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Entrevista: A ponte entre a ciência e o homem

Publicado: Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 19h29 | Última atualização em Quinta, 05 de Dezembro de 2019, 20h20 | Acessos: 2250

Novos filiados da ABC falam sobre suas trajetórias 

Valéria Lima Carvalho e Renan Campos Chisté
imagem sem descrição.

Por Walter Pinto Foto Alexandre de Moraes

Em outubro passado, a Regional Norte da Academia Brasileira de Ciência realizou um simpósio, na UFPA, durante o qual diplomou seus mais novos membros. A farmacêutica bioquímica Valéria Lima Carvalho, pesquisadora do Instituto Evandro Chagas, e o cientista de alimentos Renan Campos Chisté, professor da UFPA, conquistaram o reconhecimento da instituição e tornaram-se seus novos filiados. Na ocasião, eles proferiram palestras sobre as pesquisas que realizam em suas áreas de atuação: Investigação e caracterização de arbovírus na Amazônia brasileira e Matérias-primas amazônicas como fontes de antioxidantes naturais. Nesta entrevista, Valéria e Renan falam sobre o início das suas carreiras, os caminhos que trilharam, suas contribuições ao desenvolvimento científico e tecnológico da Amazônia e o significado de pertencerem a uma das mais respeitadas instituições do mundo científico.

A escolha das áreas

Valéria Carvalho: Depois de estudar o ensino fundamental em escola pública e o médio em escola particular, optei pelo estudo da Biologia na UFPA, tendo me graduado em Farmácia, com habilitação em Bioquímica. Durante a iniciação científica, interessei-me por agentes infecciosos e parasitários, em especial os vírus. Trata-se de agentes que possuem importância em termos de saúde pública, mas são negligenciados, merecendo serem mais analisados. Além disso, os conhecimentos assimilados no período de iniciação científica me estimularam a querer aprender mais, a ponto de me especializar na área, cursando mestrado e doutorado.

Renan Chisté: Sempre soube que queria trabalhar a terra, os animais, as plantas. Em 2003, decidi fazer vestibular para o curso de Tecnologia Agroindustrial com ênfase em Tecnologia de Alimentos, na UEPA. Ao mesmo tempo, fiz vestibular para Engenharia Civil, na UFPA. Para minha surpresa, fui aprovado em ambos. Quatro semestres depois, decidi me dedicar inteiramente à Tecnologia de Alimentos. O que me motiva é a possibilidade de entender como os compostos presentes nos alimentos podem melhorar a qualidade daquilo que consumimos. Descobrir novas fontes de compostos químicos ou o potencial de utilização de novas fontes de pigmentos naturais são alguns desafios dessa área.

A importância da iniciação científica

Valéria Carvalho: Durante o período em que cursava a faculdade, realizei estágios como forma de ter as minhas primeiras experiências na profissão. Diante disso, fiz estágios voluntários na farmácia do Hospital Bettina Ferro de Souza e no Laboratório de Análises Clínicas da Polícia Militar. Também, durante a graduação, fui bolsista de iniciação científica da Seção de Arbovirologia e Febres Hemorrágicas, do Instituto Evandro Chagas. Esses estágios deram início a minha vida científica, pois tive oportunidade de desenvolver as atividades de um projeto de pesquisa na área da arbovirologia, na qual continuo até hoje. Eu penso que a iniciação científica é uma etapa fundamental na formação de um cientista, pois é nessa etapa que ele aprende o que é e como fazer pesquisa.

Renan Chisté: O meu interesse pela ciência se iniciou em 2004, quando fui voluntário em projetos de pesquisa na Embrapa Amazônia Oriental. Posteriormente, fui contemplado com uma bolsa de iniciação científica até o final da graduação. Trabalhei em estudos de matérias-primas de origem vegetal (mandioca, farinha de mandioca, castanha-do-brasil e açaí) na área de segurança alimentar. O interesse pelos compostos bioativos presentes nos alimentos surgiu ainda na graduação, ao trabalhar a caracterização físico-química de cultivares de mandioca e de açaí. Fui orientado pela engenheira Kelly de Oliveira Cohen, que despertou e plantou em mim a importância de fazer pesquisa e tornar acessível os seus resultados.
  
Contribuições à ciência
 
Valéria Carvalho: Na minha trajetória acadêmico-científica, tenho buscado contribuir com o desenvolvimento da ciência por meio de estudos e caracterização de arbovírus. Interesso-me pela investigação sobre a interação entre arbovírus e vírus específicos de insetos. Pesquiso a circulação de arbovírus em mosquitos vetores, em animais silvestres e em seres humanos. Uma vez identificado um vírus conhecido ou um novo vírus, tentamos caracterizá-lo. Além disso, também realizo pesquisas que visam estudar se os arbovírus, como o vírus do Nilo Ocidental e o vírus Encefalite Saint Louis, que causam doenças em seres humanos, interagem com vírus específicos de insetos, visto que estes vírus, muitas vezes, compartilham o mesmo mosquito vetor.  Comprovada a possível supressão da replicação de arbovírus por vírus específicos de insetos, torna-se plausível a utilização futura dos vírus específicos de insetos no controle biológico desses vírus. 

Renan Chisté: Entre as contribuições que tenho disponibilizado para o meio científico, destaco a publicação de artigos abordando o estudo das propriedades antioxidantes de compostos bioativos extraídos de fontes vegetais, principalmente as de origem amazônica (frutos e outros vegetais). Além disso, desenvolvo, em linhas gerais, trabalhos relacionados ao estudo cinético da estabilidade de pigmentos naturais, extração de compostos bioativos com propriedades antioxidantes e de cor em matrizes alimentícias, entre outros. Também sou membro dos conselhos editoriais dos periódicos Journal of Food Composition and Analysis e Heliyon. Sou também pesquisador e revisor da Fapesp e de mais de dez periódicos da área de alimentos.

Significado da filiação à ABC

Valéria Carvalho: Pertencer à Academia Brasileira de Ciências, como membro afiliado, é uma honra. É também o reconhecimento de tudo o que já foi feito até aqui, durante a minha jornada científica, mas, sobretudo, serve como estímulo para que eu possa me tornar um membro titular, não apenas no título mas também na expertise e no brilhantismo que esses renomados membros possuem, contribuindo para a ciência no país. Além disso, também é uma honra representar dois grandes centros de ensino e pesquisa: a UFPA, que, sem dúvida, tem grande participação na minha formação acadêmica, e o IEC, que me permitiu ter o primeiro contato com o desenvolvimento de pesquisas e no qual continuo atuando como pesquisadora.

Renan Chisté: Ser um membro afiliado da ABC é um privilégio, um ponto alto na minha trajetória científica. Além do reconhecimento pelo trabalho que venho executando, é uma ferramenta poderosa para que possa sensibilizar colegas cientistas e orientandos à contribuição científica mais efetiva, em prol da sociedade como um todo. É dever de um pesquisador devolver à sociedade o investimento aplicado em ciência, com vistas à melhoria da qualidade de vida da população, seja pelo repasse de conhecimento básico, seja pelo desenvolvimento de um produto aplicado. Talvez grande parte da sociedade ainda não tenha noção do que representa a contribuição de uma universidade ao país. Isso nós podemos perceber por meio das políticas de corte orçamentário praticadas pelo atual governo, que desvaloriza o serviço prestado pelas universidades. Não há desenvolvimento social, político e econômico em um país sem uma política decente de educação e sem investimento em todas as áreas do conhecimento. Pretendo fazer uso do título de membro afiliado, das informações e das formações que recebo da ABC para estimular os meus alunos e os colegas de departamento, para melhorarmos o impacto da nossa produção científica e tecnológica, com projetos que visem agregar as empresas, a sociedade e a nossa comunidade acadêmica. Pretendo também criar uma relação mais estreita entre a ABC e a UFPA.

Ed.152 - Dezembro e Janeiro de 2019 / 2020

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