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Opinião

Publicado: Quarta, 13 de Maio de 2020, 16h16 | Última atualização em Quinta, 14 de Maio de 2020, 17h56 | Acessos: 1425

Reaprender a realizar despedidas em tempos de pandemia

Por Denise Machado Cardoso Foto Acervo Pessoal

A partida de pessoas queridas sempre é algo que nos entristece, seja pela morte, seja pela separação provocada por uma viagem, seja ainda pelo afastamento ao longo da existência. Mesmo sabendo que iremos transitar nesse fluxo da vida, causa-nos dor a separação, e não importa, nesses momentos, a explicação de que o desapego é necessário, porque o que queremos é saciar nossa vontade de estar junto, estar perto de quem gostamos e admiramos.

O luto, esse lamentar pela perda, diz muito sobre nós, pois choramos diante da frustração de não termos mais a quem amamos. Inclusive quando compreendemos que o outro ente está em situação tranquila e melhor do que antes, importa a nossa dor, a lástima, a ausência da razão de nosso prazer (seja ele qual for). Somado a essa tristeza, tem-se o momento do choro melancólico, do riso que vem com a lembrança dos bons momentos e da alegria que aquela pessoa nos proporcionou. As homenagens se fazem necessárias, pois é fundamental que a vida de quem partiu seja celebrada em diferentes narrativas. Falar, descrever, ouvir e cantar as músicas preferidas, tudo isso permite esse processo de separação que o luto exige. Um desmembrar-se do outro para que o outro siga em paz, e fiquemos em paz. Deixar ir não significa deixar “pra lá”, tampouco significa o “E daí?”, pois se trata de ser submisso a uma vontade que não é a nossa e, respeitosamente, acatamos a nossa incapacidade de tudo controlar.

As leituras da Antropologia trazem narrativas sobre as mais variadas formas de realizar essa separação, e a ideia que subjaz à maioria delas é a necessidade de garantirmos que a separação do mundo dos vivos daquela do mundo dos mortos será assegurada. E mesmo considerando as diversas concepções de vida e de morte, os ritos de separação e agregação se fazem presentes. Com uso de urnas, sepulturas, cremação, preparação do corpo morto com banhos e com óleos, mumificação e uma série de outras práticas, a celebração da vida se faz diante da morte.

Quem viveu e partiu merece ser tratado com respeito pelos que ficam, e isso traz humanidade às pessoas. Antígona, sobrinha de Creonte, desafiou o Estado para sepultar seu irmão; Cristo foi deixado em catacumba mesmo condenado severamente até sua morte; Buda, ou Sidarta Gautama, teve seu corpo cremado, e os povos originários das Américas também seguiam essa prática para guardar cinzas e ossos em urnas mortuárias de cerâmica. Esses exemplos das maneiras como tais ritos se processam ao longo do tempo e do espaço fazem-nos refletir sobre as limitações que são impostas nos dias atuais.

Com a pandemia deste século, os velórios se transformaram em postagens nas mídias sociais, por meio das quais as manifestações de pesar ocorrem pela interação sustentada na conexão via internet. As missas, as orações e as notas de pesar são postadas e compartilhadas on-line ou da maneira que a Rede de Computadores permite.

Em se tratando das pessoas que desenvolvem a Covid-19,  caso, por suas complicações, venham a óbito, é mister compreender que não se trata apenas de um número. Como seres humanos, precisam ser tratados como pessoas, com todas as implicações socioculturais que essa ideia comporta. As Ciências Humanas e as Ciências Sociais, em particular, compreendem que isso implica estabelecermos práticas de respeito e igualdade diante da dor do outro, diante dos amores e dos dissabores desse outro ser.

Se, para alguns, as Ciências Humanas não têm serventia, elas vêm mostrar, demonstrar e comprovar que somos seres sociais, simbólicos e ritualísticos que comportam emoções e histórias em nossas trajetórias. O cuidado com o corpo morto e com o corpo social que permanece vivo no conjunto da sociedade é obrigatório em todas as culturas. Assim, neste instante em que reaprendemos a homenagear os mortos, velar pelas suas passagens e consolar aqueles que ficaram entre os seres vivos, as Ciências Humanas se apresentam com seus saberes e conhecimentos, adquiridos pelo aprendizado com os mais variados grupos sociais, para contribuir com as explicações e as indicações de possibilidades de respostas a essa realidade tão sofrida que ora enfrentamos.

Os olhos derramando sentimento de tristeza, a boca seca por não engolir as notícias, a carne trêmula por causa do impacto das notícias, a insônia decorrente do medo e da perplexidade diante de todo o cenário atual de pandemia. Muitos são os sinais de que algo é preciso ser feito para a superação da dor e do sofrimento. Reaprender a viver o momento do luto, dos funerais e da vida é algo iminente.

O desapego, a intenção de controlar o que não é de nosso controle, o viver em família, o cuidado consigo, o amar os seres viventes e expressar esse sentimento, a superação do individualismo exacerbado, entre outras coisas, serão lições a serem levadas em conta. Talvez outras sejam incluídas nesse rol ou, quem sabe, elas sequer serão aprendidas.

Denise Machado Cardoso  - antropóloga vinculada à Faculdade de Ciências Sociais (IFCH), atua na Assessoria da Diversidade e Inclusão Social (ADIS) e coordena o Grupo de Estudos sobre Populações Indígenas (GEPI) e o Grupo de Pesquisa em Antropologia Visual e da Imagem (VISAGEM). E-mail denisecardosoufpa@gmail.com

Ed.154 - Abril e Maio de 2020

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