarte produz as suas próprias peças.  Ao analisar as joias, ele observou quais elementos foram utilizados: se eram pessoais ou da cultura local. “O trabalho gira em torno disso: uma reflexão sobre esse processo de criação”, explica.

A abordagem da pesquisa teve dois vieses principais: a Sociologia Compreensiva e a Etnocenologia. Ambas falam do processo de criação da joia usando a premissa da espetacularidade e do extracotidiano na contemporaneidade, ou seja, do que entendemos como as relações contemporâneas, tanto pessoais quanto sociais.

Para a análise, Jorge Duarte criou um método que possui a forma da lapidação de um diamante e  dividiu-o em três bases: a pessoal, as nossas memórias afetivas, o que temos como construção pessoal e particular; as influências locais, tudo aquilo que nos envolve como ambiente urbano e natural, a fauna, a flora e a geografia presentes em nossa cidade; a social, a nossa construção como coletivo e os nossos sentimentos em relação ao todo. Um dos exemplos usados foi o Círio de Nazaré, pelos sentimentos de união, de coletividade e de fé que inundam a cidade de uma forma coletiva e social.

“A analogia que eu criei foi pensando que, quanto mais facetas eu utilizo para minha criação, mais brilho ela vai ter, assim como ocorre na lapidação do diamante, já que quanto mais facetas o diamante possui, mais brilho terá. Foi uma analogia poética que eu fiz para esta análise”, explica o autor.

Três peças foram elaboradas com a nova metodologia

Primeiramente, Jorge Duarte analisou suas peças que já haviam sido produzidas. Com o esquema elaborado, ele não somente criou uma metodologia de compreensão do processo criativo, como também gerou outras três peças utilizando a ferramenta: um conjunto inspirado no fruto açaí, outra peça com foco nas práticas ribeirinhas e outro conjunto com uma forte referência pessoal.

Jorge Duarte explica que o conjunto inspirado no açaí, intitulado Fruto da Terra, possui uma potência altamente local, já que a peça trata de elementos que existem na nossa natureza, não somente o fruto do açaí como também a tapioca, que é retirada da mandioca. A joia também possui uma influência cultural, que, no caso, é o manejo do açaí, ao transformar o fruto em polpa, e a cadeia de produção da farinha de tapioca, desde a mandioca, como elemento natural, até a sua transformação no produto que consumimos. “Esta prática cultural de consumir o açaí com a farinha de tapioca é uma tradição nossa e envolve, também um pouco, a potência social”, avalia o pesquisador.

A segunda peça tem uma potência social evidente. Com o nome de Maresia, ela traz como inspiração os nossos ancestrais indígenas, que utilizam os barcos como meio de transporte e de aproximar as pessoas. “Nos barcos, surgem as conversas, as histórias, as vivências dos ribeirinhos. Esse barco acaba sendo um meio de comunicação, um meio de interação social”, esclarece o pesquisador.

O terceiro conjunto desenvolvido possui uma forte questão pessoal, sendo batizado de Perpétua. “Ele foi inspirado na minha avó, nas flores que ela cultivava no jardim, os jasmins de Santo Antônio. Por causa disso, as peças ganharam o nome dela”, conta Jorge Duarte. “Por mais que se recorra a uma potência altamente pessoal para criar, como nesse caso, existem pontos que coincidem entre as vivências particulares dos indivíduos, aproximando, assim, as histórias de vida. Isso acaba sendo a atração da peça, pois, mesmo sendo uma referência tão particular minha, muitos podem se identificar com ela”, explica.

Em cada uma das peças criadas, Jorge buscou evidenciar técnicas utilizadas na fabricação de joias no Polo Joalheiro do Pará. No primeiro exemplo, foi utilizada a esmaltação translúcida a frio, desenvolvida pela designer Helena Bezerra, que transforma em joia materiais diversos, como, no caso, a farinha de tapioca. Na segunda peça, foi evidenciada a técnica de lapidação diferenciada, da lapidária Leila Salame, que traz nas gemas a presença dos grafismos marajoaras, forte referência de nossos ancestrais indígenas. No último exemplo, é utilizada a técnica de incrustação paraense, que consiste na esmaltação de alta resistência em metais com pigmentos variados, trazendo um colorido singular às joias. Essa técnica é utilizada por diversas empresas e designers atuantes no Polo Joalheiro do Pará.

Uso de material regional faz a diferença no Polo Joalheiro

As peças que foram fabricadas antes da elaboração da estrutura de diamante foram todas desenvolvidas durante os cinco anos de atuação do pesquisador no Polo Joalheiro como designer de joias para a empresa HSCriações & Design. “Nesses projetos que eu desenvolvo como criador, procurei compreender e identificar os pontos em comum entre eles. Foi a minha prática como designer que fez surgir essa teoria e o meu método como pesquisador. Minha experiência prática com a criação foi a fonte inicial para este estudo”, relata Jorge.

No Polo Joalheiro do Pará, as peças envolvem diversos materiais regionais, como osso, chifre, madeiras e sementes. “Esse é um dos grandes diferenciais das peças do Polo. São os materiais regionais, as experimentações e as técnicas de produção inovadoras, com as inspirações e os métodos de criação que tornam a produção joalheira do Pará única”, avalia Jorge Duarte.

Do projeto ao produto

A joia possui muitos processos até a sua criação. O designer cria, faz a pesquisa e desenvolve o projeto. O lapidário faz a lapidação das gemas. O artesão traz a experiência de manipulação dos insumos locais com alto nível de qualidade e acabamento. O ourives, que é o artesão dos metais, executa o projeto idealizado pelo designer. A criação só é possível com a participação de todos esses profissionais. 

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Dissertação: Lapidação criadora na joalheria contemporânea da Amazônia: processo criativo de um designer de joias

Autor: Jorge José Pereira Duarte

Orientador: Miguel Santa Brígida

Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes/ICA)

 

Ed.139 - Outubro e Novembro de 2017

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