Ir direto para menu de acessibilidade.

GTranslate

Portuguese English Spanish

Opções de acessibilidade

Página inicial > 2018 > 141 - fevereiro e março > Câncer entre ribeirinhas
Início do conteúdo da página

Câncer entre ribeirinhas

Publicado: Sexta, 16 de Fevereiro de 2018, 18h00 | Última atualização em Quarta, 21 de Fevereiro de 2018, 15h07 | Acessos: 2415

Consumo de peixe pode combater primeiras lesões no colo do útero

imagem sem descrição.

Por Renan Monteiro Ilustração Márcio Dias

A descentralização dos programas públicos de saúde no Brasil, em teoria, é um objetivo atingido. Desde 1988, com a implementação da Norma Operacional Básica (NOB) do Sistema Único da Saúde, aprofundou-se o processo de municipalização das ações e dos serviços de saúde em todo o país. No Pará, falando exclusivamente da assistência à saúde das mulheres que não moram na capital, houve a implantação de programas de saúde e de agentes comunitários nas regiões ribeirinhas, no entanto, mesmo com essas medidas, ainda não houve a integralização necessária para a prevenção de doenças nessas regiões.

Considerando essa realidade, a biomédica Gleyce de Fátima Silva Santos desenvolveu, no Programa de Pós-Graduação em Doenças Tropicais da UFPA, a pesquisa de mestrado Perfil sociodemográfico, epidemiológico, reprodutivo e alimentar de mulheres ribeirinhas com lesões precursoras do câncer de colo uterino, no Estado do Pará. Orientado pela professora Maria da Conceição Pinheiro, o estudo objetivou verificar o perfil das mulheres ribeirinhas da Região Norte, caracterizadas pelas dificuldades de acesso à saúde e à informação, que apresentavam lesões precursoras do colo de câncer do útero. 

“Queríamos identificar qual a prevalência de mulheres com lesões precursoras do câncer de colo do útero e descobrir qual o perfil sociodemográfico e reprodutivo que as descrevia, por exemplo: se a idade estava interferindo no aparecimento das lesões escamosas, se eram mulheres jovens ou mais velhas que tinham mais lesões, se mulheres com baixa, média ou alta escolaridade tinham mais ou menos lesões ou se eram mulheres que trabalhavam fora ou eram domésticas que mais apresentavam as lesões”, explica Gleyce de Fátima.

O estudo envolveu mulheres de três comunidades ribeirinhas, sendo duas localizadas no município de Itaituba, região do Alto Tapajós, e uma no município de Limoeiro do Ajuru, região do Baixo Tocantins. Para a realização da pesquisa nas três localidades, foi organizada uma equipe de especialistas do Núcleo de Medicina Tropical (NMT) da UFPA.

De 2013 a 2016, foram entrevistadas 384 mulheres

Gleyce de Fátima Silva Santos e a equipe do NMT instalaram-se em postos de saúde das regiões para entrevistar as participantes dos programas de prevenção do câncer do colo de útero desenvolvidos nesses municípios. “A amostra era por conveniência. Nós ficávamos nos postos e esperávamos as mulheres. Realizávamos palestra a respeito da importância do exame preventivo e do combate ao câncer, depois, aplicávamos um formulário. Nós explicávamos que realizaríamos os exames e os resultados seriam enviados para elas. Depois disso, elas seriam acompanhadas por profissionais da própria comunidade”, relata a pesquisadora.

No período de 2013 a 2016, foram entrevistadas 384 mulheres, de 12 a 64 anos. As mulheres menores de idade participaram da pesquisa com a autorização dos pais. Foram excluídas mulheres com histerectomia total do útero (retirada do útero) e portadoras de alguma dificuldade cognitiva que pudesse comprometer a obtenção dos dados. 

O formulário aplicado foi baseado em um formulário do Ministério da Saúde e adaptado para a realidade da pesquisa. Havia perguntas quanto à idade, à profissão e ao histórico sexual das participantes. Depois de feitos os exames e preenchidos os formulários, os dados foram trazidos para o Núcleo de Medicina Tropical para análise. Foram traçados os perfis sociodemográfico, epidemiológico, reprodutivo e alimentar das mulheres e foi observado se esses fatores influenciavam no aparecimento das lesões precursoras do câncer de colo de útero.

Resultados – Os resultados indicam que existe relação entre os fatores sociodemográficos, epidemiológicos e reprodutivos. A maioria das mulheres com algum tipo de lesão estava na faixa de 40 a 59 anos; tinha baixa escolaridade, o que pode sugerir falta de informação sobre o vírus; teve início da atividade sexual precoce ou não usava preservativo na relação sexual. Durante as entrevistas, foi possível perceber que isso ocorria por constrangimento com o parceiro ou parceira.

Sobre o fator alimentar, o consumo de peixes pelas mulheres ribeirinhas pode influenciar positivamente no combate ao surgimento das lesões precursoras do câncer de colo do útero. “Outro estudo indica que o pescado é fonte de vitamina ômega 3 e selênio, minerais e vitaminas antioxidantes (moléculas capazes de inibir a oxidação de outras moléculas), e eles ajudam a combater o aparecimento de células cancerígenas. Então, se essas mulheres apresentam um alto consumo de pescado, logo elas estariam, presumivelmente, mais sujeitas a combater as lesões escamosas ocasionadas pelo HPV’’, explica Gleyce Santos.

Exame não é suficiente para se prevenir da doença

Em uma das comunidades do Tapajós, os resultados foram surpreendentes. As mulheres com alto consumo de pescado foram as que apresentaram a maior prevalência de lesões escamosas. “Nessa região do Tapajós, houve muita exploração mineral nas últimas décadas, então esse rio foi prejudicado pela utilização do mercúrio no processo de exploração do ouro. Acreditamos que o pescado dessa área sofra com a contaminação por mercúrio, o que pode interferir na sua atividade antioxidante e inibir o seu benefício. Outros estudos devem ser feitos para a comprovação ou não desses fatos”, justifica Gleyce Santos.

Outro fato curioso: mulheres que relataram realizar exames anualmente foram aquelas que mais apresentaram lesões. “Nós inferimos que elas realizaram os exames, mas não voltaram para saber o resultado, ou até voltaram, mas não encontraram a orientação correta sobre o que fazer quando o exame apresentava alguma alteração. Essas mulheres não tinham a quem recorrer, pois os municípios não oferecem assistência adequada”, avalia a biomédica.

Gleyce Santos acredita que, com a indicação dos perfis dessas pacientes, se pode trabalhar melhor na prevenção do HPV. De uma infecção pelo HPV a um diagnóstico de câncer, pode-se levar até dez anos. Assim, bem informadas e orientadas, essas mulheres podem evitar a infecção pelo vírus e, consequentemente, o câncer de colo do útero. Segundo ela, o Estado é o principal responsável por essa assistência, “além de orientar as mulheres, é preciso orientar os profissionais de saúde sobre a importância do conhecimento dos fatores de risco associados ao câncer de colo do útero e melhorar o acesso à saúde nessas regiões”.

Ed.141 - Fevereiro e Março de 2018

Adicionar comentário

Todos os comentários estão sujeitos à aprovação prévia


Código de segurança
Atualizar

Fim do conteúdo da página