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Entrevista: Do Palacete Augusto Montenegro às margens do Guamá

Publicado: Segunda, 27 de Maio de 2019, 14h46 | Última atualização em Segunda, 27 de Maio de 2019, 17h50 | Acessos: 2050

Nazaré Cardoso celebra 53 anos de dedicação à UFPA

Maria de Nazaré da Costa Cardoso
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Quando Maria de Nazaré da Costa Cardoso começou a trabalhar na UFPA, era então uma jovem de 19 anos, recém-saída do Colégio Santo Antônio. A Universidade, por seu turno, não passava de uma reunião de algumas poucas faculdades espalhadas pelo centro de Belém, administrada por uma Reitoria que cabia praticamente toda dentro do imponente palacete Augusto Montenegro, na Avenida José Malcher. Admitida em 14 de março de 1966, ela trabalhou com todos os reitores da Instituição, exceto com o primeiro deles, o professor Mário Braga Henriques. Cinquenta e três anos depois, ela permanece na ativa, lotada na Secretaria do Gabinete da Reitoria. Esta entrevista sintetiza meio século de dedicação à Universidade. É também uma homenagem a todos os servidores que, com trabalho e ética, ajudam a construir a história da UFPA.

O começo

Comecei a trabalhar na UFPA para ajudar no sustento da família, durante o último ano do segundo mandato do reitor José da Silveira Netto. Minha primeira lotação foi no Setor de Comunicação, atual Protocolo, no subsolo da Reitoria, instalada no Palacete da esquina da José Malcher com a Generalíssimo Deodoro, atual Museu da UFPA. Tinha habilidade com aquelas máquinas datilográficas antigas e pesadas. Quando uma colega da secretaria da Reitoria saiu de licença maternidade, deixei o subsolo e fui para o primeiro andar, passando, então, a trabalhar no gabinete do reitor. Não conhecia a rotina do trabalho, mas, aos poucos, fui aprendendo. Continuo nele, há 53 anos.

Dedicação ao trabalho

Nunca passou pela minha cabeça deixar o trabalho para me dedicar exclusivamente a casa e para cuidar dos filhos, como era muito comum naquela época. Quando me casei, já trabalhava na Universidade. Meu marido até propôs que eu parasse de trabalhar, mas nunca admiti essa possibilidade. Era mais fácil eu deixá-lo do que largar o trabalho (risos). Quando cheguei aos 30 anos de serviço, considerei a possibilidade de me aposentar. Achava que já havia dado a minha cota de contribuição à Instituição. Havia sacrificado muito a minha família e meus filhos pelo trabalho. Casei durante a gestão do dr. Aloysio Chaves, um reitor muito rigoroso quanto ao cumprimento de horário. Então, nesta fase, eu fiquei restrita ao cumprimento das minhas funções. Meus dois filhos só nasceram após o encerramento da sua gestão.

Na década de 1960

Quando comecei a trabalhar, a UFPA não contava com as Pró-Reitorias que passaram a existir com a Reforma Universitária de 1968. A equipe pioneira foi formada pelos professores Armando Mendes, pró-reitor de Planejamento; Nelson Ribeiro, pró-reitor de Ensino; Diniz, pró-reitor de Extensão; Dra. Rosa Freitas, pró-reitora de Recursos Humanos. Nesta fase inicial, não havia a Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação, áreas que estavam apenas iniciando. O campus universitário era apenas um projeto. As faculdades funcionavam em prédios isolados pela cidade: Química, na Praça da República; Engenharia, na Campos Sales; Letras, na Generalíssimo; Odontologia, na Batista Campos, enfim, havia outras, mas eram poucas e espalhadas pela cidade.

A primeira sucessão

Trabalhei por pouco tempo com o dr. Silveira Netto. Era um homem ágil, muito inteligente, que, à sua maneira, resolvia mesmo os problemas. Ele queria tudo funcionando direito e, muitas vezes, se irritava quando não via isso acontecendo. Para mim, foi uma grande aprendizagem, principalmente por trabalhar com a Beth Ribeiro, uma mulher muito inteligente e dotada de uma memória fantástica. Quando o mandato do professor Silveira Netto chegou ao fim, teve início a gestão do Dr. Aloysio Chaves. Eu não o conhecia pessoalmente. Mas já conhecia a sua fama de homem austero, rigoroso, desde o tempo em que era diretor da Faculdade de Direito. É claro que qualquer mudança de reitor causa uma apreensão muito grande para quem atua no gabinete. Eu estava preocupada, principalmente porque a Betinha [Beth Ribeiro] se transferiu para o Departamento de Pessoal e a outra colega, Marta Barra, também havia saído. Então, eu estava sozinha para enfrentar a “fera” (risos).

Uma breve passagem fora da UFPA

Quando o Dr. Aloysio assumiu, abriu a porta da secretaria e perguntou-me: a senhora é funcionária? Respondi que sim. Eu era novinha e ele quis saber quando tempo tinha de trabalho. Ainda não havia completado um ano. Ele disse: está bem, por enquanto a senhora vai ficar aqui. Um ano depois, o juiz federal Anselmo Santiago convidou-me para trabalhar com ele na Justiça Federal. O reitor Aloysio Chaves não colocou nenhum obstáculo à minha cessão. Então fui cedida temporariamente para aquele trabalho, o único que realizei fora da Universidade. Um ano depois, quando o trabalho chegou ao fim, o Dr. Anselmo propôs que eu continuasse na Justiça. Disse-lhe que estava à disposição do serviço público, aonde fosse. Então, ele fez um ofício para o reitor solicitando minha redistribuição para a Justiça Federal, mas, desta vez, o dr. Aloysio não aceitou. O gabinete estava precisando de pessoal. Dessa forma, retornei à Universidade.

O rigor de Aloysio Chaves

O dr. Aloysio Chaves era um homem muito formal. Lembro que, meses depois de assumir, o prédio da antiga Reitoria passou por reforma, então, todo o gabinete foi transferido para onde, hoje, funciona o Ciac, já no Núcleo Pioneiro em fase de construção. Um dia, o dr. Aloysio tinha saído para almoçar e chegou um estudante que lhe desejava falar. Trajava camiseta, bermuda e chinela de borracha, como era comum naquele tempo. Sentou-se numa cadeira na secretaria e ficou aguardando o retorno do reitor. Quando este chegou, o rapaz o cumprimentou e disse que lhe desejava falar. Olhando-o de baixo para cima, o dr. Aloysio foi categórico: “Primeiro de tudo, levante-se. Segundo, vá vestir uma camisa e se recompor para poder falar comigo”. Eu e a secretária do reitor nos olhamos, envergonhadas. O rapaz ficou desconcertado. Assim era o dr. Aloysio.

Protestos estudantis

Na época da Ditadura Militar, eu era muito jovem. Não ligava para essas questões políticas, então não percebi nenhum envolvimento dos governos militares que abalasse a Universidade. Mas, como disse, era muito jovem, centrada no trabalho. O que via, porque pareciam mais aos nossos olhos, eram as manifestações estudantis, os protestos contra o governo, direcionados à Reitoria. Um dos primeiros protestos aconteceu ainda na fase da Reitoria antiga. Estudantes de Química apedrejaram o prédio. Uma pedra, de tamanho considerável, quebrou a vidraça do gabinete do Dr. Silveira. Acho que os protestos daquela época eram mais violentos.

Os primeiros tempos do Campus

Em 1968, assisti à inauguração do Campus do Guamá. Para nós, a transferência da UFPA para uma área mais isolada da cidade tornou-se algo problemático, porque tudo estava concentrado no centro, o que facilitava a comunicação. Quando chegou o momento, houve um temor. O Guamá era um bairro com fama de violento. A Bernardo Sayão era uma rua de acesso difícil, cheia de mato e lama, barracões de empresas e muitos casebres. Para facilitar a vida dos funcionários, uma kombi da UFPA fazia o nosso transporte. Vi muitas cobras pelo campus nesta fase inicial. Ainda hoje existem.

Relação com chefes e colegas

Quando o prédio da atual Reitoria foi inaugurado, o reitor era o Dr. Daniel Coelho de Souza, de quem tive a honra de ser secretária. Era um homem de jeito austero, mas extremamente compreensivo. Não se negava a atender mesmo quem estivesse fora da agenda. Depois vieram os reitores eleitos pela comunidade. Com todos, dei-me muito bem. Creio que o importante para o funcionário é ter habilidade em lidar com os chefes e com os colegas, ser disciplinado, saber comunicar-se e tratar bem as pessoas. No meu caso, sou grata à educação que recebi em casa e no colégio em que estudei. A Universidade foi o meu primeiro e único emprego. Passados 53 anos, só agora penso na aposentadoria, mas isso ainda depende dos rumos que a política atual tomará. Estou atenta.

 Ed.149 - Junho e Julho de 2019

Comentários  

0 #1 Ernani Chaves 04-08-2019 21:22
No próximo 16 de agosto, farei 37 anos só como professor da UFPA, em maio de 1983, me tornei coordenador do curso de filosofia e em 1984, representante do IFCH no Consep. Ainda no reitorado do Dr. Daniel. Foi aí, por necessidades dos cargos que ocupava, que conheci Dona Nazaré, eu bem jovenzinho, ela, já resolvendo tudo. Durante essas quase quatro décadas, falei pessoalmente muitas vezes com ela! Grande servidora de nossa Universidade!
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