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Vulneráveis e invisíveis

Publicado: Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 19h23 | Última atualização em Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 20h14 | Acessos: 1590

Pesquisa revela índice de doenças cardiovasculares entre ribeirinhos

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Doenças cardiovasculares, como diabetes e infartos, estão entre as principais causas de morte no mundo. No Brasil, elas são responsáveis por 74% dos óbitos. Frequentemente, são causadas por tempo prolongado de níveis alterados de gordura no sangue (dislipidemias). O combate a essas doenças é realizado pelo Ministério da Saúde, por meio de ações custeadas por verbas repassadas aos estados, segundo o critério de maior número de diagnósticos (prevalência) nas capitais. Cabe ao Vigitel, o programa federal de vigilância de fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis, realizar o levantamento nos grandes centros urbanos.

O Rio de Janeiro, por exemplo, lidera a prevalência no diagnóstico da diabetes, com 10% da população. Na outra ponta, estados cujas capitais apresentam índices menores recebem menos prioridade na distribuição dos recursos, situação na qual se encontram todos os da Amazônia.

Apesar da dotação menor, os números do Vigitel 2016 podem parecer bons para a Amazônia, por apontar menores incidências de doenças cardiovasculares nos estados, mas eles estão longe de traduzir a verdade. É o que aponta uma pesquisa recentemente concluída, realizada com os ribeirinhos da Amazônia, pessoas que residem nas margens dos rios, dos quais retiram a alimentação e o sustento de suas vidas.

Rede de estudo de dislipidemias da Região Norte (Dislipinorte): acessando populações vulneráveis expostas ao mercúrio é o título da pesquisa desenvolvida por cientistas das Universidades Federais do Pará, do Ceará e de Minas Gerais e do Instituto Evandro Chagas, coordenada pela bioquímica Maria Elena Crespo López, professora do Laboratório de Farmacologia Molecular (ICB/UFPA). O mercúrio, como observa a literatura científica, apresenta relação direta com a incidência de doenças cardiovasculares.

Segundo a coordenadora da Dislipinorte, o Vigitel realiza um grande mapeamento das dislipidemias para todo o Brasil, mas foca nas capitais. “Ele não reflete a realidade do país, ao ignorar o quadro nas cidades do interior brasileiro. O principal problema disso é que o Ministério da Saúde se baseia em dados incompletos para tomar medidas, definir programas, distribuir verbas no combate às dislipidemias”, explica.

Estudo foi realizado nas regiões do Tapajós e do Tocantins

Reunindo biomédicos, nutricionistas, farmacêuticos e biólogos, a equipe da Rede Dislipinorte partiu em busca de respostas a algumas inquietações: as taxas altas registradas no eixo Sul-Sudeste, por exemplo, são maiores porque o registro funciona melhor ou porque são maiores de fato? “Sabemos que, no Norte, existe a subdiagnose, quando nem todos os casos são diagnosticados e por isso não aparecem nas estatísticas”, diz Maria Elena Crespo. “É uma situação decorrente do tamanho e das características da região, que implica a dificuldade de acesso e a ausência de infraestrutura médica no interior. Nosso trabalho, centrado nos ribeirinhos, buscou mostrar a realidade dessa população invisível às políticas públicas. O Ministério da Saúde não deveria, portanto, confiar em estatísticas centradas tão somente nas capitais”.

Os pesquisadores elegeram populações ribeirinhas adultas de duas regiões para trabalhar: uma classicamente afetada pela atividade de garimpo, o Tapajós, portanto, sabidamente exposta à contaminação por mercúrio; e outra, sem atividade de garimpo, o Tocantins, que se pressuponha livre da intoxicação. As análises de sangue e de cabelos de 862 ribeirinhos revelaram uma surpresa: o nível de contaminação por mercúrio no Tocantins, 4,23 ppm, foi bem mais elevado do que no Tapajós, quase não alcançando 3 ppm, e quatro vezes maior que o valor de referência estabelecido pelos Estados Unidos, equivalente a 1,3 ppm, considerando este como limite, haja vista a inexistência de parâmetro no Brasil.

Para além da contaminação mercurial, as análises detectaram alta prevalência de glicose e pressão alteradas, indicando a possível presença de diabetes e hipertensão, em nível comparável aos das regiões urbanas de maior predominância. Em alguns casos, chegando a ser superior, como em relação ao Rio de Janeiro, cuja prevalência para hipertensão arterial, 31,7%, é menor do que os 40% registrados na população ribeirinha da Amazônia.

Para a pesquisadora, o quadro é, sem dúvida, preocupante e distante dos baixos índices de diabetes e de hipertensão registrados pelo Vigitel na Região Norte. “É uma situação alarmante, que exige das autoridades da área da saúde providências urgentes para evitar que os ribeirinhos da Amazônia continuem a morrer de doenças cardiovasculares”, alerta a bioquímica.

Tucunaré apresenta os maiores níveis de mercúrio

A escolha das populações ribeirinhas do Tocantins e do Tapajós pela equipe de pesquisadores da Rede Dislipinorte não foi por acaso. Partiu de uma constatação inquietante, inclusive para os moradores de Belém, geograficamente distantes. Ainda na fase de escolha das áreas, os pesquisadores examinaram peixes de várias espécies vendidos no mercado do Ver-o-Peso, no centro da capital. Todas as espécies apresentaram baixos níveis de mercúrio, exceto o tucunaré, procedente tanto do Tapajós quanto do Tocantins. No caso do tucunaré do Tapajós, não houve nenhuma surpresa, haja vista a atividade garimpeira ali existente. A surpresa foi em relação ao Tocantins, sem atividade de garimpo.

A coordenadora da pesquisa explica que, na região do Tocantins, o desmatamento de parte da floresta inundada pela barragem da Hidrelétrica de Tucuruí não foi total, tendo ficado muitas árvores saindo das águas (chamado de “paliteiro” pelos ribeirinhos da região). “É um bosque de árvores sem folhas, tão denso que, por vezes, não permite o trânsito de embarcações. Toda aquela matéria submersa, ao apodrecer, causa um aumento de bactérias que extraem mercúrio do solo e entram para a cadeia alimentar dos peixes e, consequentemente, para a dos ribeirinhos que os consomem”, explica a pesquisadora. O índice maior de mercúrio não é exclusivo do tucunaré, mas de todos os peixes que são piscívoros, ou seja, alimentam-se de outros peixes e acumulam mais mercúrio.

Para os ribeirinhos do Tocantins, o rio comanda a vida. O peixe é consumido em todas as alimentações do dia. No Tapajós, a situação é a mesma, mas os ribeirinhos de lá, instruídos pelos estudos sobre a contaminação há décadas, conseguem estabelecer uma alternância entre pescados piscívoros e não piscívoros, o que justificaria o menor nível de mercúrio registrado na população, nos últimos anos.

A equipe da Dislipinorte formula duas hipóteses para esse alto nível de mercúrio encontrado no cabelo dos ribeirinhos do Tocantins: o solo da Amazônia é muito rico em mercúrio, de tal forma que qualquer alteração ambiental, como a construção de uma barragem no rio, faz com que todo o ecossistema se concentre nela, aumentando o nível de mercúrio nos peixes que vivem naquele aquífero. A outra possibilidade é a transmissão pelo ar, em função da capacidade de evaporação do mercúrio, transportado por muitos quilômetros, atingindo, assim, populações distantes dos garimpos.

Pesquisadores aguardam liberação de recursos

“Quando comparamos o quadro federal das dislipidemias medido pelo Vigitel ao quadro total do Norte, adicionado aos números do Dislipinorte, a situação é realmente preocupante. Belém, com 26,3%, está acima da média nacional de 22,6%. Se considerarmos apenas os dados do Dislipinorte, os índices ultrapassam 100% os do Vigitel, com 59,7% de prevalência no Tocantins e 57,8%, no Tapajós”, resume a coordenadora.

Os dados foram levados ao conhecimento do CNPq, que financia o estudo com recursos do Ministério da Saúde. O projeto chegou ao fim após cinco anos de atividade. Mas a equipe da Dislipinorte planeja dar continuidade por entender que o trabalho, nesta segunda etapa, deve atuar na informação e na educação de novas gerações, com efeitos possíveis sobre a redução de doenças entre os ribeirinhos. Embora aprovado em 2018, o projeto ainda aguarda liberação de recursos.

Outra proposta encaminhada é a criação de um Vigitel para a Amazônia, um Vigiamazon para toda a população da região, incluindo os ribeirinhos. Segundo Maria Elena Crespo, “seria um programa especial, do IBGE ou do Ministério da Saúde, considerando que a Amazônia, em relação às dislipidemias, é uma das regiões mais afetadas do Brasil. Estamos aguardando a manifestação do governo”.

Ed.152 - Dezembro e Janeiro de 2019 / 2020

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